        Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas

Orelhas do livro:

 De                       Fernando                                Sabino
 a Mrio de Andrade

Era para eu j ter conhecido voc em 1939, quando esteve  aqui  em  Belo
Horizonte. Mas meus minguados 15 anos me emprestaram a  timidez  que  me
impediu de aparecer na casa do Guilhermino Csar, na hora  em  que  voc
estava l, conforme eu e ele havamos combinado. Como  eu  lamento  hoje
essa burrice minha. Enfim, no h de ser nada. No fim d tudo
        certo.
 B.H. 15.1.42



Outra razo de minha falta de tempo: alm do CPOR filho-da-me de  manh
cedo, da Secretaria onde estou agora, da Faculdade  tarde e do  amoreco
o tempo todo, estou dando aulas de  portugus  num  Ginsio  daqui.  Mas
vamos deixando de falar de mim, que seno agora mesmo estou lhe  dizendo
que me tornei fabricante de broinhas de fub mimoso,  ou  jardineiro  da
Praa da Liberdade nas
        horas                                                     vagas.
 B.H. 3.5.42



O que h de mais melanclico em  tudo  isso    a  gente  saber  que  "a
mocidade vai acabar". Ento a gente se acomoda na vida, e passa a sofrer
bem: aprende a curtir o sofrimento  interiormente,  a  aproveitlo  como
fora  criadora.  Eu  sei  que  isso    bom,    uma  evoluo,    esse
amadurecimento do esprito.  Mas    to  melanclico  saber  que  nosso
esprito                  vai                                amadurecer.
 B.H. 11.3.43

---

 De                Mrio                de                       Andrade
 a Fernando Sabino

No auge do prestgio literrio, verdadeiro monstro sagrado como Papa  do
Modernismo, Mrio de Andrade leu ao acaso de uma noite insone em  1942
aquele livro de contos enviado pelo desconhecido  autor.  E  resolveu
escrever-lhe, manifestando com franqueza a sua opinio: "Se  voc  est
rodeando os 20 anos, de 20 a 25, como imagino, lhe  garanto  que  o  seu
caso  bem interessante, voc promete mesmo."

Suas palavras representaram verdadeiro impacto para  o  jovem  escritor.
Tinha ele ento apenas 18 anos de idade e os contos daquele seu primeiro
livro,"Os Grilos No Cantam Mais", foram concebidos desde  os  quatorze
anos.

Com  o  entusiasmo  de  sua  juventude,  Fernando  Sabino   respondeu
emocionadamente,  nascendo  da  entre   os    dois    uma    intensa
correspondncia que durou at a morte de Mrio de Andrade, em 1945.

As  cartas  deste  valem  como  precioso  depoimento  sobre  a  dimenso
apostolar de um grande escritor.  E  sua  influncia  sobre  a  formao
intelectual  de  Fernando  Sabino,  antes  deste  tornar-se  consagrado,
constitui precioso roteiro para quem deseja iniciar-se nos mistrios  da
criao literria.

---

        Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas

De FERNANDO SABINO

Os grilos no cantam mais, contos - A marca, novela -  A  cidade  vazia,
crnicas de Nova York - A vida real, novelas - Lugares-comuns,
dicionrio - O encontro marcado, romance - O homem  nu,  contos  e  crnicas
- A
mulher do vizinho, crnicas - A companheira de viagem, Contos e crnicas
- A inglesa deslumbrada, crnicas - Gente, crnicas e  reminiscncias  -
Deixa o Alfredo falar!, crnicas e histrias -  O  encontro  das  guas,
crnica sobre Manaus - O grande mentecapto, romance - A falta que  ela  me
faz, contos e crnicas - O menino no espelho, romance -  O  gato  sou  eu,
contos e crnicas - O tabuleiro de damas, esboo de autobiografia  -  De
cabea para baixo, relatos de via gen - A volta por  cima,  crnicas  e
histrias - Zlia, uma paixo, romance-biografia - Aqui  estamos  todos
nus, novelas - A faca de dois  gumes,  novelas  -  Os  melhores  contos,
seleo - As melhores  histrias,  seleo - As  melhores  crnicas,
seleo - Com a graa de Deus, leitura fiel do Evangelho segundo o humor de
Jesus. - Macacos me mordam, conto  em  edio  infantil  -  A  chave  do
enigma, crnicas e histrias - No fim d certo, crnicas e histrias -  O
galo msico, contos e novelas - Livro aberto paginas soltas  ao  longo
do tempo. (  Editora  Record)  -  A  vitria  da  infncia,  crnicas  e
histrias - Martini seco, novela -  O  bom  ladro,  novela  -Os  restos
mortais, novela - A nudez da verdade, novela - O  outro  gume  da  faca,
novela - Um corpo de mulher, novela - O homem feito, novela - Amor  de
Capitu, recriao literria - Duas novelas de amor  -  Cara  ou  Coroa?,
seleo infanto-juvenil. (Editora Atica) - O pintor que pintou  o  sete,
histria infantil,  inspirada  em  quadros  de  Carlos  Scliar  (Editora
Berlendis & Vertecchia) - Obra  reunida  (Editora  Nova  Aguilar)  -  Os
Caadores de mentira, histria infantil, (Editora Rocco).

De MRIO DE ANDRADE

H uma gota de sangue em cada poema, poesia  -  Pau  licia  desvairada,
poesia - A escrava que no  Isaura, potica - Primeiro andar, contos  -
Losango cqui, poemas -  Amar,  verbo  intransitivo,  idlio  -  Cl  do
jabuti, poesia -  Macunama,  rapsdia  -  Remate  de  males,  poemas  -
Modinhas imperiais,estudos -Msica, doce msica,  estudos  -  Belasarte,
contos - O Aleijadinho e lvares de Azevedo, ensaios -  A  msica  e  as
canes populares no Brasil, ensaio - O samba ru ral paulista,folclore
- Os compositores  e  a  lngua  nacional,  ensaio  -  Namoros  com  a
medicina, ensaio - A expresso musical  nos  Estados-Unidos,  crtica  -
Msica do Brasil, folclore - Poesias -  A  Nau  Catarineta,  folclore  -
Pequena histria da msica - O baile das quatro artes, ensaios - Aspectos
da literatura brasileira, ensaios - Filhos da  Candinha,  crnicas  -  O
empalhador de passarinho, crtica literria -  Padre  Jesuno  do  Monte
Carmelo, biografia - Lira paulistana,  poemas  -  O  Carro  da  Misria,
poemas - Contos novos  -  Poesias  completas  -  Aspectos  das  artes
plsticas no Brasil, - Aspectos da  msica  brasileira  -  Msica  de
feitiaria no Brasil, - Danas dramticas do Brasil.





Fernando Sabino
Mrio de Andrade




Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas






EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO - SO PAULO

2003



CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Sabino, Fernando, 1923-
5121 e        Cartas a um jovem escritor e suas respostas / Fernando
Sabino, Mrio de Andrade. - Rio de Janeiro: Record, 2003.

ISBN 85-01-91060-0

        1.        Sabino, Fernando, 1923- - Correspondncia. 2.
Andrade, Mrio de, 1893-1945 - Correspondncia. 3.
Escritores brasileiros - Correspondncia. 1. Andrade,
Mrio de, 1893-1945. II. Titulo

CDD - 869.96
        03-0877        CDU - 82l.l34.3(81)-6





Capa:        Doun Spinola
Concepo de F.S.


Proibida a reproduo integral ou parcial em livro de qualquer
espcie ou outra forma de publicao sem autorizao expressa do autor.
Reservados todos os direitos de traduo e adaptao.
Copyright (c) 2003 by Fernando Sabino.
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Rio de Janeiro, RJ, Brasil.


Direitos exclusivos desta edio reservados pela
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ISBN 85-01-91060-0

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EDITORA AFILIADA




"Leva-se um longo tempo para vir a ser jovem."
PABLO PICASSO





"Nesta                Rua                Lopes                   Chaves
 envelheo,                e                                envergonhado
 nem        sei        quem        foi        Lopes              Chaves.
 Mame!        me             d                essa                lua,
 Ser               desconhecido                e                ignorado
 Como estes nomes da rua."

A CASA nmero 546 da Rua Lopes Chaves, em So Paulo,  era  conhecida  em
todo o Brasil. De  l  partiam  numerosas  cartas  numa  letra  mida  e
segurssima (algumas datilografadas, quando  o  assunto  exigia  que  se
tirasse cpia). Cartas dirigidas a escritores, artistas, ou simplesmente
amigos de todo o pas.
        Uma delas certo dia me chegou s mos em  Belo  Horizonte.  Mos
pressurosas em rasgar avidamente o envelope, na excitao  dos  meus  18
anos, to logo dei com o nome do remetente e o famoso  endereo.  Era  a
propsito do meu livro de estria,  do  qual  eu  ousara  enviar-lhe  um
exemplar e que ele havia lido quase por acaso, numa noite de lazer.  Foi
o incio de uma correspondncia e de uma amizade (apesar dos trinta anos
de diferena entre ns dois) que durou at sua morte.

*Improviso do Amigo Morto,"Gente", Editora Record, 1975.

7

NAQUELE tempo, ser escritor era ser artista.
        Eu lhe confiava as minhas dvidas e preocupaes literrias  com
o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do
artista, a importncia ou desimportncia do sucesso,  a  necessidade  de
escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento  do  estilo,  a
opo entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda  na
poca. Com sua pacincia apostolar (e epistolar), ele me respondia longa
e  minuciosamente,  procurando  me  orientar  no  cipoal    de    minhas
contradies.
        Aos poucosfui passando  das  questes  artsticas  ou  meramente
estticas para os problemas pessoais.  Deveria  ou  no  aceitar  aquele
emprego? Resistiria s tentaes  da  facilidade,  por  mim  confundida,
segundo ele, com um falso conceito de felicidade? Em outras palavras:  o
casamento emperspectiva, sendo eu to jovem,  no  seria  fatal  para  a
minha vocao de escritor?
        "Ah, mocidade perversa, amor insacivel!" como  ele  prprio  me
respondia, com condescendente ternura. Mas de sbito me assustei, quando
me vi ante a perspectiva, nao apenas do  compromisso  oficial  a  que  a
paixo juvenil me precipitava: teria como padrinho da noiva na cerimnia
de casamento, a convite do Governador, meu futuro sogro,  ningum  menos
que o prprio Presidente da Repblica, cuja ditadura eu j  aprendera  a
repudiar. No haveria melhor desagravo,para o homem independente que  eu
pretendia vir a ser, em contrapartida ter como  meu  padrinho  Mrio  de
Andrade, sabidamente um dos maiores adversrios do ditador.
        O convite foi feito por mim pessoalmente em  encontro  nosso  no
Rio s para este fim. Ele aceitou, mas pouco depois

8

alegava numa carta alguns motivos o seu tanto evasivos, para  que  eu  o
dispensasse de comparecer, sugerindo que algum mais o representasse.
        Guardei comigo a decepo, mas me retra. At que uma queixa sua
a um amigo meu, em termos ferinos de que tomei conhecimento, provocou  o
estouro: despejei numa carta toda a minha mgoa ante o que  me  parecera
uma  desero.  Ele  respondeu  se  defendendo,fui  a  So  Paulo   para
celebrarmos  a  paz.  E  depois  de  longo  intervalo,  voltamos  a  nos
corresponder.

FORAM numerosas cartas de parte aparte, ao longo de trs anos - s vezes
uma por semana, com alguns telefonemas de permeio. Representavam  o  que
podia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor.
        Teria adiantado? Relidas agora, diante dos  problemas  de  hoje,
parecem falar de um tempo morto e de assuntos j sem  memria,  como  se
estivssemos discutindo  o  sexo  dos  anjos.  Que  lugar  ocuparia  ele
atualmente, na ordem das coisas? No entanto,  a  sua  presena  na  vida
cultural do Brasil era a de um gigante, de corpo e alma, atravs da  sua
obra e da influncia pessoal. O papa do modernismo! Cada novo livro  seu
era uma sensao nos meios  literrios.  Basta  lembrar  suas  cartas  a
Manuel Bandeira, Carlos Drummond deAndrade, Prudente de  Mora  es  Neto,
Rodrigo M. E de Andrade, Pedro Nava, Rachel de Queiroz, Portinari, Lcio
Rangel, Moacir Werneck de Castro, Murilo Miranda, Carlos  Lacerda,  para
mencionar apenas alguns  amigos.  E  os  de  Minas:  Henriqueta  Lisboa,
Alphonsus de Guimaraens Filho,  Hlio  Pellegrino,  Otto  Lara  Resende,
Paulo Mendes Campos, Iodo Etienne Filho, Murilo Rubio, Wilson Figueiredo
e tantos outros.

9

        A sua penltima carta para mim, cerca de  dois  meses  antes  de
morrer, encerrava-se com palavras que me emocionaram, mas  cujo  sentido
de dramtica premonio s mais tarde pude apreender:

"No se arrependa e no me poupe nunca -  o melhor jeito de  me  deixar
leal para comigo. Mas estou abatidssimo, de fato estou destroado. E um
abatimento de mim; provocado pela sua carta, mas causado por  mim.  Este
esgotamento preventivo que do as  fatalidades  que  a  gente  no  pode
mudar"
        Mas a verdade  que o nome dele  hoje ode a uma rua do Rio,  no
Jardim Botnico, ali no Largo dos Lees e ainda h pouco uma jovem amiga
que sabe as coisas me disse que no sabe quem foi Mrio de Andrade.

 "Mame!        me            d                essa                lua,
 Ser               desconhecido                e                ignorado
 Como        esses          nomes                da                rua."
 FS.

        A LTIMA vez que o vi foi  sada de um bar na Avenida So Joo,
depois de uma rodada de chopes com vrios amigos comuns, por ocasio  do
Congresso de Escritores, em fevereiro de 1945. Ele se despediu de mim na
calada, ej se afastando voltou-se, ergueu a mo no ar num gesto  largo
muito seu, dizendo: ""Adeus." "Adeus, por qu?"  -  protestei:"Voc  no
pretende morrer, e eu muito menos. Vamos nos ver breve, se  Deus  quiser
aqui ou no Rio." Ele sorriu e se afastou sem  dizer  mais  nada.  Alguns
dias depois eu recebia a notcia de sua morte.

 "Quando eu morrer quero ficar,
  No contem aos meus inimigos,
  Sepultado em minha cidade,
  Saudade.

  As mos atirem por a,
  Que desvivam como viveram,
  As tripas atirem pro Diabo,
  Que o esprito ser de Deus.
  Adeus."

10 11

S. Paulo, 10-01-42

        Fernando Tavares Sabino
        Si voc quiser continuar sendo escritor, antes de mais nada  tem
que encurtar o nome. Tavares Sabino, Fernando Tavares, Fernando  Sabino.
O  que    impossvel    Fernando  Tavares  Sabino.  Me  desculpe  esta
sinceridade e entremos

pelas outras.
        Muita ocupao, s nesta noite de sbado pude ler os seus contos
e lhe escrevo imediatamente, enquanto a impresso  ntida. Saio do  seu
livro com a convico de que voc  um escritor,  um artista. No que o
livro seja bom, mas  uma estria  excelente,  uma  estria  promissora,
denunciando fartas possibilidades.
        Antes de mais nada: eu achava que os estreantes deviam  pr  nos
seus  livros  a  idade  que  tm.  Que  idade  tem  voc?  Isso  importa
extraordinariamente num caso  como  o  seu,  por  causa  justamente  das
possibilidades fartas. Si voc est rodeando os vinte anos, de  vinte  a
vinte  e  cinco  como  imagino,  lhe  garanto  que  o  seu  caso    bem
interessante, que voc promete muito. E o livro, neste caso   bom.  Mas
si voc j tem trinta ou trinta e cinco anos,  j  estudou  muito  (voc
parece de  fato  se  preocupar  com  a  expresso  lingstica)  e  est
homem-feito, no lhe posso dar aplauso que valha.  Neste  caso  o  livro
fica medocre, sem o menor interesse.  apenas um dos muitos

---

*AS cartas de Mrio de Andrade foram transcritas na ntegra,  respeitada
a grafia de certas palavras que lhe era prpria.


13

        Seu livro j est muito bem escrito. No h dvida  nenhuma  que
voc, como bom mineiro (?) tem o  sentimento  da  lngua,  como  cultura
eprincipalmente como estilo, como expresso de pensamento. E tem no  que
escreve um sabor brasileiro, muito firme, muito ntido e muito  atilado.
De extremo bom gosto. Quero dizer: voc no cai  em  nenhum  exagero  de
brasileirismo falso. Com um  bocado  mais  de  apuro  estilstico  e  de
conhecimento tcnico da linguagem, das linguagens populares  do  Brasil,
voc chegar a timo, talvez grande escritor. De uma  lngua  que  j  
indiscutivelmente, nacional.
        O problema, a meu ver,  tanto mais grave no caso  de  voc  que
nele se intercala o da sua personalidade de ficcionista.  Ser  voc  de
fato um contista? Este problema  dos mais graves e dos quevoc  precisa
resolver pra si prprio.  incontestvel que voc no tem  nenhum  conto
verdadeiramente forte como assunto. Cujo assunto imponha o conto por  si
mesmo, como Os Faroleiros, de Monteiro Lobato, como Pedro  o  Barqueiro,
deAfonso Arinos. No nego que sejam "contos" os contos de voc, mas  no
parece, pelo livro, que voc tenha  forte  imaginao  criadora,  grande
imaginativa, excepcionalfaculdade de inveno.
        Seus contos so leves e delicadas transposies lricas da vida,
como o admirvel "Anos Verdes", ou irnicas transposies realsticas da
vida. Estou pensando em Machado de Assis. Seus contos esto longe de ser
impressionantes. Longe de prenderem a gente por  uma  idealidade  humana
definitiva qualquer. A  que a arte, como beleza  de  criao  tcnica,
interfere definitivamente para impor e justificar um  criador.  Si  voc
no fizer coisas maravilhosamente bem feitas como tcnica, como  estilo,
como arte de escrever, como bom gosto espiritual, voc ser apenas "mais
um".

14

        No gnero dos seus  contos,  voc  tem,  a  meu  ver,  descadas
lastimveiS,principalmente para o lado anedtico. Apesar das oservaes,
excelentes, no realismo humorstico com que voc  esteriotipa  gestos  e
expresses verbais, contos como As Rosas Iam Murchar e o Padre Venncio,
so simples anedotas simplrias  de  lastimvel  descontrole  e  nenhuma
autocrtica. Mesmo o caso do telefone que,  no  posso  negar,    muito
engraado e me fez  rir  bastante,  ,  em  ltima  anlise,  grosseiro,
tratado sem tacto, sem delicadeza, bacalhoada de Portugal com arrotos  e
todas as faltas de medida. Quando voc tem, pra salvar  seus  contos  na
arte, de abandonar qualquer colorido mediterrneo e se esquipar no senso
de medida dos franceses,  e  na  delicadeza  espiritual  de  ingleses  e
nrdicos.
        Mas ainda eu me pergunto si sua tendncia    realmente  para  o
conto e no para o romance... Pela faculdade de observa o naturalista,
pela riqueza de tipos psicolgicos, no sei, sinto em muitos dos  nossos
contistas, e em voc, romancistas verdadeiros,  que  por  preguia,  por
falta de tomar flego, erram de espcie, se dispersam no  conto,  quando
so romancistas legtimos.
        No sei si voc consegue perceber que  no  fundo  seu  livro  me
interessou muito. Mais voc que o livro, alis... Conformea  idade,  lhe
garanto que voc pode ir longe. Mas  no  como  um  Jorge  Amado,  pouco
trabalho, ignorncia muita, criao de sobra. Voc tem que trabalhar dia
por dia. Como um Machado de Assis.
        E  no  lhe  seria  possvel  botar   um    bocado    mais    de
responsabilidade humana coletiva nas suas obras?...

         Mrio                 de                                Andrade
 R. Lopes Chaves, 546-S. Paulo


15

        B.H. 15-1-42

        Prezado Mrio de Andrade,
        Acabo de receber sua carta. Para mim ela vale mais do  que  tudo
que falaram - ou poderiam falar - de" Os Grilos".
        Explico-me: h muito esperava sua opiniao, no que ela pudesse me
servir, com ansiedade incontida.  Confesso  que  pensei  nela  antes  da
publicao do livro (e esta foi para mim apenas um meio  de  orientao,
um marco, um ponto de partida). Pois bem - a orientao esperada  partiu
de voc, com essa carta. E como se eu tivesse publicado o  livro  apenas
para receb-la. Voc me  indica  caminhos,  toca  em  pontos  de  grande
importncia, mostra os defeitos, interessado, bem  intencionado,  amigo.
Era isso o que eu desejava e precisava. Voc no  pode  calcular  quanto
valor tm para mim certos esclarecimentos  seus,  questes  como  aquela
sobre se serei mesmo um contista, sua opinio a respeito  da  linguagem,
etc. Quero, pois, de incio, que voc saiba de minha gratido, que no 
pequena.
        Quanto  idade,  um pouco menor do que voc achava, pois  tenho
18 encabulados anos. E o meu medo de sua opinio a respeito  dos  contos
se  modificar  muito,  mormente  sabendo  que   alguns    deles,    como
"Telefone","As Rosas Iam Murchar" e outros, foram escritos e  publicados
h mais de 4 anos. Temo que voc  agora  passe  a  achar  que  um  valor
possivelmente notado aqui ou ali no seja seno o resultado de um  maior
ardor de juventude ou de um feliz  momento  de  criao  inconsciente  e
ignorada. Gostaria at que, se  fosse  possvel,  voc  me  esclarecesse
isso, sabendo a importncia que tem para mim: se sua opinio  sobre  "Os
Grilos", quanto s  possibilidades,  fora  criadora,  contedo  humano,
etc., se modificou ao saber  a  minha  idade.  Um  ponto  que  me  deixa
satisfeito pela maneira com a qual voc o esclareceu,  a  respeito  dos
Contos anedticos e por que so eles inferiores aos outros. Tambm o que
voc falou da linguagem (achando qualidade onde  os  outros  s  acharam
timidez e acanhamento, descobrindo cultura onde  os  outros  descobriram
ignorncia) me alegrou sobremaneira.  Antes  de  sua  carta,  eu  estava
absolutamente desorientado. S se justificavam,  para  os  outros,  trs
contos ("Festinha em Famlia","As Rosas Iam Murchar"  e  "O  Telefone"),
justamente os mais antigos. Os outros no prestavam para nada. Que  que
eu podia concluir da?  Que  aos  14  anos  eu  tinha  uma  vocaozinha
literria, perdida inteiramente hoje!
        Todo mundo est falando que meus contos nem  contos  so.  Foram
classificados como crnica, o diabo a quatro. Pode voc calcular,  pois,
como veio me ajudar essa  sua  carta  hoje  recebida.  Ando  desanimado,
estril, mergulhado num pessimismo que voc nem faz idia.
        Voc me desculpe a desordem e  a  extenso  desta  minha  carta.
Queria lhe  dizer  vrias  coisas  mais.  Pediria  at  a  voc  que  me
escrevesse outra vez, depois de receb-la, caso seja possvel. Pelo  que
eu vi suas cartas ajudam muito a gente. Era para  eu  j  ter  conhecido
voc em 1939,  quando  esteve  aqui.  Mas  meus  minguados  15  anos  me
emprestaram a timidez que me impediu de aparecer na casa do  Guilhermino
Csar, na hora que voc estava l, conforme

16 17




eu e ele havamos combinado. Como eu lamento hoje  essa  burrice  minha.
Enfim, no h de ser nada. No fim d tudo certo.
        Voc  no  se  importe  se  eu  lhe  escrever  novamente.  Estou
encantado com essa sinceridade, e tambm, que diabo,  gostei,  e  muito:
to encantado que j aceitei sua sugesto e encurtei meu nome:

 Fernando                                                         Sabino
 Rua Gonalves Dias, 1458 Belo Horizonte

P.S. Sou mineiro, sim, de Belo Horizonte mesmo. Desculpe  o  tamanho  da
carta, e no mais, l vai um abrao.
        Mrio de Andrade,
        Esta minha carta foi escrita com arrebatamento, logo que  recebi
a sua, de tanto valor para mim, me ajudando muito, mas muito  mesmo  (se
voc tem mais coisas como aquelas para me dizer,  ento,  eu  lhe  peo,
Mrio, no deixe de dizer). Sei  que  posso  comear  a  abusar  de  sua
camaradagem e interesse, que at agora me deixam embasbacado.
        Relendo esta carta com calma, vi que ela s poder  te  chatear,
nada mais, pois trata de um assunto que provavelmente no tem soluo, e
cuja resposta sua provavelmente seja tocar para a  frente  e  deixar  as
coisas correrem, no se preocupando com esses negcios, que  no  fim  d
tudo certo. O que  eu  quero  com  esta  pgina  (que  aqui  acrescento,
aumentando escandalosamente o volume da carta),  que voc me desculpe a
chateao, que eu desde j me sinto amigo seu e   por  isso  que  estou
confiando em voc, na sua franqueza me dizendo se devo ou no  continuar
querendo saber ou se devo aguardar, etc. Agradeo muito a sua  lembrana
de enviar-me as poesias, que quase comprei - e  agora,  boa  viagem  por
essa baguna de carta afora.

FS.













        18 19 S. Paulo, 25-1-4 2

        Fernando Sabino
        Recebi sua carta e refleti sobre ela. A concluso mais sria pra
mim a seguinte: Vejo que estamos os dois na iminncia  de  iniciar  uma
correspondncia longa e nutrida. Pra voc, moo, cheio da vida  e  ainda
no"consagrado", ansioso de saber, isso no vai  ser  difcil.  Pra  mim
vai. Seria estpido eu no saber que sou"consagrado". S os esforos, os
esperneios, ospapeles que fao pra no virar medalho  duma  vez,  voce
nem imagina. Sucede, pois,  natural, que tenho  muitssimo  trabalho  e
tambm uma correspondncia enorme. No  hesito  um  s  segundo  em  lhe
garantir que, apesar de tudo isto, no me pesar em  nada  lhe  escrever
muito, auxiliar voc no que eu possa. Apenas, preliminarmente, eu desejo
que voce se examine bem, num verdadeiro exame de concincia, antes de se
decidir a exigir esta correspondncia.
        Veja  bem:  voc  tem  direito  de  exigir  minhas   cartas    e
explicaes. Voc tem os direitos da idade, de querer saber e de  querer
ser. Isso lhe basta, me basta e, alis,  tudo. Me escreva pois quanto e
quando quiser. E deve abolir do seu esprito e da sua timidez natural  a
idia de que est me chateando, me fazendo perder tempo.  Si  posso  ser
til, meu tempo esta ganho.
        Mas antes exijo que voc  pense  muito  seriamente  sobre  voc.
Tanto mais que, pelo que seu livro indica como  tendncias  pessoais,  o
seu caminho na arte  pesado, muito rduo e sem  brilho.  Voc  no  ir
estourar por a, ganhando a batalha de um golpe  s,  como  um  Lins  do
Rego, uma Raquel de Queiroz. Sinto que voc no foi feito pra  isso  nem
poderd nunca fazer isso. Seu  destino  artstico    mido,feminino,  de
nhem-nhem-nhem. O  caso  da  "gua  mole  em  pedra  dura"...  Voc  ir
escrevendo, ir escrevendo, se apeffeioando, progredindo aos poucos: um
belo dia (si voc agentar o tranco) os outros percebem  que  existe  um
grande escritor.
        Ora, Fernando, pra agentar com um destino desses, antes de mais
nada, preciso ter uma ambio enorme,  uma  pacincia  enraivecida,  um
desejo de se "vingar" da vida, e uma ensolarada sade mental.  Voc  tem
isso? No seja tmido nem humilde no, que ento   fracasso  na  certa.
No tenha vergonha de se confessar a si mesmo (no a mim) que  voc  tem
timas qualidades,  muito inteligente,  orgulhoso de si, tem  desprezo
pela frouxido alheia e quer chegar e h-de chegar
        Eu sei o que  a desconfiana de si mesmo: os maiores a tm. Mas
esta psetdo-desconfiana na verdade   confiana,  a  gente  sente  que
podia dar mais,  insatisfao de si mesmo,    um  sofrimento  horrvel
causado justamente  pela  confiana  que  temos  em  ns,  pela  ambio
voluntariosa, pelo orgulho. Esse orgulho que  o despimento das vaidades
minsculas - essa vaidade to comum nos artistas menores,  nos  artistas
frouxos, que se satisfazem com migalhas.
        Voc   moo,"belo,forte,  jovem"  como  disse  de  si  mesmo  o
Vincius de Morais. No seu caso, acho que voc no pode  sedarpordestino
conseguir um segundo lugar: voc tem que pretender ao primeiro. As vezes
a gente se assusta um bocado, se acovarda, parece at cinismo de  idiota
pretender ser o Primeiro. No , Fernando.    simplesmente  o  processo
mais modesto de alcanar o terceiro lugar Voc deve querer ser tudo e  o
maior S se dando uma empreitada dessas, voc E,




















































































20 21




ser honesto, no se deixar levar pela  vida,  no  se  contentar  com
migalhas, no se afrouxar.
        Voc  no  precisa  me  responder  sobre  isto,  o  problema   
exclusivamente seu e  sempre uma indelicadeza que  nos  abate  a  gente
dizer que se sente forte e se deu um grande  destino.  A  resposta  ser
voc continuar me sugando, tirando de mim  tudo  o  que  possa  auxiliar
voc, fazer o mesmo com os outros, com todos, porque a nica  coisa  que
importa  voc.
        E o que h de lindo, de  maravilhoso  mesmo,  neste  "voc"  que
importa,  que o que importa no  exatamente voc mas  a  obra-de-arte.
Isto : uma forma coletiva de vida humana. Quanto a voc, no dia em  que
voc tiver a maior consagra o  possvel,  um  banquete  de  cinco  mil
talheres, um congresso de intelectuais te sagrando o prncipe, o rei,  o
deus das artes nacionais e internacionais, festa acabada, voc  ter  s
um sentimento dentro de si, decepo. A festa foi  pouco,  voce  sentir
vagamente que a  consagrao  foi  pouco.  Coisa  danada  o  destino,  a
psicologia do artista... E em mxima parte esse castigo de ser  artista,
essa decepo eternamente insatisfeita creio que vem desse desequilbrio
insanvel, dessa duplicidade irreconcilivel: a gente  dar  tudo  o  que
tem, todo o trabalho, todo o pensamento, toda a dor  em  proveito...  de
outrem,  da  obra-de-arte,  um  elemento  intermedirio.  Voc  no  age
diretamente,"sexualmen te" como um santo, um missionrio, um soldado, um
chefe. Voc cria um objeto que vai agir sozinho, por si mesmo, sem  mais
a interferncia  de  voc.  Mas,  sem  que  isto  seja  uma  compensao
propriamente, voce visou, criou um elemento  de  eternidade.  Este    o
mistrio bravo do destino do artista:  visara  obra-de-arte,  visar  uma
transcendncia  aleatria  e  problemtica,  que  por  mais  que   renda
(aplausos, riqueza) tem outra finalidade  que  o  rendimento,  por  mais
desvirtuada e incompreendida visa a permanncia e  busca  a  eternidade.
Repare que s do artista j se disse, e quantas vezes! que ele  como um
deus, tem o destino de Deus. Vem disso: vem do  elemento  de  eternidade
que est implcito na obra-de-arte, a nica coisa  que  tem  importncia
pro artista verdadeiro.
        Meu Deus! inda no comecei esta carta!... Creio que  vou  deixar
muito assunto pra outra vez. Resumindo o que  falei:  Voc  se  analise,
pense seriamente  sobre  voc,  sobre  si  voc  sente  mesmo  em  si  a
fatalidade pesada de ser artista, sobre  si  tem  coragem  e  fora  pra
agentar o tranco duro que vai ser o seu. E preciso pra voc  ter  muita
sade mental pra no se amolar com  os  outros,  com  as  incompreenses
alheias, com as humilhaes. Si voc tem orgulho sufi ciente pra  mandar
o mundo  puta-que-o-pariu, em benefcio desse mesmo mundo  imbecil.  Si
voc tem coragem pra tanto, sem falsa humildade, ento vamos principiar
        Bom: tambm no faa desse problema um caso de vida ou de morte.
O que preciso  voc ter coragem, na sua idade, pra se  afirmar  diante
de um espelho e com toda a seriedade que a arte  uma coisa muito sria.
Porque na sua idade, que diabo! pau isso da gente  ter  apenas  dezoito
anos, preferia que voc tivesse vinte e um. Principalmente ns, gente do
sul, menos equatorializada, o  desenvolvimento    mais  vagaroso,  mais
europeu.  Mais  garantido  tambm.  Dezoito  anos    idade  muito   sem
significao pra mineiro, pra paulista  ou  paranaense.  No  h-de  ser
nada. No  verdade que os seus contos dos 14 anos sejam  seus  milhores
contos. Voc progrediu. No se amole de dizerem que os seus  contos  no
so "contos", so cr nicas etc. Isso tudo  latrinrio, no tem a menor
importncia em arte. Discutir "gneros literrios"

22 23




 tema de retoriquice besta. Todos  os  gneros  sempre  efatalmente  se
entrosaram, no h limites entre eles. O  que  importa  a  validade  do
assunto na sua forma prpria.
        Voc, eis que se acha de posse de um assunto. A primeira coisa a
fazer  analisar friamente o seu assunto. Ele vale? Com ele  voc  obtm
qualquer coisa de humano, de til? Voc expe  uma  realidade  da  vida?
voc castiga ou exalta uma classe, uma virtude, uma necessidade  social?
Bem, si o seu assunto voc acha que  tem  qualquer  validade  funcional,
agora  ver o que ele rende como arte. E  nesta procura  de  rendimento
que o fundo (o assunto) acha naturalmente a sua forma. A  linguagem  tem
de ser esta, o tamanho tem de ser este.  muito mais o tamanho  deduzido
do contedo do assunto que determina  o  gnero  do  continente,  e  no
decidir assim sem necessidade mas se prendendo a  um  preconceito,  quea
coisa vai ser conto, crnica ou romance, ou poesia em prosa.
        Estas preocupaes preliminares como que esfriam  a  criao,  o
poder criador, a vontade de criar No esfriam nada,  bobagem.  Voc,por
favor, nunca venha me argumentando com as  palavras  "espontaneidade"  e
"sinceridade", tenho verdadeiro horror delas.  a  vaidade  e  tambm  a
deshon estidade do artista que as  inventou.  E  a  eterna  e  repulsiva
confuso entre o artista e a obra-de-arte  que  lhes  d  uma  aparncia
falsa de legitimidade. Pra obra-de-arte, a sinceridade, a espontaneidade
do artista no tem significao nenhuma.
        De resto, quando falei que de posse de um assunto o artista  tem
que pesar os possveis valores funcionais dele  (que  podem  ser  tambm
apenas de beleza) e depois  decidir  do  instrumento  esttico  que  vai
realizar milhormente esse assunto, de forma alguma exigi que isto  fosse
feito antes da criao. Em grande parte feito durante a  criao  epode
ser feito depois. O que preciso  que haja esse trabalho crtico,  essa
autocrtica tambm,  imprescindvel.
        Mas no imagine que mesmo feito antes  esse  trabalho  esfrie  a
criao. Esfria pros frouxos e isto no pode ter interesse nenhum nestes
problemas. O simples fato do  artista  estar  sinceramente  entregue  ao
pensamento  do  seu  assunto,  a  tomar  notas  de  frases,  de   traos
psicolgicos, deformas, de idias  o  vai  predispondopsicologi  camente
para o ato de criao. E esta chega mesmo.
        Aqui entra de novo essa fatal sinceridade na  argumenta  o:  
certo que o artista no deve ter pressa,   preciso  saber  esperar  Mas
isso do sujeito que s se pe escrevendo  "quando  sente  disposio"  
estupidez mas da mida. Principalmente para o prosador. De fato o  poeta
s deve criar quando  em  estado  de  poesia.  Mas  isso  no    sentir
disposio, j  estar fatalizado por uma impulso interior de  que  ele
no tem a culpa. O prosador no. O  prosador  lida  com  a  inteligncia
lgica, est no plano do consciente, das relaes de causa e  efeito.  O
seu discurso tem cabea, tronco e membros,  princpiomeio-e-fim,  embora
pouco importe que muitas vezes  o  assunto  exija  que  ofim  esteja  no
princpio, e o princpio no meio. No tem disposio? No  se  trata  de
ter disposio: voc  um operrio como qualquer outro: se trata de  ter
horas de trabalho. Ento, v escrevendo, v trabalhando  sem  disposio
mesmo. A coisa principia difcil, voc hesita, escreve besteira, no faz
maL De repente  voc  percebe  que,  correntemente  oupenosamente  (isto
depende da pessoa) voc  est  dizendo  coisas    acertadas,  inventando
belezas, foras, etc. Depois, ento,  no  trabalho  de  polimento,  voc
cortar o que no presta, descobrir coisas pra encher os  vazios,  etc.
etc.

24 25

        No h como a fatura de um filme pra exemplificar bem o trabalho
de todo e qualquer artista. So cortes e  mais  cortes,  novos  close-up
afazer, tanto preparo anterior, tanto trabalho posterior,  coisa  lenta,
difcil, penosa.
        Arre que chega por hoje! no princpio do  ms  lhe  mandarei  as
minhas Poesias. E mais uma vez: no se  amole  em  me  escrever,  em  me
perguntar coisas, discordar, discutir, etc. Estou snceramente  s  suas
ordens desque voc sepredisponha a ser honesto. Sei que sou  o  animador
mais... desanimador que existe. Mas  que sempre  tive  a  convico  (e
exemplos) que os bons agentam o tranco, do por paus e por pedras,  mas
vo pra diante de qualquer maneira. Com um abrao do

Mrio de Andrade B.H. 30/1/42

Prezado Mrio,
        Ontem, conversando com o Murilo Rubio (alis, ele me contou que
lhe escreveu pedindo para publicar sua primeira carta dirigida a mim,  e
mostrou a sua resposta. Como  eu  no  sabia  dessa  histria,  no  vou
publicar nada, porque acho que isso  afinal uma coisa aqui entre ns, e
que s interessa a mim) mas,  como  dizia,  conversando  com  o  Murilo,
chegamos a um assunto que sua nova carta  agora  recebida  vem  suscitar
novas reflexes em torno dele.
        Sem mais delongas, trata-se do seguinte:  certo que a  obra  de
arte exige do artista tudo aquilo que ele tem de vida, de  fora  humana
que s o sofrimento  capaz de proporcionar. Sem isto a  obra  deixa  de
ser arte, se ela no  a objetivao palpitante da vida do artista  (no
no sentido autobiogrfico, propriamente).
        Mas o probllma a est: este sofrimento, imprescindvel,  vem  a
ser o da no-realizao de outros ideais. O de uma felicidade dependente
de circunstncias exteriores, por exemplo. Ou simplesmente a angstia em
face do desconhecido, do infinito, de Deus, de no-se-sabe-o-qu nem por
qu, etc., que trazemos dentro da gente. Essa  marca  profunda  que  nos
diferencia dos outros, essa tortura interior, independente de  quaisquer
circunstncias, que nasce com a gente. No sei  se  me  exprimo  bem,  e
talvez no consiga que voc entenda nem a minha letra... (Se foro  caso,
me avise, que a prxima escreverei a mquina.)

26 27

E
        No  fcil me fazer entender por escrito sobre um assunto grave
que s uma longa conversa pessoal haveria de esclarecer.
        Vou tentar resumir: aquilo que a  realizao  da  obra  de  arte
exige de ns  este sentimento que j tenho, anterior e inato, ou tem de
ser a negao deliberada de toda felicidade, de todo ideal fora da arte,
tem de ser uma dor posterior, adquirida? Vou  objetivar  mais  ainda,  e
voc compreender ento, Mrio, quanto  importante essa questo que lhe
confio, o quanto vale para mim uma resposta sua. Tanto mais que se trata
de um caso pessoal, decisivo para minha vida, como voc  pode  imaginar.
Em duas palavras: eu tendo em vista uma felicidade muito  esperada,  uma
possibilidade de realizar essa felicidade, que  no  me  apagar,  estou
certo, esse sofrimento, essa carncia a que me  referi:  acha  voc  que
isso ir impedir de me realizar como escritor? E imprescindvel  que  eu
dispense essa oportunidade de ser feliz, que  eu  sofra  vendo  os  meus
sonhos desabarem, minhas esperanas frustradas, tudo fracassado na vida,
para que venha a criar alguma coisa?
        Voc j deve ter compreendido o quanto isso  decisivo para mim,
Mrio. Trata-se de renegar muita coisa, pela realizao daquilo  que  eu
quero ser, que eu hei de ser. Ser preciso?
        Se voc no me entendeu, escreva um carto assim:  "No  entendi
aquela sua barafunda." Se est barafunda mesmo, vou tentar mais uma vez,
porque no posso perder esta oportunidade de esclarecer isto.
        A arte    tanto  mais  bela  e  perfeita  quanto  mais  feia  e
imperfeita for a  vida  do  artista?  Ou  paira  acima  e  independente,
dominando a vida e no sendo dominada por ela? Queria saber o  que  voc
acha.

28

         isso, seu Mrio. Voc se prope ajudar-me. No pode calcular a
xaropada em que foi se meter. Porque eu no rejeito, ah, isso  que no,
sempre achei que voc poderia me ajudar. E  sou  um  sujeito  chato  pra
burro, desorientado, dando com a cabea na parede. Voc  com  uma  carta
resolve uma poro de coisas para mim.
        Voc disse, por exemplo, que eu"no devo esperar  a  disposio,
sou um operrio com horas certas de trabalho" - e  eu  levei  ao  p  da
letra. Em duas linhas voc  me  esclarece  mais  que  os  "intelectuais"
daqui, em conversas a noite inteira.  Mas  no  quero  chatear  voc  de
maneira nenhuma. No se acanhe: escreva-me dizendo se est sem tempos se
no pode  no  momento,  etc.  Arquive  minhas  cartas,  e  oportunamente
conversaremos - quem sabe at pessoalmente, se voc vier aqui ou eu  for
a. E o tal negcio: sua boa vontade, camaradagem, franqueza, me levaram
alm das medidas. No passarei dessa pgina.
        Grande abrao e a amizade certa do

Fernando





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        S. Paulo, 1 6-11-42

        Fernando Sabino,
        Vou pegar esta segunda-feira de carnaval pra lhe responder  mais
longamente. Voc j deve ter  recebido  um  carto  meu  a  respeito  do
assunto que voc meprops.  que a sua carta respirava um tal desejo  de
saber logo o que eu imaginava sobre o problema que tocava  imediatamente
a prtica de sua vida, que eu no quis  deixar  voc  numa  espera  mais
longa.
        O assunto alis  de uma complexidade enorme. Em  resumo  o  que
voc me pergunta  o  seguinte:  Sendo  a  arte  um  produto  direto  da
insatisfao humana, o artista, para se preservar  em  sua  integridade,
tem que renegar toda e qualquer facilidade  que  lhe  aparecer  na  vida
prtica ? No  isso mesmo que voc quer saber? O que  imagino    isto:
voc est decidido com grande honradez moral a ser artista, mas eis que,
nos seus dezoito anos, a vida agarrou voc na esquina e lhe ofereceu  um
timo presente vital, que voc julga sera sua felicidade.  E  voc  est
receioso de aceitar, temendo que isso venha a prejudicar o  seu  destino
de artista. S h uma resposta possvel imediata: Aceite o  que  a  vida
lhe oferece e experimente. Voc, na sua discreo de primeira hora,  no
quis dizer logo com franqueza qual era o gnero defacilidade (repare que
insisto em"facilidade", evitando a palavra "felicidade"),  si  amor,  si
riqueza, deve ser uma destas duas. Podem ser tambm as duas juntas: amor
sincerssimo que acontece ser rico,  noivado,  casamento  legal  e  vida
arranjada, sem mais inquietaes financeiras. Mesmo que seja assim,  no
hesito um segundo em responder que aceite.
        No h dvida nenhuma que a arte tem entre os  elementos  que  a
constituem a insatisfao. A arte  filha da dor, dizem e voc repete na
sua carta. Prefiro  dizer  insatisfao,  que    mais  dinmico;  e  da
insatisfao, a arte no  s filha mas esposa, companheira quotidiana e
me. O artista verdadeiro jamais estar satisfeito consigo mesmo nem com
a obra-de-arte que produziu. H satisfaes momentneas, est  claro.  E
h, meu Deus! os satisfeitos... Mas voc h-de observar em  toda  a  sua
vida que os "satisfeitos" com sua misso e com as  obras  que  realizam,
nunca sero  artistas  "verdadeiros":  so  medocres,  so  francamente
rins. Quanto s satisfaes momentneas, embora quase nunca elas  sejam
completas, nada de mais psicologicamente  lgico.  Voc,  como  artista,
cumpriu entusiasticamente, sem fadiga, o seu deve, isto ,  deu  tudo  o
que tinha. A obra-de-arte est realizada com todas as foras de qualquer
espcie que voc tem. E natural que voc no veja. A obra-de-arte  voc
inteirinho,  e  todas  as  suas  possibilidades  crticas  a  consideram
excelente. No use ento modstia falsa: se diga com lealdade  que  voc
considera a sua obra excelente. Ela o , enquanto a voc. E  voc  sente
ento uma espcie natural de satisfao. Como  artista  voc  foi"moral"
dando tudo o que tinha. A sua obra se identifica com voc, pois que  ela
 tudo o que voc . Voc h-de  necessariamente  sentir  a  conscincia
tranqila  e  com  isso  uma  espcie  de  satisfao,  derivada   desse
equilbrio relacional entre voc e a sua obra. Mas desde  o  momento  em
que voc tornar pblica a sua obra e ela for viver independente de voc,
as insatisfaes viro, e os desgostos. As incompreenses sero  fatais.
Os desvios ainda  mais  fatais,  e  isso  desgosta  prodigiosam  ente  o
artista. Ele no  pode  mais  mandar  na  sua  obra,  ela  adquiriu  sua
maioridade eprinci-

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pia fazendo  estrepolias  incrveis.  O  que  eu  tenho  sofrido  com  o
"Macunama", principalmente com ele, voc  nem  pode  imaginar...  E  no
entanto, si escrito em pleno estado de possesso (a primeira redao foi
feita inteirinha em seis dias), em que eu  no  sofria  nada  no  mpeto
sublime da cria ao, mas tambm nempodiapr conscincia  na  sublimidade
em que estava pela extenso mesma desta sublimidade  que  me  obnubilava
qualquer estado de concincia analtica, o que posso  lhe  jurar    que
Macunama foi  detestavelmente  doloroso  pra  mim.  Nos  momentos  mais
anedticos, mais engraados do entrecho, eu no deixava de  sofrer  pelo
meu heri, sofrer a falta de organizao moral dele, (do brasileiro, que
ele satiriza), de reprovar o que  ele  estava  fazendo  contra  a  minha
vontade. E quando no fim Macunama no ponto de  se  regenerar,  fraqueja
mais uma vez e prefere ir viver  o  brilho"intil"  das  estrelas,  meus
olhos se encheram de lgrimas. Se encheram e  se  enchero  sempre.  Mas
isso ainda no  nada, com o que foi  depois,  quando  Macunama  estava
publicado e no tinha mais nada comigo. Tenho ouvido os maiores  elogios
ao meu livro - e isso  sempre agradvel ao artista  verdadeiro,  porque
no existe um s artista verdadeiro que no artefaa com a  inteno  de
ser amado. Mas os pouqussimos que refletiram sobre o  livro:  ou  foram
uns porque-me-ufano-do-meu-pas que recusaram  a  stira  e  continuaram
muito satisfeitos da vida, ou foram os que  s  retiraram  do  livro  um
reforo conciente de seu amoralismo... nacional. Mas agora veja bem: no
imagine no que eu VOU bancar  o  incompreendido  e  sustentar  o  valor
crtico do meu livro! Eu tenho bastante sade mental pra reconhecer  que
a vida  uma luta, e que nesse jogo do Macunama eu perdi de um a  zero:
eu errei. Macunama  uma"obra-prima" que falhou. Toca pra frente!
        Voc confundiu, como fazem todos, felicidade com facilidade.  Eu
desconfio, ainda no sei, pelos seus escritos, que voc   catlico,  ou
pelo menos, certamente deformao catlica. Est bem, isso no  trar  a
menor sombra, enquanto a mim, em nossas relaes pessoais, seja  voc  o
que for. Eu tambm sou deformao catlica, acredito vorazmente em Deus,
epor maiores que sejam os meus descaminhos, sei que morrerei  (si  morte
con ciente) em  estado  catlico.  Mas    estranho  como  no  tenho  a
menor"religio",  nisso  em  que  a  religio    uma  religao,    uma
organizao coletivizada das nossas relaes e  deveres  pra  com  Deus.
Respeito, no   bem  respeito,  "acredito"por  demais  na  con  cincia
alheia,pra tentar desmanchar a convico alheia. Mas  o  que  eu  queria
dizer  que, por isso mesmo de voc estar catolicizado, voc  no  podia
ter empregado a palavra felicidade pro seu caso atual. Ser tudo  o  que
voc quiser, um deslumbramento, um
        delrio sublime que voc est prestes a conquistar,  si  no  j
conquistou. Mas felicidade no  no. Si voc chegar a uma  conceituao
verdadeiramente filosfica do que seja Felicidade, voc perceber que  o
sentido popular em que voc  empregou  a  palavra    defeituoso  e  at
imoral. Imoral porque desvia o indivduo  da  sua  integridade,  da  sua
destinao coletiva e mesmo individual. Coisa muito mais  alta  que  uma
facilidade momentnea ou mesmo permanente.
        E aqui   que  est  o  buslis:  O  difcil,  o  dificlimo,  o
tremendamente  difcil    voc,  no  convvio   de    sua    facilidade
(principalmente si for a riqueza), conservar a integridade moral do  seu
destino de artista.  difcil, porm no  impossvel. De uma  coisa  eu
tenho certeza: por maior que  seja  afacilidade  (felicidade)  que  voc
conquistar, seja voc arvista,  Hitler,  Stalin,  inventor,  Getlio  ou
ladro, voc jamais

32 33

ficar satisfeito: h-de querer mais. Nisto no h mal:  a marca divina
do homem. O mal  que, embora buscando sempre aumentar insatisfeitamente
a"felicidade" con quistada (isto . um Ford nunca deixar de pretender o
aumento de sua riqueza,  s  vezes  at  "desviando"  a  pretenso  para
apoltica, o amor, a esmola, o"altrusmo"  etc.),  o  mal    que  voc,
embora pretenda se aumentar, voc principia agindo sorrateiramente  como
si estivesse satisfeito:  o conform ismo. Esta  a cilada que  o  homem
encontra quotidianamente em seu caminho, o conformismo. Ela principia j
por ser fisiolgica:  a lei da estabilizao, a lei  que  eu  chamo  da
"preguia", ns vivemos morrendo. Quando o princpio moral verdadeiro, 
justo o contrrio: ns devemos viver  sempre  nascendo:  tudo  deve  ser
sempre objeto de aprimoramento pessoal  e  a  busca  da  perfeio.  No
hesito em afirmar: toda facilidade, toda  felicidade    desmoralizante.
Mas ento como conciliar  a  minha  at  intimao  de  voc  aceitar  a
felicidade que a vida est lhe oferecendo e  esta  convico  de  que  a
felicidade  desmoralizadora?
         simples, meu irmozinho,  embora  seja  difcil.    voc  no
perder jamais de concincia que a sua experincia de felicidade deve ser
tambm um objeto de aprimoramento pessoal. A  felicidade,  o  prazer,  a
facilidade tambm  uma prova por que a gente passa. Nisso  a  simblica
da criao   admirvel.  Deus  no  sujeitou  Ado  a  sete  provas  de
infelicidade, matar drages nem atravessar o mar  a  nado:  sujei  tou-o
apenas a uma prova de felicidade,  o  jardim  das  delcias.  Mas  Ado,
insatisfeito, rockfellerizou-se, quis tambm a ma... E  se  "brincou".
No seu caso particular de artista: o operrio, cada  vez  que  principia
trabalhando, no reverifiCa os seus instrumentos de trabalho?  no  afia
afoice, no azeita a mquina? Voc tambm precisa estar  sempre  alerta,
pra  que  seu  trabalho  seja  legtimo.  Voc    precisa    reverificar
constantemente os seus instrumentos de trabalho.  difcil, a facilidade
tende a esquecer isso, a seqestrar a idia da gente se  repensar  e  se
reverificar em seus trabalhos. Mas h um jeito  muito  humano  da  gente
consertar essa tendncia sorrateira: afixao de uma  data  comemorativa
da sua grandeza de homem e de artista. Fixe uma data anual  para  o  seu
retiro espiritual, eu fao isso  nofim  do  ano,  que  e  mais  fcil  e
inesquecvel. O que fiz este ano que passou? no que isso  me  acrescenta
em minha obra ou a prejudica? o que preciso fazer este ano  prximo?  no
que devo me completar?  Afinal  das  contas  estou  lhe  dizendo  coisas
banais, que, aos banais, parece estar cheirando  a  confessionrio.  No
ser to banal assim... a vida tem de ser, muito mais que  um  viver-se,
um continuado repensar-se. E s isso lhe peo quase...  paternalmen  te,
meu Deus! nossas idades so to afastadas uma da  outra!  No  se  deixe
desleixadamente viver  como  a  maioria  infinita  dos  nossos  artistas
brasileiros. Como  eles  so  pobres  de  humanidade!...  As  vezes  so
riqussimos de atividade e variedade vital: tudo lhes aconteceu, as mais
diversas mulheres, todas as pobrezas, todas  as  riquezas,  cem  doenas
difceis, cem sades, cem poderes. No entanto  nada  disso  lhes  serviu
para se tornarem um ser, um  ser  ntegro,  completado  em  si  mesmo  e
insolvel.  So  macunaimticos,  se  dissolvem  nos  seus  atos  ,  sem
realizarem uma"ao ", que  continuidade. No so homens, so gua. Mas
a gente tem vergonha de se repensar. Fazer  exame  de  concincia,  isso
"desvio" (ah, a psicanlise!...) Prprio de  meninotes  e  das  frgeis
mulheres."Eu sou um Sp frito forte!", e so  os  mais  inexistentes  dos
espritos...

34 35

        No  justo a gente se recusar uma facilidade  que  a  vida  nos
oferea, desque essa facilidade seja justa. A felicidade no amor  nem  
apenas justa,  uma espcie de dever. Nem mesmo a riqueza deixa  de  ser
justa. O difcil  voc, em seguida, cumprir com os deveres humanos  que
essa facilidade lhe  impe.  Mas  si  voc  estiver  bem  definido,  bem
conceituado e bem consciente dos seus deveres pra consigo e pra  com  os
homens, voc apenas  tirar  de  suas  facilidades  mais  uma  fora  de
aperfeioamento. Afinal das contas, Goethe no se perdeu. E Vitor  Hugo,
nos dias de maior realizao amorosa escreveu a "Tristesse  dOlympio"...
E ainda existe esse mistrio de "infelicidade me persegue", como dizia o
samba. A verdade mais insolvel  essa... Voc j  reparou  num  fim  de
festa de que voc participou de corpo  e  alma,  apaixonadamente.  Festa
acabou e voc sente um vazio inconsistente, que no chega  a  doer,  no
chega a ser desiluso, no chega a ser nada de nitidamente qualificvel:
voc apenas atinge uma noo vaga de mesquinhez. Tudo o que houve e  que
foi bom, como que no foi bastante! No recuse  afelzcidade.  O  momento
h-de vir em que voc perceber meio assustado que ela foi imensa e  que
no foi bastante.
        Voc na sua carta  me  pareceu  que  est  um  pouco  mstico  a
respeito  da  necessidade  do  sofrimento  pessoal  para  a   realizao
artstica. Pelo menos voc afirma peremptoriamente:"e essa realizao, 
inequvoco, que s o sofrimento    capaz  de  proporcionar".  Mas  vejo
assustado que estou no caminho de mais cinco pginas de datilografia!  E
tambm  fico  um  bocado  com  medo  das  minhas  cartas  se    tornarem
pretensiosas, como si eu  tivesse  veleidade  de  decidir  de  todos  os
problemas humanos. No tenho. Estou apenas lhe dando, como falei desde a
primeira carta, creio, o auxlio que pode derivar da minha experincia e
do meu pensamento mais amadurecido. No: a arte  no    um  sofrimento,
exatamente, nem  s o sofrimento que a pode legitimamente proporcionar.
O momento da criao  um  prazer  sublime,  e  estou  completamente  em
desacordo com os que o consideram um parto. Nem posso compreender mesmo,
essa assimilao da criao artstica com o parto. Deriva certamente  da
semelhana objetiva, entre o  filho  e  a  obra-de-arte.  O  momento  de
criao gostosssimo, verdadeiramente aquela sublimidade de  integrao
e de dadivosidade do ser, em que a gente fica na  ejaculao  sexual.  
to sublime mesmo,  tamanha a integrao, que a gente no se pode ilhar
num estado de concincia crtica e se analisar. O  ser  mais  frgil  do
mundo, mais escravo, mais indefeso  o homem no momento  da  ejaculao:
ele fica por completo inerme. Esse o momento da criao artstica. O que
sucede,  que esse momento    rapidssimo  (como  a  ejaculao),  dura
alguns segundos. E logo a gente principia o  trabalho  mais  pen  oso  e
principalmente muito mais inquieto  de  artefazer,  corrigir,  criticar,
julgar, intencionalizar, dirigir  a  obra-de-arte,  polir,  etc.,  etc.,
sacrificar coisas que gosta em proveito de uma significao funcional da
obra-de-arte, que  mais importante que a gente, o diabo.  Nisso    que
vem muito sofrimento, muita fadiga, muita indeciso. Mas  estranho como
neste trabalho longo, voc  Constantemente  se  v  atirado  de  novo  
volpia da criao,  incrvel como voc "inventa". Parece que voc est
glido, dirigindo friamente o trabalho de aperfeioamento e no  entanto,
at no desistir voluntariamente de uma coisa que voc gosta, em proveito
de uma finalidade maior, que seja mesmo apenas o  equilbrio  formal  da
obra-de-arte, mesmo nesse sacrifcio, voc retorna a um estado ativo  de
poesia, voc

36 37


pratica uma ejaculao, voc est em plena volpia criadora.    preciso
ser mais humilde, ainda aqui, mais operrio, e no mistificar por demais
essa histria da arte ser filha da dor.  dolorido, penoso, fatigante,
 sobretudo  inquieto,  inquietante  e  insatisfatrio.  Mas    gostoso
tambm,  msculo, , sobretudo, de uma grande dignidade. A arte   "uma
tortura", como voc diz? Apenas eu lhe pergunto uma coisa: voc  conhece
qualquer profi ssionalidade humana que,  realizada  com  dignidade,  no
seja uma tortura tambm? E a vaidade do artista individualistizado que o
leva ao seu "atendite et videte si est dolor sicut dolor meus".  Isso  
individualismo pretensioso. A tortura  de todos e se confunde com o que
de-fato seja viver humanamente. O que sucede  que a maioria  dos  seres
(e tambm dos artistas) vegeta  em  vez  de  humanamente  viver.  E  no
estaremos por acaso insultando os vegetais?...
        Ser que estas digresses escritas ao lu do  pensamento  e  sem
ordenao, lhe bastam? Si no bastarem continue discutindo, at voc  se
fixar num estado de concincia suficiente  pra  organizar  em  voc  uma
atitude coordenadora do seu trabalho futuro. Ainda havia o que  comentar
na sua carta, mas estou cansado. Eu aconselharia desde logo a  voc  no
se prendera equaes muito ntidas e simplrias. Afinal das contas voc,
justamente por ser um intelectual, no pode se alimentar de  provrbios;
no se esquea que os provrbios tambm so  uma  derivao  da  lei  da
preguia, um viver morrendo. Por exemplo: nofim quase da sua carta, voc
me pergunta si a arte "paira acima e independente, dominando  a  vida  e
no sendo dominada por ela". Isso  provrbio,  simplrio  por  demais.
Que a arte, sob  certo  ponto,  paire  acima  da  vida,  inda  possvel
aceitar, porque se servindo de elementos estticos (a beleza, o material
transpostor, a crtica da vida, etc.) ela nunca  a vida mesma,  e  nos
oferece uma sntese nova dessa mesma vida. A arte no h dvida  nenhuma
que  uma espcie de mentira, mas no sentido em que voc diz ao  enfermo
que ele est milhor ou  criana que si ela brincar com  fogo,  mija  na
cama. Voc no mente com a inteno de enganar, mas justo na inteno de
atingir um beneficiamento maior. Mas por tudo isto mesmo, a arte  jamais
 independente da vida: h interdependncia  insolvel  e  irrecorrvel,
que faz com que nem a vida domine a arte nem esta quela.  No  desligue
assim proverbialmente duas coisas  que  so  a  mesma  coisa.  At  como
aspirao elas so a mesma coisa:  pois  tudo  no  aspira  a  uma  vida
milhor?... Com um abrao do

Mrio de Andrade

        38 39




        Belo Horizonte, 10 de Maro de 1942

        Meu caro Mrio,
        Recebi o seu carto, no qual voc antecipava a resposta que iria
dar  minha carta. Esta resposta  tambem  recebi,  dentro  do  livro  de
Poesias que voc to gentilmente me enviou.
        Vou te contar por que no pude e escrever no mesmo  dia  em  que
recebi, nem nos outros, s hoje: uma baqueta  (da  bateria  que  costumo
tocar nas horas vagas) escapuliu de minha mo, e entrou de ponta num dos
olhos, rompeu a conjuntiva e causou uma grande eroso na crnea. Isso na
quinta-feira de antes do Carnaval. Tive que fazer  um  tratamento  muito
intensivo, pois ainda faltava uma prova no  concurso  do  vestibular  de
Direito (prova que tive de fazer com metade da  cara  anestesiada).  Nem
pude ler  sua  carta  quando  ela  chegou,  leram  para  mim.  S  muito
recentemente consegui recuperar a vista (perdi o  Carnaval,  agora  voc
imagine...), e no estou muito em condies de  grande  esforo  visual.
Estou at de licena na Secretaria da qual sou burocrata convicto... Por
isso ainda no lhe escrevi.
        Voc no pense nem um instante que sua  carta  nO  me  agradou.
Agradou demais. Eu precisava dela, Mrio. Preciso  muito  da  orientao
que voc pode me dar. E me envergonhei logo s primeiras linhas suas, de
minha falta de sinceridade, no me abrindo inteiramente  com  voc.  No
ficou sabendo ao certo que espcie de facilidade a  que  me  referi,  se
amor, se riqueza, ou qualquer outra coisa.

40

Me desculpe, Mrio, e no atribua este silncio  seno  a  um  pouco  de
timidez, sei l.
         amor,  amor dos bravos. Exatissimamente aquilo que voc  diz:
"amor sincerssimo que acontece ser rico,  noivado,  casamento  legal  e
vida arranjada, sem mais inquietaes financeiras". Tenho pelo  menos  a
impresso que vai ser mesmo assim, e voc pode rir de mim, mas  o  nico
medo que eu tenho  da guerra atrapalhar... Foi bom,  muito  bom  o  que
voc disse para mim, Mrio. Sinceridade, franqueza, bondade, que  diabo,
verdadeiro irmo mais velho. Ela me compreende  como  nunca  pensei  que
houvesse algum capaz, me completa de uma  maneira  assustadora,  no  
medocre no, mesmo julgada imparcialmente, est do Lado da gente,   de
nossa espcie. Poderei desejar alguma coisa mais? S poder  me  ajudar,
disso tenho certeza, e toda dvida que eu tivesse voc dissipou.  Apesar
da posio dela, Mrio, pode crer que  digna que voc a conhea. E  vou
parando de falar nela, que seno esta carta no acaba mais.
        Uma coisa que me impressionou foi sua referncia   religio.  E
se a minha confuso de felicidade e facilidade  foi  resultante  de  uma
simples troca de nomes, chamando  eu  "felicidade"  o  que  deveria  ser
chamado de "facilidade", nada mais certo para mim, contudo,  que  eu  me
sinto capaz de conservar a integridade moral do meu destino de escritor.
        D certo  mal-estar  na  gente  ficar  falando  em  "destino  de
escritor", como se no fosse uma certeza que  mora  no  fundo,  no  mais
profundo  do  nosso  ser,  e  que  morre  apenas  aflora    superfcie,
desaparece to logo se transforma em palavras.  Mas  no  estou  falando
para os outros, estou

41

falando para voc, o que  quase uma forma  diferente  de  falar  comigo
mesmo, tamanha a compreenso de que  te  sinto  capaz.  Depois  de  lida
muitas vezes sua carta to preciosa num momento como esse para  a  minha
vida,  consegui  colocar  nos  devidos  lugares  certas  nooes  que  se
confundiam em  meu  esprito.  Consegui  distinguir  a  infelicidade,  a
dificuldade na vida, da angstia e da insatisfao. Consegui compreender
a possibilidade da insatisfao e a  angstia  coexistirem  ao  lado  da
pseudo-felicidade ou como diz voc,  facilidade.  Pude  entender  e  ate
sentir a possibilidade de experimentar a felicidade que tenho em  vista,
como objeto de aprimoramento pessoal. Sei agora que esta ser na verdade
uma prova, uma experincia um caminho como qualquer outro que me  levar
a algo mais, que alcanarei se o esforo feito e a capacidade  existente
o tenham merecido. E  mais do que justa essa  facilidade  que  est  se
oferecendo para mim. Como recus-la? Vejo tudo claro.  Sentia  vagamente
que haveria de ser assim mesmo, mas  foi  vOc  quem  colocou  tudo  nos
devidos lugares. O que me importa  aquilo que eu hei de ser, cus  te  o
que custar. O que eu hei de fazer -  o  resto  interessa  exclusivamente
pela possibilidade que oferece de me levar a  tal  fim.  Ou  se  no  me
impede de l chegar.
        E a felicidade que tenho em vista,   indiscutvel  que  no  me
impede, mas ajuda, e muito. No recus-la, pois,  e  sim  segur-la  com
unhas e dentes, me esforar no sentido de que ela se realize,  por  mais
difcil que isso seja. Por que sem isso no experimento  coisa  nenhuma,
no  assim? Vem, fica para sempre, ou  passa,  sem  me  tocar,  sem  me
marcar, me ferir.  preciso em resumo, fazer tudo para no perd-la e  
isso que vou fazer.

42

        Depois de tudo que ficou dito,  voc  poder  calcular  mais  ou
menos o quanto me ajudou, o quanto sou agradecido por suas  palavras  de
bondade, e tudo o que voc vem fazendo por mim. At  me  perdoar  certas
ingenuidades indesculpveis, a que eu poderia ter fugido na minha carta,
se tivesse refletido um pouco. Mas no h de ser nada. E como voc  diz:
tocar para frente. Tanto mais  que  voc  ainda  ter  que  desculpar  a
extenso das minhas cartas, e eu ficar  agradecido  a  voc  tambm  por
l-las e responder com essa presteza que desconcerta.
        As Poesias  tm  me  impressionado.  Achei  o  Noturno  de  Belo
Horizonte uma maravilha. Creio que j o lera, no  sei  aonde.  Mas  vou
deixar para falar nos poemas em outra carta, porque  no  estou  podendo
fazer esforo visual muito grande e alm do mais esta carta est ficando
longa.  Alis,  o  Murilo  Rubio  me  disse  que  est  tambm    muito
entusiasmado com os Poemas, e pretende escrever a voc  por  estes  dias
respondendo  carta sua.
        Eu tenho necessidade de escrever ainda, e muito, a  voc.  Tenho
medo, e vou esperar um pouco. Voc tem toda razo de ficar chateado  com
isso, me espanta muito no ter ficado at agora. Queria discutir comvoc
certos pontos de suas cartas. H mesmo alguns que  no  entendo  bem,  e
outros de que discordo. Acho, por exemplo, que voc exagera  quando  diz
que espontaneidade e a sinceridade do artista no importam nada  para  a
obra de arte. Penso que alguma coisa  deimportar.  Pelo  menos  influem.
Quanto  a  voc   no    estar    desses    argumentos,"sinceridade    e
"espontaneidade", te dou toda razo, dependendo do caso e do sentiem que
voc os emprega. Tambm sobre o Macunama 43




queria lhe falar, dadas certas coisas que a respeito  voc  diz  na  sua
carta.  que na poca que o li ele me impressionou profundamente,  tanto
que j falei nele num artigo como uma das obras maiores e mais srias j
escritas no Brasil. Eu acho engraado  hoje  ele  ter-me  impressionado,
pois tinha 14 ou 15 anos quando o  li.  Pretendo  at  l-lo  novamente.
Penso que h bastante pessimismo, pessimismo injustificvel, quando  diz
que com Macunama voc perdeu de um a zero: "uma obra-prima  que  falhou
Pelo  que  voc  diz,  voc  se  baseia  para  afirmar  isso  apenas  na
incompreenso daqueles que opinaram sobre seu livro.
        No posso concordar com isso. Mas acho que voc no  deve  mesmo
bancar o incompreendido e sustentar de pblico o valor do livro. Mas da
a no reconhecer esse valor, s porque no foi compreendido,  vai  muita
distncia. E pessimismo demais. Eu tinha muita, mas muita vontade de lhe
falar no Macunama, assim que tiver oportunidade de l-lo outra vez.
        Bem, Mrio, mais uma vez agradeo a voc do fundo do  corao  o
auxlio prestado, e toda essa boa vontade que est  tendo  para  comigo.
Peo licena para lhe escrever novamente quando sarar de todo (vou sarar
de todo; o diabo  que terei de passar muito tempo  tomando  cuidado,  e
sem poder nadar, isso  que vai ser o diabo).
        Vou juntar aqui um conto escrito 6 meses atrs, para que voc me
diga se vale alguma coisa. Eu tinha uma novelinha abandonada, que  estou
tentando novamente, animado exclusivamente por voc. Mas est  duro  pra
burro, e acho que no sai nada.
        Ah, antes que me esquea, se voc puder me  escrever  novamente,
eu lhe pediria que falasse qualquer coisa com respeito  leitura, coisas
que seria bom que eu lesse e que provavelmente ainda no li.  Um  grande
abrao do amigo

Fernando

        44 45




S. Paulo, 21-III-42

Fernando
        Vou aproveitar este espacinho de sbado pra lhe  escrever  logo.
Ora fiquei chateado com essa histria de voc ter machucado os olhos, j
milhorou bastante? Mas tome cuidado, heim: no se bote a lendo que mais
lendo, como si a vida fosse acabar  amanh.  Aproveite  a  convalescena
justo pra no ler.  preciso saber aproveitar at os inconvenientes  que
surgem: deve ser estranho a gente pensar que no pode ler... Eu sei  uma
histria que o Antnio Alcntara Machado me    contava,  no  lembro  si
inveno dele. Eram duas velhinhas irms. Vinham do tempo da  guerra  do
Paraguai, muito pobres, morando numa casinha que o pai deixara pra elas,
na Rua da Imperatriz. Ora sucedeu que a  Rua  da  Imperatriz  acabou  se
chamando Quinze de Novembro, as "meninas" envelheceram e a casa  da  Rua
Quinze recebeu uma oferta de dois mil contos, quando no  custava  oito,
no tempo da guerra do Paraguai. As "meninas" venderam a  casa,  mas  no
tinham no que gastar porque no sabiam gastar e  estavam  muito  velhas.
No tinham herdeiros, no tinham parentes, s uns conhecidos de longe em
longe, e agora o advogado que tratava da fortuna delas. E fosse por  que
fosse, as duas ficaram cegas. Uma inda enxergava um bocadinho esfregando
o nariz no livro de reza mas  a  outra  nem  isso.  E  a  principiou  o
martrio delas, com a dama-de-companhia que o advogado ajustara pra  ler
pra elas.  que as meninas eram muito curiosas e gostavam de saber o que
se passava nesse mundo. E cada vez que o advogado aparecia, toda quarta,
era aquela queixumeira, a mulher no gostava  de  ler  os  falecimentos,
ulava as notcias do rei da  Inglaterra,  ou  os  anncios  de  futebol.
Escusado dizer que as meninas nada sabiam da Inglaterra e ainda menos de
futebol. E j no havia mais dama-de-companhia na cidade com mais de  um
milho de habitantes  que  no  tivesse  passado  pelas  meninas.  A  o
advogado lembrou de comprar um rdio. Instalou-se o rdio e  quando  ele
principiou  funcionando  foi  aquele  deslumbramento.  Isso  as  meninas
botaram o rdio no mais forte da sua  pujante  gritaria  e  ficavam  ali
rentinhas escutando que mais escutando. At quando uma delas carecia  de
ir l dentro no quartinho, ficava se contendo, se contendo at no poder
mais. E comentavam as diferentes  PR,  e  ligavam  pro  estrangeiro  no
entendendo lngua estrangeira.  E  foi  justo  quando  chegou  a  Semana
Eucarstica e  as  meninas  que  eram  completamente  catlicas  puderam
assistir inteira a Semana Eucarstica, que acabou num domingo  triunfal.
Ora j na segunda o advogado recebeu o telefonema, que ele  vinha  mesmo
na quarta, mas as meninas pediam a ele fazer ofavor de vir nessa segunda
mesmo, que era urgente. O advogado bem sabia que no  era  possvel  ter
qualquer urgncia nas meninas mas veio  assim  mesmo.  Chegou,foi  dizer
"bomdia", quando as velhinhas o abraaram chorando, at quiseram  beijar
a mo dele, tudo por causa do rdio.  Bem,  por  isso    que  o  tinham
chamado. Podiam morrer apesar da sade  imensa  e  queriam  modificar  o
testamento j, ser que o dinheiro delas dava? Mas alm do dinheiro para
as cinqenta missas por alma delas, que esse precisava ficar  por  causa
do inferno, que o resto tudo fosse empregado em doar um rdio igualzinho
quele para cada instituto de cegos do Brasil.

46 47

        Gostou? Bem, seus contos. Gostei muito do"Companheiro" epouco do
Professor. Tambm este era de dificlima realizao. No tem dvida  que
voc caracterizou psicologicamente o professor, mas alm de  pr  demais
psicologia anedtica (repare que o  tipo    um  pouco  impossvel,  por
exagero), creio que voc escolheu o processo  mais  pobre  pro  caso:  o
monlogo interior. Numa psicologia escassa como a do  professor,  repare
como o monlogo interior no rendeu. Voc no poude escapar  da  pobreza
de  memrias  e  sensaes:  eapobreza,  embora  cara   cterizante,ficou
literariamente pobre de verdade. A  volta  sucessiva  dos  mesmos  fatos
(efatos poucos) ficou duma grande monotonia e de um  j  sabido  que  s
mesmo realizado numa linguagem,  num  estilo  perfeitssimo  como  arte,
ainda poderia interessar. Creio que pro seu assunto, em vez do  monlogo
interior, teria sido prefervel a descrio  de  autor.  Voc  poria  em
evidncia a pobreza interior do tipo, mas enriqueceria essa pobreza  com
a sua observao pessoal de autor.  Realmente  acho  esse  conto  apenas
regular. J o Companheiro  muito milhor: voc  desenhou  com  deliciosa
delicadeza de toques os dois meninos. Custdio e Nicinha, ambos  de  uma
pureza, de um irregular psicolgico  excelente.  No  digo  o  mesmo  do
Rufinho,figura completamente protocolar e conhecida,  muito  encontrvel
nos livros de leituras de grupo. Mas os outros  dois  esto  timos,  os
casos esto bem escolhidos e o Rufinho no chega a atrapalhar. Quando ia
chegando nofim me assustei muito. Assim que Nicinha vai correndo  at  o
alicer por causa da pneumonia do companheiro, todos ns j  sabemos  que
ela vai topar com o sapo. A coisa fica de um esperado  deses  perante  e
desapontante. Mas surge o "nosso"final. Ela  pega  no  sapo,  apesar  do
nojo, e vai lev-lo ao Custdio, ora, que

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facilidade!  Felizmente  voc  escapou  disso  e  o  final,    em    vez
dedesapontar,ficOU muito fino e sem concesso ao sentimentalismo  fcil.
A pena  o esperado do sapo. Mas tambm no chega a atrapalhar, porque o
finzinho conserta tudo. A linguagem est muito gostosa. Voc j refletiu
sobre a sintaxe: "as fisionomias se lhe embaralharam na memria"? Repare
como est ficando desagradvel, pernstica, lusitana e s encontrvel em
linguagem pretensiosa. Tem muito jeito de dizer isso evitando o"se  lhe"
que no  da ndole brasileira normal. At voc pode cortar, se livrando
da gramtica,  o"lhe"  sem  que  o  sentido  e  o  ritmo  expressivo  se
prejudiquem. Fica prejudicada apenas a gramtica, mas no esquea  nunca
que a lngua  que  faz  a  gramtica  e  no  a  gramtica  que  faz  a
lngua."Qual,  no  se  lembrava,  as  fisionomias  se  embaralhavam  na
memria" Ou "na memria dele" contentando at a gramtica.  Mas  isto  
uma nuga que at  pode  ser  apenas  implicncia  minha.  Voc  j  est
escrevendo com muita naturalidade e clareza, embora  numa  linguagem  um
pouco falada. Ser preciso atingir  a  linguagem  escrita  -  isto    o
dificlimo. Mas no se preocupe muito com isto ainda  no.  Vir  com  o
tempo.
        O problema da sinceridade, da espontaneidade: no  me  lembro  o
que lhe disse na carta anterior. Como escrevo cartas sem guardar cpia e
o mais... espontnea e sinceramente possvel, desde j exijo de  voc  a
complacncia com os calos! Entendeu?! Me  explico:  Exijo  de  voc  que
aceite os meus exageros e at contradies. Afinal no estou  escrevendo
um tratado mas apenas nos procurando viver milhor. Ora, sustento  sempre
que um quase desastre de automvel, quinze minutos antes,  uma  dorzinha
nos calos ou de-corno, um submarino do Eixo como uma pena engasgante  me
fazem

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forara nota ou at mudar de opinio, tanto como um raciocnio  novo  ou
uma atitude social. Realmente o escolho grande que tenho  encontrado  na
minha vida, da parte dos outros,  esse da sinceridade.  a porta aberta
pra todas as preguias mentais, todas  as  ignorncias  tcnicas  e  at
todas as safadezas morais! Contam do Olegdrio Mariano que jamais  l  um
livro "pra no se influenciar". Isso no  nada: ainda no faz trs dias
um amigo meu aqui + ou da sua idade, chegava ao repdio de  tudo  quanto
no fossem as tendncias espontneas do ser, porque assim ao  menos  ele
era sincero e conservava a pureza l dele! Onde que vamos  parar  com  a
sinceridade!... Mas, reconheo: tudo  porque no conceituam sinceridade
nem espontaneidade. Sinceridade pra com o qu?  Espontaneidade  imediata
ou posterior? Voc conhece coisa mais espontnea que uma  fbula  de  La
Fontaine? Pois tem algumas que foram refeitas dez vezes. Sinceridade com
o que a gente , ou com o que a gente tem a convicb que deve  ser?  Se
eu espontaneamente,  em  1922,  deixava  escapar  um"Parece-me  que"...,
levado por vinte anos dessa sinceridade do meu ser, mas depois  corrigia
pra"Me parece que", levado pela convico de uma sinceridade nova, ainda
por atingir, onde que eu fui sincero? Seria a sinceridade fugir   minha
convico,    sinceridade  do  esprito,  respeitando  a    sinceridade
espontnea manual? Esta no passava de uma memria quase  exclusivamente
muscular,  vinte  anos  de  escrever"Parece-me".  Engraado:  estou   me
lembrando que depois de  bem  sistematizado  o  "pra"  em  mim,  tornado
espontneo e subconci ente, quando me sucedia ter que ler algum  escrito
antigo, voc no imagina cada sobressalto que eu tinha! topava um  "pra"
e a sensao imediata e muito desagradvel que eu tinha era de me  pegar
num erro de linguagem! Sinceridade de quando voc,  piasote,  nadava  de
cachorro ou de hoje que voc se prolonga no silvo elstico de um  crawl?
A  sinceridade,  a  espontaneidade  so  coisas   que    se    modificam
constantemente, dia por dia. Tm de ser repudiadas como elementos  conci
entes da obra-de-arte  que    artificial,  arte  fazer,  arte  feitura.
Sinceridade, espontaneidade no pode ser  elemento  esttico  nem  muito
menos tcnico! A sinceridade , sem a gente querer. Como elementos conci
entes da arte, sinceridade e espontaneidade s podem ser  academism  os,
passadism os, preguia e ignorncia. Exclusivamente. Enfim: em arte  no
existe o problema da sinceridade.
        Voc me pede  que  lhe  aconselhe  algumas  leituras...  Isso  
difcil como o diabo, mirmo. No sei bem o que  voc  j  leu...  Bem,
voc j leu Catherine Mansfield? j leu Rilke? Como atualizao  do  seu
ser artstico voc precisava ler bastante esses  dois.  E  tambm  Selma
Lagerloef que no me lembro como se escreve. Que bom ter sua  idade  pra
ler..
        Voc precisa de uma cultura literria geral, que  no  deve  ser
feita duma vez s, mas dentro de um programa  que  pode  durar  ponhamos
seis anos. H certas coisas que a gente carece conhecer e gostar  Gostar
de, faz parte da dignidade humana do indivduo. Voc precisa ler Cames,
nos Lusadas e nos Sonetos pelo menos.  E  com  ordem  de  gostar.  Numa
edio crtica boa. Voc precisa ler da mesma  forma,  Dante  na  Divina
Comdia inteira e na Vita Nuova. E Cervantes, o Goethe do Fausto  e  dos
romances (si souber alemo tambm as tragdias e os lieder), est  claro
todo o Shakespeare, eassimpordiante.  impossvel detalhar Mas  no  so
muitos no. E a Bblia, por favor, no se  esquea!  Enfim  h  uns  dez
homens essenciais, que a gente l, gostando de  antemo,  com  ordem  de
gostar, e gostando a posteriori. Faz parte da dignidade do ser.


        50 51



        Em seguida h o caso da  lngua.  (Me  desculpe,  quero  lembrar
sempre o Rabela is, e o Ibsen do "Peer Gynt" junto com Cervantes).  Voc
precisa ler certos clssicos portugueses. De preferncia os antigos: uns
poucos, "A Vida do Arcebispo" acho indispensvel. Ferno Mendes Pinto  e
as "Dcadas". Um pouco tambm  (um  pouco  s)  de  Vieira.  Mas  si  se
embalar, tome cuidado sempre de no ler demais.
        Ler os brasileiros... Meu Deus! aqui tambm  entra  a  noo  da
dignidade do indivduo. Me parece um  pouco  canalha  a  gente  conhecer
Anatole France e no ter lido as "Cartas Chilenas";falar de Proust e no
falar de Gregrio de Matos ou Cruz e Souza.  mais uma questo humana de
proximidade. E, j falei, creio, voc precisa muito de  ler  Machado  de
Assis, mas ler com reler, roubando ele, plagiando ele, no no estilo nem
no esprito mas na delicadeza de sentimento. Machado de Assis  no  deve
ser pra voc um companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde voc vai
roubar. Roube dele tudo quanto possa ser til a voc,  jogando  o  resto
fora. Mas sempre no se  esquecendo  que  voc  pode  roubar  errado.  O
problema  delicadssimo.
        Veja o problema do estilo: si voc escrever, chegar a escreverno
estilo de Machado deAssis voc se esculhamba por completo, se perde. Mas
voc precisava chegar a um estilo  que  fosse  em  voc  e  em  1952,  o
correspondente do que foi o estilo de  Machado  deAssispro  tempo  dele.
Disto ainda estes dois contos novos me convencem inda mais. O  Professor
falhou porque voc no tinha o estilo que o salvaria. O   Companheiro  
muito bom, mas, com perfeio de estilo a mais, dava obra-prima.
        Olha,  Fernando,  eu  no  quero  desiludir  voc  com  a  minha
severidade. Mas eu sou assim mesmo, qu que hei-de fazer!  Nos  fins  do
ano passado me falaram uma coisa de uma perversidade que hoje  considero
deveras maligna, de tanto que tem me prejudicado: que eu era "o animador
mais desanimador que existe". Deve ser difcil agentar o tranco do  meu
gostar  no-gostista.  Outro  dia  ainda  se  deu  um  fato  que   achei
assombroso, me falaram. Gilda Morais Rocha, que publicou uns  contos  em
"Clima"  minha prima, vive aqui em casa, ponho bastante esperana nela.
 inteligentssima, isso no tem dvida. Pois ela me deu uma crtica que
fizera do "Ott ofthe Night" pra ler  e  opinar.  Fui  lendo,  sugerindo
coisas, lembrando outras dices pra certas frases, etc.  Gostei  muito,
disse a ela e entreguei os originais. Felizmente que ela riu. Diz-que eu
tinha gostado muito,  mas  nos  originais  no  tinha  quase  frase  sem
sugestes minhas de mudana!!! Vai ser duro de voc agentar  o  tranco,
s  vezes  me  arrependo.  Portanto  o  que  eu  peo  mesmo   a    voc
ficarsemprealerta: no v aceitando sem mais nem menos tudo  o  que  eu
falar. No fico zangado por isso e me evite  essa  coisa  deficarpesando
com preciso cada frase e opinio minha: tfeito?
        Pois o que eu acho, em principal,  que voc estabelea um plano
de leitura e o siga contra  tudo  e  contra  todos.  Os  dois  critrios
principais, creio (nunca pensei muito  no  caso),  devem  ser  esses:  1
Leituras imprescindveis para a dignidade do intelectual. 2o O  critrio
da proximidade: a) Proximidade do ser social (suas tendncias polticas,
religiosas e outras) b) Proximidade do ser individual  (suas  tendncias
egestos e idias de artista)

52 53

c) Proximidade do ser vital (em princpio a arte atual  deve  interessar
mais que a do passado) d) Proximidade do  ser  tnico  (em  princpio  a
literatura brasileira deve interessar mais que a portuguesa,  esta  mais
que a espanhola, a latina mais que a germnica,  a  europia  mais  quea
chinesa).

        As leituras imprescindveis no podem ser devoradas.  E  fazendo
uma mistura bem equilibrada de tudo, acho  que  voc  consegue  uma  boa
cultura literria.
        E no  possvel um intelectual  sem  filosofia  nem  orientao
social. Mas sobre isto, s falando outro dia; si  quiser  que  eu  fale,
insista. Hoje estou j cansado, com dor na mo.
        Com um abrao do

Mrio B. Horizonte, 7 de Abril de 42

        Meu caro Mrio,
        S hoje respondo sua carta, mas o motivo do atraso se justifica:
eu a recebi no dia em que partia para Ouro  Preto,  onde  fui  passar  a
Semana Santa. Tinha muita vontade que  voc  l  estivesse.  Ia  gostar,
palavra. Conhece Ouro Preto? Vale a pena conhecer.
        Bem, sua carta.  Gostei  muito  da  histria  das  velhinhas  do
Alcntara Machado. Se voc no  dissesse  quem  lhe  havia  contado,  eu
perguntaria logo se fora ele. D um conto e tanto, a histria.
        Quanto  minha vista, fico agradecido pelo  seu  interesse,  mas
no se preocupe: j estou inteiramente bom, enxergando  at  o  que  no
devo. S no posso nadar ainda, para evitar infeco.
        Os contos que lhe mandei so aquilo mesmo  que  voc  disse:  eu
gostava, no sabia porqu, era de"O  Companheiro"  embora  soubesse  que
havia uma possibilidade, por mim desconhecida,  de  ser  melhor.  J  "O
Professor", eu sabia que  tinha  falhado,  mas  no  sabia  que  era  no
processo adotado. Voc me ajuda extraordinariamente com isso, Mrio. Sei
que so apenas dois contos, que em si no valem nada, etc.  Mas  afinal,
eles podem constar de um bom ou um mau livro, isso  que  importante. O
sujeito que critica um livro de contos no pode ajudar  ao  autor  tanto
quanto um que critica um conto apenas:  preocupado  com  a  extenso  do
conjunto, no pode descer  linguagem, entrecho, etc.  Com  isso,  quero
apenas dizer que voc,

54 55




fazendo to generosamente a crtica de um ou dois contos sem importncia
como fez, me ajuda muito, no em relao s a estes, mas aos  que  ainda
farei. Por isso sou to agradecido a voc pelo auxlio prestado.
        Estou pensando mesmo em continuar a exigi-lo, mas como no quero
abusar dessa boa-vontade que nunca encontrei  em  ningum,  venho  pedir
licena antes: estou aqui s  voltas  com  outro  conto,  sobre  o  qual
desejava ouvir sua opinio. Ele vale para mim  apenas  como  a  primeira
coisa que consigo fazer depois  de  meses  de  absoluta  esterilidade  e
desnimo quase total. Nada mais do que isso.
        Antes  que  me  esquea:  esta  histria  de   "animador    mais
desanimador"  uma autntica balela que lhe pregaram. Meu Deus  do  cu,
quem  que podia ter chamado voc  disso,  Mrio?  No  existe  em  voc
"gostar no gostando" nenhum. O que existe  uma capacidade  de  no  se
deixar vencer pelo entusiasmo (ou pela repulsa). Para mim o tal  "gostar
gostando" contrrio ao seu  a coisa mais improcedente  do  mundo:  pode
animar a gente, pode  pr  o  sujeito  crente  que  est  abafando;  mas
penetrar no indivduo, fazer nascer dentro  dele  uma  fora  nova,  uma
capacidade criadora que ele desconhecia, isso nunca, isso s  mesmo  com
os"animadores mais desanimadores" como voc. Os  apenas"animadores"  no
conseguem efeito nenhum com sua  animao.  Pem  o  animado  satisfeito
consigo mesmo, destruindo  assim  a  insatisfao,  que    a  fonte  de
criatividade do artista.
        Gilda Morais Rocha  ento sua prima? Pois olha, h muito  tempo
eu no lia uma coisa  to  boa  como  aquele  "Week-End  com  Teresinha"
publicado em Clima. Voc tambm no gosta  daquele  conto?  Eu  por  mim
achei-o estupendo.  verdade que os dilogos tm um  pouco  de  cassange
que no faz muito o meu gnero. Mas a fixao de tipos, a  naturalidade,
fora psicolgica, leveza e facilidade  de  narrar,  achei  simplesmente
admirveis. Meus parabns por ter a na Lopes Chaves mais  essa  artista
de marca.
        Por falar em Clima,  voc  conhece  aquele  pessoal?  O  Antonio
Candido de Melo e  Souza  me  escreveu  dizendo  que  me  mandava  cinco
exemplares do n0.8, que tinha um artigo meu  (sobre"Ea  de  Queiroz  em
face do Cristianismo", imagine), e que  iria  fazer  a  crtica  de  "Os
Grilos No Cantam Mais"; no recebi  os  5  exemplares,  nem  os  grilos
chegaram a cantar. Reclamei, e parece que ele no recebeu.  Se  voc  os
conhece, e estiver com algum daqueles  rapazes,  poderia  reclamar  para
mim? Creio at que esto interessados em representao da revista  aqui,
se  que ela ainda no morreu (o que seria de se lastimar, pois pelos  3
primeiros nmeros que aqui chegaram, ela  bem boa, voc no acha?).
        Quanto a aquela histria da"espontaneidade e sinceridade", agora
concordo com voc.  que no tinha compreendido bem. E no queria  ficar
com a coisa atravessada na cabea. Agora compreendo bem  a  tal  espcie
de"sinceridade, espontaneidade", etc. que voc tem horror at  de  ouvir
falar, e fiquei sabendo bem porque em arte no prevalece a sinceridade.
        Fico agradecido a voc pelas indicaes de leitura que  me  deu.
No so insuficientes como voc pensa. Servem muito,  pois  de  qualquer
maneira indicam um plano a seguir. E qualquer plano a  seguir    sempre
prefervel a plano nenhum. Depois, o que voc me sugeriu    muito  bom.
Pretendo levar a coisa a srio e segui-lo de fato.

56 57

        Mas voc no calcula como    a  minha  vida,  Mrio.  Tenho  um
maldito C.P.O.R. todo dia s 5 da manh, s terminando s 8  e  meia,  9
horas; s 11 e meia  l  vou  eu  para  a  Secretaria  das  Finanas  me
burocratizar um pouco e lidar com os maiores capadcioS que j encontrei
em toda a minha vida. (Estou  agora  vendo  se  arranjo  para  dar  umas
aulinhas de portugus num ginsio daqui, como j tive no  ano  atrasado,
vendo se me garanto um pouco e deixo a Secretaria.) Das  4  s  7  tenho
aula na Faculdade de Direito, onde estou no primeiro ano do curso. Perco
uma aula diariamente, pois saio do servio s 5. Quando chega s 7,  nem
tenho tempo de ir em casa: trs vezes por semana,  C.P.O.R.  de  novo  
noite, das 7 s 9. A essa hora j no  consigo  dar  um  passo:  sou  da
Cavalaria, e a nica coisa a fazer, seno tocar o  tango  argentino,*  
cair na cama e comear outra vez no dia seguinte.
        As horas vagas, o amor velho de guerra se  encarrega  de  encher
Mesmo assim, sempre se arranja um tempinho para se defender e tocar para
a frente: o consolo da gente  que no estamos SOS.
        O papel est acabando no vou mudar de folha para no te chatear
muito. S ME ESCREVA SE SOBRAR TEMPO, no quero sacrifcio algum de  sua
parte. Vou ver se mando o conto.
        Grande abrao do Fernando



Belo Horizonte, 3 de Maio de 1942
        Meu caro amigo Mrio,
        Antes de tudo quero mencionar um assunto que ia falar  na  minha
ltima carta, e me esqueci: voc esteve,  h  pouco  tempo,  a  em  So
Paulo, com um amigo seu aqui de Belo Horizonte, que  meu amigo  tambm,
o Gentil Noronha. Voc, em conversa com ele,  no  fundo  de  um  bar  no
Carnaval, lembra-se? se referiu a mim, me elogiando, etc.  e  tal  (pelo
que ele me disse). Muito obrigado por sua boa vontade. Eu no sabia  que
voc conhecia o Gentil. Camarada louco, aquele, mas gentil, no ?
        No te escrevi at hoje,  como  pretendia,  por  uma  poro  de
razes, que me esto roubando todo o tempo - e o maior ladro, eu  tenho
muita vergonha de confessar, mas, que hei de fazer?  um romance...
        No se assuste: tentativa somente (ou tentao), como todo mundo
tem a suazinha. Mas tentativa que est  me  pondo  de  cabelos  brancos,
embora seja a mais gostosa do mundo.  Nasceu  daquele  conto  a  que  me
referi na ltima carta, pedindo licena para mand-lo a voc.  Por  mais
que eu fizesse, o  conto  no  acabava.  Ento  resolvi  ir  escrevendo,
escrevendo, para ver o que acontecia, j escrevi bem mais de 100 pginas
 mo, e no me sinto ainda nem na metade. No h de ser nada.  s voc
no contar a ningum. Tenho muito medo de ser besteira minha. Mas que  
gostoso como o diabo, isso no tem dvida.  A  gente  sente  vontade  de
escrever, ento vai l, escreve at  cansar.  Depois  continua.  Se  der
alguma coisa, o que duvido,

---

*Verso de Manuel Bandeira.

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pretendo ficar amadurecendo essa coisa por muito tempo ainda.  Tenho  um
medo desgraado de fazer besteira.
        Outra razo de minha falta de tempo: alm do C.P.O.R.  filho  da
me de manh cedo, da Secretaria onde estou agora, da Faculdade   tarde
e do amoreco o tempo todo, estou dando aulas de  portugus  num  Ginsio
daqui. Tambm no se assuste: no tenho  culpa  nenhuma  do  diretor  do
ginsio ser maluco, me aceitando l. Mas vamos deixando de falar de mim,
que seno agora mesmo estou lhe dizendo  que  me  tornei  fabricante  de
broinhas de fub mimoso, ou jardineiro da Praa da Liberdade, nas  horas
vagas. (O que, alis, eu bem que gostaria.)
        Soube pelos jornais de sua conferncia no Rio. Li no  Dirio  de
Notcias, e dava tudo para t-la  ouvido  (j  falei  isto  na  primeira
pgina? No sei. Ela j est ali, dentro do bolso do palet).
        Se voc puder me escrever, Mrio, me diga por favor o que  achou
do rodap do lvaro Lins a respeito de seu"Poesias", que eu tinha  muita
vontade de saber. Eu por mim achei-o amargo demais, muito analtico, ora
injusto, ora justo, mas sempre amargo. Tinha vontade de saber o que voc
achou, para esclarecer c umas dvidas, etc.  Mas  s  se  isso  no  te
chatear,  lgico.
        Murilo Rubio me disse que voc lhe escreveu, avisando  que  vai
me escrever. Gostei muito, pois estou sentindo muita falta  de  notcias
suas, e nem sei se voc recebeu minha ltima carta. No li nem as cartas
dele a voc nem as suas a ele. Mas pelo que me  contou,  achei  que  ele
est sendo muito burro  com  voc.  Tivemos  uma  discusso  outro  dia.
Disse-lhe que era o cmulo da incoerncia ele se confessar, a  si  e  ao
resto da turma, fracassado em toda a  acepo  da  palavra,  contando  o
desmembramento e a inatividade da turma. E depois, quando voc o censura
e aos outros por  causa  desse  fracassismo  inequvoco,  ele  protesta,
dizendo que no, que voc no pode  compreendlo,  e  essa  coisa  toda.
Achei o tipo da besteira da parte dele, e pelo que ele me contou, sem eu
ter lido a sua carta, te dei toda a razo. So  fracassados  mesmo,  no
fazem coisa nenhuma, s  sabem  ficar  no  caf  conversando  fiado,  ou
metendo o pau nos outros, bebendo o  tempo  todo,  uns  boas-vidas,  sem
fazer nada de srio, sem nem escrever coisa nenhuma.  isso que eu  acho
e que falei a ele, meio queimado mesmo, porque  Murilo    um  rapaz  de
valor, Mrio, mas de muito valor mesmo, voc  que no sabe. Um dia  lhe
mando um conto dele e voc vai ficar besta. No Anurio Brasileiro  deste
ano h um conto dele, chamado"Eunice e  as  Flores  Amarelas".  Se  voc
puder, d uma olhada e verifique. (Est meio  empastelado,  e  no    o
melhor.)
         possvel tambm que nessa histria toda eu  esteja  ouvindo  o
galo cantar, sem saber aonde.
        Bem, meu velho Mrio, est na hora de se  encerrar  esta  gaita.
So quase cinco horas da manh. Mando-lhe um grande abrao e vou esperar
suas notcias com ansiedade (sempre salientando que s quero que voc me
responda caso tenha tempo e se no for chateao).
        Sempre seu amigo,

 Fernando
 Rua                Gonalves                Dias                   1458
 B. Horizonte


        60 61

S. Paulo, 8-VI-42

        Fernando
        Arre que sua ltima carta data de trs de  maio  e  eu  sem  lhe
responder! Mas as ocupaes se acumulam e eu queria que voc espiasse s
aqui sobre a cmoda de meu estdio as  coisas  que  amontoei  pra  fazer
nesta semana,   uma  coluna.  E  ainda  me  estoura  casa  a  dentro  a
possibilidade de ir no Rio por uns quatro  dias!  Resultado:  as  coisas
ficaro pra semana que vem e a  que a coluna vira Gatrisankar  Mas  
de manh, minha manh, isto , nove e meia e jurei principiar  a  semana
lhe escrevendo.
        Alis releio sua carta e veja que desta vez posso escrever pouco
porque no h verdadeiro assunto, mais que os da camaradagem.  Mas  como
vai o conto que  virou  romance?  Mande  contar  mais  detalhadamente  o
assunto e como  que  voc  o  est  desenvolvendo.  V  escrevendo,  v
escrevendo, alm de ser mesmo uma delcia produzir pra quem tem mesmo  a
bossa, maior delcia  isso da gente ser moo e ir escrevendo sem nenhum
compromisso, pelo simples ato macho de produzir.  Quando  me  lembro  os
milhares de pginas que escrevi, versos,  meditaes,  contos,  romances
quase  sempre  ficados  pra  acabar"mais  tarde".  As  coisas  iam    se
acumulando, passavam dois anos, trs. Um dia era preciso desentulhar  as
gavetas e eu ficava uns quinze dias lendo um autor esquisito que no era
meu desconhecido, mas que eu no reconhecia bem mais,  porque  j  tinha
mudado. E era  aquela  devastao.  Quase  tudo  ia  pra  cesta,  e  bem
rasgadinho, rasgadinhssimo pela preciosa vaidade de  que  ningum,  uma
criada, o lixeiro, pegasse aquilo pra ler  rindo  de  mim.  Eprincipiava
entulhando gaveta outra vez, livre/gratuito? no meu reino sem fadiga  de
criar! Era bom efoi tantas vezes sublime!
        Depois a vida passa, irmo pequeno.  Voc  adquire  compromissos
com o seu prprio passado, adquire um nome e como neste pas no se vive
de escrever fico, vem dez mil ocupaes dispersivas e voc v com mais
que melancolia, v mas  com  um  desgosto  amargo  que  voc  senta  na
escrivaninha e o que vai escrever tem de ser publicado,  muito  amargo.
Mas como no publicar!  S  virando  jardineiro  mesmo  ou  vendedor  de
vassouras automticas que tambm so jeitos de ganhar  dinheiro.  Mas  o
que voc no pode  no ganhar dinheiro. E voc, seu jeito  esse,  est
preso e sem seu reino:  senta  na  mesa  e  escreve  o  artigo  pra  ser
publicado.  pau isso, muito pau.
        O papel est acabando e voc me  perguntou  sobre  o  artigo  do
lvaro Lins sobre as"Poesias". No sei, talvez seja  humildade  natural,
mas gostei. Haveria por certo o que discutir, mas a dvida no prova que
ele esteja enganado. E tenho a certeza que foi honestssimo.
        E  s por hoje. Mas no  se  esquea  de  mim  e  mande  contar
coisas. Com o abrao do

Mrio

62 63



        B. Horizonte, 13 de Julho de 1942

        Meu velho Mrio,
         um absurdo eu ter demorado tanto a te escrever. Mas as  coisas
aqui comigo aconteceram s dezenas por dia, minha vida se complicou mais
ainda, estou vendo agora se ponho nos devidos lugares. Quando recebi sua
carta estava de partida para o Rio,  com  grandes  esperanas  de  ainda
encontr-lo l. Isso no aconteceu, pois voc  sara  de  l  dois  dias
antes de eu chegar. Fiquei triste, por perder essa ocasio  de  conhecer
voc pessoalmente.
        A complicao a que me referi  que fui de repente tirado de  l
do meu lugarzinho humilde de extranumerrio de uma Secretaria, e chamado
sem mais nem  menos  para  fazer  parte  do  gabinete  de  outra,  a  da
Agricultura, que estava se organizando. Aqui estou, feliz  porque  posso
organizar minha vida agrcola... Pensar seriamente nos meus  planos,  ou
nossos (meu e dela)... A verdade  que isso foi muito bom para mim, pois
eu precisava tomar um rumo certo. Como eu ia no dava certo no,  estava
fazendo mil e uma coisas ao mesmo tempo, dando aulas, estudando, amando,
escrevendo. Me perdia em conversas de rua, corria de c para l e de  l
para c, sempre afobado,  dispersivo.  Agora  vou  poder  trabalhar  com
calma, ler bastante, do que estou precisadssimo, escrever muito...
        Logo que cheguei do Rio encontrei  um  acampamento  do  C.P.O.R.
para fazer. Fiz. Uma semana, cheguei ontem ou anteontem,  no  sei  bem.
Mrio, imagine um inferno, me meta dentro dele, e ter o pobre  Fernando
Sabino no

64

seu acampamento de manobras do Exrcito, o glorioso Exrcito Brasileiro.
Basta dizer que estou com 262 mordidas de carrapato (fora umas oito,  de
carter suspeito, que no considerei) com nguas  de  quatrocentos  ris
nas pernas e o estmago mais arrebentado ainda de tomar  sopa  de  sebo,
como se eu, por ser da  Cavalaria,  fosse  obrigado  a  comer  bosta  de
cavalo. No h de ser nada.
        Mas vamos parar de falar de mim. No estou chorando mgoas  no.
Agora tudo passou, minha vida est mais ou menos assegurada, posso tocar
para frente. Vou recomear a trabalhar com afinco no livro. O tal que de
um conto passou a romance.
        Mrio, achei sua carta extraordinariamente  amarga.  No  amarga
para mim, amarga para voc. Que coisa dolorosa aquilo de voc contar  as
suas tentativas de romance, de grandes obras que morreram no  fundo  das
gavetas. Mas, no sei por qu, em relao ao que estou fazendo,  no  me
impressionei com o que voc disse. Sei  que  voc  disse  no  foi  para
impressionar, mas impressionaria qualquer um. Comigo no se  deu  assim.
Estou escrevendo, escrevendo sem parar. Ou eu fao desta  vez  um  troo
srio, bom, ou ento desisto. Porque no posso mais nem ouvir  falar  em
"Os Grilos". Sinto nuseas, uma espcie de nojo dele. No vou dizer  que
no goste mais, tenho sempre um amor secreto pelo livrinho. Mas, no sei
explicar, aqueles contos no me interessam, no ressoam mais em mim, no
despertam nenhum sentimento por eles. Acho isso muito estranho.
        Vira, mexe, estou falando de mim. Engraado,  Mrio,  estou  num
estado meio aptico, como se tivesse me imbecilizado um pouco  (ou  mais
ainda). Ando assim meio no

65




ar, desnorteado, sem fixar o pensamento. Isso ser  talvez  conseqncia
da mudana que se deu em meus meios de vida. Nestes  ltimos  dias,  nem
escrever tenho conseguido. Agora  que vou tentar recomear. Com certeza
foi esse acampamento desgraado que me ps assim, os carrapatos, talvez.
Por isso  que esta carta est to besta,  to  idiota,  te  falando  de
coisas que naturalmente no te interessam nem por sombras.  Afinal,  que
diabo, tenho l eu algum direito de te chatear com meus  carrapatos,  de
tomar seu tempo dessa maneira?  que sinto uma necessidade de  conversar
com algum, de me abrir com um amigo. Voc  um sujeito amigo, Mrio.
        Bem, vou ficar por aqui, que me sinto besta como nunca, e  assim
no vai. (Nem sei se convm mesmo te mandar esta carta imbecil.)
        Antes de te falar de uma coisa, vou te pedir  um  grande  favor:
tem uma pessoa que escreveu os quatro poemas que mando  aqui  junto  com
esta  carta.  No  vou  falar  nada  a  respeito  do  autor,  nem    das
circunstncias interessantes em  que  foram  escritos  os  poemas.  Digo
apenas que no so meus. O favor que eu quero de voc  me  dizer,  numa
carta rpida, quando tiver tempo, o que acha  deles.  Aqui  atrs  desta
folha vou escrever te contando de quem so, etc. etc. Mas leia-os antes,
pois quero saber se valem alguma coisa,  se  so  mesmo  poemas,  se  h
poesia, independentemente de quaisquer  circunstncias.  Assim  como  se
voc os houvesse achado na rua. O que voc me responder a esse respeito,
sua opinio, me interessa extraordinariamente, mais do que  tudo  o  que
voc me tem orientado e ensinado. E  s.
        Vou aguardar suas notcias,  escreva-me  se  puder.  Desculpe  a
chateao, muito obrigado, e a amizade certa do

Fernando

        PS.: Mrio, pode parecer idiota essa histria de eu escrever  s
nas costas desta pgina as indicaes relativas aos  quatro  poemas  que
lhe remeto junto. Mas  que tenho a impresso que essas indicaes devem
influir muito no julgamento deles - por isso quero saber se valem alguma
coisa em si. Apelo para voc, por ser a nica pessoa capaz de me ajudar.
Leia-os, por favor, veja depois o que escrevi  sobre  eles  e  me  mande
dizer o que acha. Mais uma vez, imensamente grato
        Sempre seu amigo,

Fernando




        Como eu j tive oportunidade de te contar, Mrio, numa poca  em
que me achava mergulhado em dvidas terrveis e juvenis, a  respeito  da
influncia que isso poderia exercer no meu destino como artista (?),ando
por aqui, pensando seriamente em ingressar no  rol  dos  homens  srios.
Isso ainda demorar um pouco, pois  ela  completou  17  anos  apenas  em
janeiro, e meus 19 incompletos no se impem muito ainda... Mas isso no
interessa. A verdade  que ela escreveu  os  poemas  sem  saber  que  os
escrevia,  isto  ,  sem  saber  que    eram    poemas;    em    cartas,
despretensiosamente. E se assustou muito quando lhe disse que

66 67

sentia poesia neles. (So os nicos que ela fez.) Gostaria  de  saber  o
que voc acha. Me interessa  muito,  como  voc  pode  compreender.  Vou
esperar ansiosamente sua opinio, e  desde  j  te  agradeo  muito.  Um
abrao do

Fernando



        B. Horizonte, 28 Julho 42

        Meu caro Mrio,
        Estou te escrevendo rapidamente, se  bem  que  haja  niuitssima
coisa que eu quero te falar (a respeito da Conferncia,  que  acabei  de
ler agora). Vem-me uma vontade imensa de desabafar com voc tudo  o  que
ela me fez sentir. Mas  longo, no tenho o direito de tomar seu tempo e
te chatear.
        Escrevo apenas para te comunicar  que  j  estou,  desde  poucos
dias, ostentando galhardamente uma rosquinha de ouro num  dos  dedos  da
mo direita.  com imenso prazer e alegria que te conto isso, a voc que
tanto tem me animado e auxiliado. Outra coisa: terminei o  bruto.  Estou
passando  mquina, num delrio desgraado.
        Bem, mas esse pedao de papel  rabiscado  foi  somente  para  te
participar o noivado. Desculpa ter escrito a mo.
        Estamos aqui na maior ansiedade aguardando sua resposta   minha
ltima carta. Recebeu?
        Bom, Mrio, um grande abrao para voc, e pode esperar,  que  eu
acho que acabo te escrevendo sobre a Conferncia.
        Conte sempre com a amizade do

Fernando







        68 69

S. Paulo, 6-VIII-42

        Fernando
        Juventude perversa, amor insacivel.  Mas  voc  julgava  siquer
imaginvel que diante dos termos da sua carta,  que  se  esforaram  por
demais por ser discretos, eu no imaginasse logo que os versos  mandados
eram de sua noiva! Bom: talvez pra no prejudicar, nem eu deva  analisar
o ridculo sublime que vocs alcanaram: releia com sua noiva, si  tiver
pacincia,  a   terceira    estncia    das    "Bodas    Montevideanas".
 "Aceitam tudo porque j no  mais hora de enxergar"...
        Est claro que a primeira  coisa  que  fiz  foi  virar  a  folha
datilografada e ver de quem eram os versos, s pra ter certeza da  minha
certeza. Depois me irritei, fiquei  danado  com  voc."Esses  pungas  de
rapazelhos diz-que no tm a menor piedade pela gente!"  etc.,  disse  o
diabo. Porque Fernando, o  que  poderei  dizer  sobre  vinte  versos!  E
principalmente sobre vinte versos gostosos! No digo nada! Ou terei  que
dizer um tratado de psicologia criadora!
        Os versos de sua noiva no permitem dizer nada. Prometem tudo  e
no prometem nada. Digo isto sem o menor  receio  de  fazer  vocs  dois
sofrerem, porque tenho a convico de  que  si  sua  noiva  for  de-fato
poeta, mesmo que eu  ordene  ela  a  nunca  mais  escrever  versos,  ela
escrever, mostrar, publicar e ser poeta
        Os versos de sua noiva,  poucos  assim,  no  provam  nem  negam
poesia. Provam que se trata de pessoa muito nova, e  muito  inteligente,
ou pelo menos, muito hbil.  certo que sua noiva l e conhece  bastante
a poesia cnova do Brasil.

70

Os poemas tm o mesmo ar sibilino de vrios dos milhares de poetas e  da
corrente da poesia atual, nascida de Augusto Frederico  Schmidt,  Murilo
Mendes e outros. No sei o que ela leu,  si  os  epgonos  ou  os  ecos.
Alis, com toda a rudeza, vocs dois me deixem que lhes diga  que  estes
versos tm at ar depastiche, de " la manire de".
        Mas, veja a dificuldade em que voc me deixou:   que  nem  esse
rano de imita o prova nada! Nem siquer posso dizer a ela que mude  de
rumo porque quem sabe ela vai dar  a  um  rumo  feito,  a  sua  coroao
definitiva!  fcil dizer diante do gostoso incontestvel destes versos:
Continue.  Mas  eu  no  sou  desses,  Fernando.  Quando  lhe    escrevi
espontaneamente e acreditei no seu valor que s faltava voc  justificar
e s voc pode justificar, eu me decidia diante de um volume inteiro.  E
assim mesmo com muita reserva e discreo. Eu juro que voc tem  talento
de escritor, mas nada mais juro. E si juro nem  tanto pelos seus contos
milhores, mas pelos outros. Foi pelo ruim ou fraco que eu decidi,  vendo
neles  um  fraco  ou  ruim  que  no  eram  os  da  bestidade   ou    da
desimportncia.
        Diante dos vinte ou trinta versos  da  sua  noiva  eu  s  posso
dizer: Continue. Justo o que no interessa dizer. Porque no  diz  nada.
Porque ou ela continua mesmo, e isso independer totalmente  do  que  eu
disse, ou de repente ou aos poucos fica outra coisa, mulher de sua casa,
me de seus filhos,  ou  tanto  poder  pr  uma  bomba  no  Palcio  da
Liberdade como uma flor nos cabelos.
        No  quero,  no  posso  orientar.  Toda  essapoesiaprofunda   e
sibilina, ansiosa por mistrios e  valores  eternos,  toda  essa  poesia
desmintidora de vidas  reais,  contraditria  com  as  vidas  reais,  me
assombra, me assusta, me deixa tmido.

71

Talvez esteja certo. Mas ser possvel que  a  poesia  escrita  desminta
desse jeito, o que a gente est vivendo,  sofrendo,  gozando  na  terra?
Ser possvel"transferncia" tamanha!
        Quando  Vitor  Hugo  nos  braos  felizes  do  amor  escrevia  a
"Tristesse DOlympio", ele se utilizava sempre de experincias que  todos
temos. A transferncia era admissvel, era mnima. Mas porque sua  noiva
no escreve uns versos dizendo que gosta de voc, que quer casar, que se
irrita com a espera e at que chora de raiva, de insatisfao. Onde est
a poesia? Toda poesia no  ser  poema-de-circunstncia?  E  porque  nos
poemas-de-circunstncia (poemas de desejo) essa necessidade de  tomar  o
elevador, irpro vigsimo andar dos arranha-cus da imaginao?...
        Eu no digo mais sobre estes  poemas,  Fernando.  Ser  que  sua
noiva  capaz de escrever duas quadrinhas sobre a violeta, sobre o amor,
sobre um maltrapilho, uma dor-de-dente, Deus, ou o sentimento da  morte?
Mas na mocidade, talvez  nem  isto  seja  possvel  e  eu  esteja  sendo
injusto.
        O que me consola nesta posio injusta em que vocs me colocaram
 que, si sua noivafor-de-fatopoeta, no adianta  nada  eu  desanimar  A
fatalidade sobrepujar o desnimo. E que vocs nunca botem  a  culpa  em
mim. Eu digo: continue. Si ela no continuar, a culpa ser dela. Ou  no
ser culpa: ser simplesmente a verdade. Que os versos so  gostosos,  
inegvel que so. E alis so mais estados-de-poesia que poemas.
        No tinha ainda lhe escrito  em  parte  pela  dificuldade  desta
carta bamba, bruxulean te, sem sim nem no, em parte porque  a  vida  me
atira aos limites extremos da intensidade. No tenho pra onde  me  mexer
na alma e no corpo, tudo cheio. Me vi de-repente de  novo  professorando
Histria da Msica no  Conservatrio  daqui  e  j  estou  completamente
perdido de paixo pelos alunos, que almas desempenadas! Mas perco um dia
todo, como  hoje,  arranjando  papis  pra  me  registrar  professor  na
Secretaria do Trabalho. Alis, por isto que esta carta vai  j.  Fiquei
numa irritao tamanha que me foi impossvel ir dormir na hora legtima.
As contrariedades, as irritaes, os protocolos do dia, a perda  do  dia
me arrasou. E quando saram daqui, s 24 horas, os amigos que vieram por
causa do professor Herskovsitz que veio me visitar  tambm,  estava  to
excitado que ainda  acabei  um  conto  difcil,  um  tal  de  "Frederico
Pacincia", estudando o  que  h  de  frgil  e  misturado  nas  grandes
amizades da rapazice, e ainda excitao  sobrando,  me  lembrei  de  lhe
escrever
        Agora so trs horas da manh e vou dormir. Fiquei  contente  de
saber que voc acabou o seu romance.  O  que  ser?  tenho  curiosidade,
esperana e... medo -  fatal.
        Vocs no zanguem com esta carta. Os culpados  so  vocs.  Mais
voc que ela, muito moo pra amar o amor  pelo  amor,  querendo  amar  o
universo, sublimidade, divindade total desta vida. E querendo,  no  sem
razo, que ela seja tudo. Seja feliz, Fernando. Que ela lhe d, mais  do
que a glorificao absoluta do estupefaciente, o completamento  adequado
de voc. O ela escrever versos   muito  bom.  Prova  preocupao  pelas
coisas do sentimento intelectual,  voc. Que Deus os abenoe.
        Com o abrao do

Mrio de Andrade


        72 73

        B.H. 1 Set. 42

        Meu caro Mrio,
        Antes de tudo mil desculpas por no  ter  respondido  sua  carta
antes. Essa demora pode fazer voc pensar duas coisas: 1O -  que  no  a
recebi; 2 - que no fiquei satisfeito com ela.
        Pois saiba que, ao contrrio, ela me agradou tremendamente. Voc
se mostrou mais uma vez, e mais  do  que  nunca,  meu  amigo.  No  pode
calcular como lhe sou agradecido.
        No , pois, por isso, que atrasei esta carta.  que  as  coisas
como sempre complicadas nos impedem de fazer alguma coisa  aproveitvel.
Essa histria de guerra, a gente na iminncia de ser convocado, o  curso
do C.P.O.R. apertadssimo por causa disso,  etc.,  etc.  Mas  desde  que
recebi sua carta me deu uma grande vontade de conversar com voc sobre o
assunto.
        Era  daquilo  que  ela  estava  precisando,  Mrio.   Justamente
daquilo. Uma espcie de sabo. Ou sabonete, alis: nada  mais  justo  do
que voc dizer que eu desejo que ela  seja  tudo.  Voc  tem  razo.  Eu
desejo sim - s que agora voc vai desculpar a maldade inconsciente  que
fizemos com voc,  te  colocando  naquela  posio  constrangedora.  Mas
valeu, porque voc nos  serviu  extraordinariamente.  A  verdade    que
aqueles 4 poemas por si s no  podiam  mesmo  significar  nada.  Se  eu
insisto  porque conheo alguma coisa mais do que isso: uma  novela  que
ela est fazendo, e que, esta sim, d margem a que se tenha espe-

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rana. Mas eu no animo de maneira alguma, e se  depender  de  mim,  ela
estar absolutamente desamparada, porque no quero ser o culpado caso eu
esteja enganado, nada mais detestvel  no  mundo  do  que  uma  literata
frustrada. Mas ser artista  outra coisa e se ela o , como voc  disse,
no depende de mais ningum. Aquela histria de mandar os poemas  serviu
para me orientar e no a  ela.  Foi  bom,  porque  cerceou  um  pouco  o
otimismo natural de meu julgamento. E um pouco desumano, mas ela tem  de
ficar entregue  prpria sorte: no devo interferir.
        Aquela histria da influncia da  poesia  brasileira  moderna  
verdade. E mais verdade ainda  o que voc  disse,  concluindo,  que  eu
encontrara algum que me servia. Encontrei mesmo.
        Bem, meu velho Mrio, que diabo, afinal estou te chateando muito
com essa histria toda. Quanto  ao  meu  romance,  pelo  qual  voc  to
generosamente  se  interessou,  vai  indo.  Estou  passando  a  mquina,
capinando, remendando. Pretendo  ficar  amadurecendo  aquilo  por  muito
tempo, porque j esto se findando os 18 anos de se fazer besteiras.
        Falei na sua conferncia. Que amargura desgraada me  deu  Lendo
aquilo, Mrio. Encontrei nas suas palavras finais um pouco  do  fim  que
esperava para todos ns, por causa da destinao tremenda que  a nossa.
Senti nas suas palavras a impresso cruel de  ter  de  pronunci-las  um
dia, quando estiver se  esbatendo,  j  na  memria  da  gente,  a  luta
sustentada  procura daquilo que afinal nunca se conseguiu achar.  Ainda
mais agora, Mrio, quando a gente sente to bem que  chegado o fim, que
nada mais  possvel fazer, que minha gerao, desnorteada e pervertida,

75

est fadada  destruio total. Que vontade a minha de ter vivido na sua
poca em que havia para onde olhar. Se ainda restasse alguma  esperana,
Mrio, um ponto mnimo que fosse de otimismo,  ento  sim,  a  gente  se
esforava, estudava, escrevia, viveria enfim. Mas, de que adianta  viver
hoje? Voc tem cumprido os seus compromissos, voce realizou,  venceu.  E
se h em voc a sensaao imperdovel de ter fracassado, trata-se  de  um
homem que no deve nada a si mesmo. E ns? Afinal, no  significam  nada
os compromissos assumidos com ns mesmos um dia? Ento a  gente  no  se
envergonharia de no poder cumpri- Los? O pior  aquilo que eu te disse:
no h a mnima esperana. A gente no se engana,  deixando  de  ler  os
jornais, de ouvir as ltimas notcias. No prprio ar se sente j  que  
preciso se adaptar urgentemente,  preciso sufocar de uma  vez  a  nossa
vida anterior, se queremos continuar a viver,  se  no  queremos  acabar
loucos ou suicidas. Porque a verdade  que  esse o nosso fim, Mrio.  O
corpo se adapta,  verdade.  preciso resistir s  horas  de  marcha,  
velocidade inconcebvel dos avies,  aos  bombardeios,  a  tudo.  Mas  o
esprito nunca. Cada dia os choques  so  maiores,  o  desequilbrio  se
acentua. A vertigem brutal dos acontecimentos  muito culpada disso, no
se consegue tempo suficiente para sofrer tudo o  que  est  acontecendo,
coisa por coisa, tempo para sofrer os homens que esto  morrendo,  homem
por homem. No h nenhuma possibilidade  de  conseguirmos  sintonizar  o
nosso esprito com os acontecimentos. O que a gente pensava ontem, o que
a gente esperava ontem, j  diferente do que se tem de pensar e esperar
hoje. Quem  que agenta?
        Mrio, voc me desculpe. O  culpado  sou  eu  mesmo,  que  devia
esperar melhor momento para te  escrever.  Conto  com  sua  amizade,  em
perdoar este desabafo. No repare. Esta carta s segue porque   preciso
que lhe escreva para saber que recebi  a  sua,  e  que  ela  me  agradou
extraordinariamente. E que voc continua a me ajudar mais do  que  tudo,
continua sempre o bom amigo que se mostrou um dia disposto a me  ajudar.
Muito obrigado, desculpe mais uma vez, e um grande abrao do sempre  seu
amigo

Fernando

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S. Paulo, 9-X-42

        Fernando
        Voc terminava sua carta dizendo que s a mandava pra  eu  saber
que voc recebera a minha anterior. De-fato: nunca vi carta  mais  feia,
mais errada. Olha, Fernando, na sua idade isso   natural:  preocupaes
de guerra, C.PO.R.,  noiva,  estudos  que  a  gente  no  sabe  si  deve
continuar no momento, mobilizaes, o diabo - tudo isso    natural  que
encha o peito de um moo sensvel e inteligente e estoura em, afinal das
contas, quinta-colunismos!!!
        Puxa, como ficou horrvel voc dizer  que  "no  possvel  mais
tera mnima esperana"!... Est claro que no possvel  deixar  de  ter
uma formidvel, uma quente e gostosa esperana nos homens, mas o que  eu
me pergunto  si se trata de colocar o problema do ser  num  sentido  de
esperana?
        Bom, no quero agora de palanque me agarrar a  uma  palavra  que
voc escreveu e afinal das contas no ser o  seu  sentimento-pensamento
completo, mas com efeito nos momentos ntimos de covardia indefinida, de
covardia que a gente recalca e no chegar jamais  concincia moral,  
to comum esse jeito de pr tudo na esperana...  No    voc,  milhes
fazem  essa"imoralidade".  Porque  isso    desfigurar  por  completo  o
problema do ser: voc coloca o sentido  da  vida  no  como  ao,  como
rendimento, mas como inao, como recompensa!
        Afinal das contas a esp erana principalmente no sentido de  uma
vida milhor que  o da sua carta,  uma  espcie  de  egosmo  hediondo,
pura mscara acovardada dessa coisa sublime que  o amor dos  homens.  O
nosso problema moral, mais que apenas moral, o nosso problema humano no
consiste em esperar, em ter esperana numa vida milhor  -  consiste  mas
emfaze fazer imediatamente, essa vida milhor. No  que essa vida milhor
seja difcil ou mesmo"impossvel" como voc afirma em sua desistncia de
moo (?), ela h de vir, tem de vir.
        Des  que  voc  no  confunda  puerilmente  "vida  milhor"   com
felicidade total e perfeio. A vida milhor  vem.  Tem  vindo  sempre  e
continuar vindo. Mas eu no tenho nada, em minha concincia do meu  ser
e em meu amor humano, com essa recompensa coletiva que uns  acham  garan
tidacomo eu, outros improvvel e outros impossvel. Como ser  individual
e como amante de humanidade, eu devo, eu tenho que mover o gesto do  meu
brao, a palavra da minha boca,  eu  tenho  que  render.  Repito:    um
problema de rendimento e no de recompensa. Voc fazendo o  seu  servio
militar  rendimento; escrevendo o seu romance com honestidade artstica
 rendimento; amando a sua noiva  rendimento.
        Bom, isto no basta, est claro. O rendimento do ser no  s de
dentro pra fora. O que o torna angustioso em momentos como o atual  que
esse rendimento tem de se condicionar no apenas   humanidade  do  ser,
mas  atualidade humana do mundo. Como fica difcil agora  eu  continuar
falando... Porque  quase impossvel eu continuar apenas  na  tese,  sem
que os meus pensamentos e sentimentos interfiram  mostrando  um  caminho
que eu sei certo, e tomando as formas  perigosas  do  conselho.  Eu  no
quero aconselhar voc no que voc tem afazer eu apenas afirmo  que  voc
tem que fazer; Fernando.

        78 79

        Voc tem medo  da  morte?  Voc  ter  pena  de  morrer  na  sua
mocidade? Si tem pena, si tem medo, o que lhe garanto  que jamais  voc
ter uma"mocidade". Estou sempre dentro do meu assunto, sim.  Porque  s
mesmo falando assim, eu persevero na tese do rendimento  condicionado  
atualidade humana, digo vida. Ns estamos vivendo uma vida de morte. Por
detrs de cada morro a morte erguendo o rabo espia a cidade. Do meio  da
multido espirra  a  morte  violenta,  "antes  que  chegue  o  tempo  da
velhice". Mas isso  mil vezes milhor do que adquirir no fim da  vida  a
concincia de no ter vivido. De no ter  rendido,  embora  laureado  de
recompensas...
        Minha conferncia que tanto  impressionou  voc  e  impressionou
vrios... Minha conferncia  um desses casos amargos em que,  na  minha
con cincia esportiva da  vida,  eu  costumo  dizer;  perdi  o  jogo.  A
contagem dos pontos desta vez, o "escore", foi  dois  a  um.  Porque  eu
tambm fiz um gol, isto no h dvida. Si eu publiquei aquela  confisso
to dolorosa, no de fracasso, mas de descaminho, de algo errado, foi na
"esperana" de dar aos mais novos uma concincia  mais  determinante  do
momento. Infelizmente no rendi  como  queria.  Percebi,  assombrado  em
minha ingenuidade, que os moos ainda estavam mais velhos que eu,  e  s
colho gols de desistncia e de desnimo  contra  mim.  Uma  lavada,  meu
caro.
        Mas eu fiz um gol sim.  Inesperadamente  fiz  um  gol...  a  meu
favor, quando eu me colocava em favor dos outros. Eu  que me decidi. Eu
  que  tenho  (no  esquea  sempre  do  "na    medida    das    minhas
possibilidades") reagido contra a minha recompensas  e  ando  agindo  no
sentido de completar aquela vida de intelectual que, na conferncia,  eu
reconheci e julguei incompleta. E agora j posso lhe dizer que me  sinto
mais nobre e mais viril. Ser que me completarei? Meus gestos novos  no
estaro acaso errados?... No me  interessam  semelhantes  "esperanas".
Sei que, de concincia ntida e impiedosa, com toda a honestidade,  que
decidi dos meus atos atuais. E com toda a paixzo movo os meus gestos. Me
sinto... feliz? Feliz. Feliz naquela exatido da infelicidade que no se
conforma, no se consola, no se contenta de milhoras transitrias,  no
cruza os braos e nem por sombra  lembra  esse  pior  entre  os  verbos,
desistir.
        Parece que lhe estou dando uma  lio  de  moral...  no  pensei
nisso.  No,  apenas  eu  vivo  voc  apaixonadamente,  sua  carta    me
brutalizou, fez mal. E afelicidade humana nisto tudo  que  Fernando  de
Belo Horizonte, pode ser Maria de STo Lus, Jos de Campinas, Teofrasto
do Nordeste. Os "modernistas" do meu tempo aqui me advertiriam discretos
que isso e messianismo". Mas eu no tenho  medo  das  palavras.  Ej  te
quero muito bem.

Mrio de Andrade

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        B. Horizonte, 29 de Outubro 42


        Meu caro Mrio,
        Recebi sua carta no dia em que completava  19  anos.  No  podia
ganhar melhor presente de aniversrio.
        E de tudo, houve nela uma coisa que me agradou mais  do  que  as
outras: a notcia  de  que  voc  est  procurando  completar  sua  vida
intelectual. No  que  ela  seja  incompleta,  Mrio,  como  erradamente
conclui  na  conferncia.  Na  verdade,  no  existe  vida   intelectual
completa. Qual o intelectual que tem a conscincia  honesta  de  se  ter
completado? Nenhum (a no ser o Cludio de Souza, talvez...) Mas  aquele
seu pessimismo quase doentio, quase de vencido,    provocado,  eu  sei,
pelo sentimento de um homem que de repente se viu s,  abandonado  pelos
outros que ficaram no meio do caminho. Esse pessimismo    profundamente
contagioso, envenena a gente... Voc no imagina com que interesse,  com
que ansiedade de participao quase, a gente se debrua sobre sua  vida,
para acompanhla avidamente, como se ela trouxesse algo de decisivo para
todos ns, moos. Muito mais do que significa para voc a nossa  vida  e
as nossas tentativas,  os  nossos  momentos  de  desnimo  e  as  nossas
vitrias, significam para ns a sua experincia, a  sua  arte,  os  seus
menores atos intelectuais. E como nos apunhala o temor de que voc possa
tomar como sendo o fim aquilo que por sua prpria natureza    ainda  um
caminho - o mais spero, o mais estreito, mas que levar mais longe.
        Minha carta, que voc tanto repreendeu, foi fruto  talvez  disso
tudo, Mrio. Se voc se sentia assim, que diramos ns? Se  voc  achava
que se realizou errado, que  diramos  ns,  que  talvez  no  poderemos
sequer nos realizar? Eu no espero  recompensa  alguma.  Eu  no  desejo
nenhuma vida melhor, como voc achou pela minha carta  -  que  realmente
era apenas um momento de fraqueza. Eu no tenho medo da morte, Mrio.  O
que aconteceu, voc bem sabe: se voc, em outras condies  que  no  as
nossas, acabava tendo a conscincia de ter  se"desencaminhado",  de  ter
tido um"alvo errado", o que ser  de  ns?  Me  faltava  esperana,  sim
naquele dia (hoje estou um pouquinho melhor...)  Mas  no  esperana  de
dias melhores, e sim de poder fazer alguma coisa. Que a  tremenda  crise
de esprito dos nossos dias no destrusse a necessidade dessa coisa.  E
a tal histria: de que adianta fazer, de  que  adianta  tentar,  se  no
obteremos nenhum resultado? Porque, nesses momentos, a  gente  acha  que
no.
        E chega. Falemos de voc. No pode calcular a  minha  satisfao
ao sentir seu entusiasmo de moo. Parece que voc  que tem  19  anos...
(As vezes, Mrio, me detenho a pensar se no sou um velho.) Como nos  d
alento saber que  voc  ainda  sente  que  tem  gestos  para  seu  brao
esboar, ainda tem palavras para sua boca dizer. Engraado e  que  senti
em mim uma espcie de compensao, como se  esse  fosse  o  "rendimento"
para os meus esforos. Mais do que tudo na sua carta,  me  inflamou,  me
contagiou de entusiasmo  (e  ao  mesmo  tempo  de  vergonha  pela  minha
mocidade to enrugada), saber que aquele Mrio de Andrade, do  Movimento
Modernista, a quem a literatura brasileira devia tudo  o  que  tinha  de
mais rico, autor de

        82 83




"Macunama", que a gente lia sem entender  direito  mas  empolgado  pela
melodia maravilhosa - ele no morreu como os outros, ele ainda  est  a
esbofeteando a face da ccmocidade, com um ardor que  ns,  moos    que
devamos ter. Com uma sede de vitria e perfeio, que   perfeio  por
si s. Tudo aquilo que senti desabar fragorosamente, nas ltimas pginas
da conferncia, vi levantar-se de novo agora, ante sua carta, na qual me
mostra que voc ainda continua ignorando o pior dos verbos...
        Minha carta te brutalizou, e a sua me causou um bem  enorme.  S
hoje pude lhe escrever respondendo, e  foi  bom,  porque  se  o  fizesse
naquele mesmo dia, voc estaria perdido: a resposta seria maior ainda do
que est sendo.
        Ando num batente desgraado, como voc sabe. O livro  vai  indo,
galhardamente. Muito entusiasmado, agora. Acabei de ler os  seus  contos
do"Primeiro Andar", que encontrei  num  sebo  aqui.  Tive  muito  melhor
impresso do que eu esperava. Sabe por qu? No    pretenso  no,  mas
voc me pareceu ento muito mais  nossa altura, os defeitos  vista, as
influncias, as qualidades, que eram como que o filo que voc iria mais
tarde explorar... Hoje, para ns, voc   menos  palpvel,  embora  mais
humano,  como um smbolo (desculpe) de nossa vida mesma, que voc  est
vivendo. S um homem encontrei que me desse essa impresso de  eu  estar
vivendo antecipadamente a minha prpria vida: Octavio de Faria. (E  quis
a sorte que eu contasse com a amizade e o auxlio de vocs dois.)
         por isso que, s vezes, eu tenho a impresso  que  voc,  como
ele, busca e acabar encontrando, na eternizao da obra de arte, aquele
que  a prpria Eternidade. Agora, pode  ser  tambm  que  essas  idias
sejam apenas a influncia de Gide, cujo"La Porte troite" acabei de  ler
ontem, e que me deixou simplesmente abafado. Enfim...
        Bem, Mrio, sou um sujeito bem claro s vezes, voc    que  no
sabe. At logo e um abrao do

Fernando
 R. Gonalves Dias, 1458 - B. Hte.


84 85

N




S. Paulo, 6-XII-42

        Fernando
        Sua carta chegou aqui quando eu estava em crise. Isto ,  no  
bem crise: aquele estado de abatimento geral, de desiluso, de  desgosto
de si mesmo, de quando a gente acaba uma coisa. Enfim  esse  terrvel"no
dia seguinte". Imagino que pra todos os artistas, alis pra toda  gente,
deve ser a mesma coisa. At enterro  desilude.  No  posso  esquecer  do
momento em que, enterrado meu Pai, cheguei  em  casa  de  volta  do  cem
itrio. Foi a coisa mais... sim: mais desilusria desse mundo. J estava
muito fatigado de sofrer pra que o sofrimento me empolgasse e me tirasse
o sentido normal da vida. Na verdade o que eu sentia era que  estava  no
dia seguinte de um fato extra-quotidiano e que tudo  estava  continuando
no seu terra--terra normal. Foi horrvel a desiluso que senti.  Queria
continuar na "festa"  do  sofrimento,  nas  lgrimas,  no  mexe-mexe  do
enterro, papis, gentes, e no havia mais nada. Tenho sempre essa  mesma
sensao de abatimento quando acabo um trabalho e principalmente publico
um livro.
        Pois estava assim, terminando o grande esforo de composio  do
Caf. Alis poucas vezes uma  cria  ao  minha  tem  me  desgostado  to
desilusria e hesitantemente como esta. Sei jogar  fora  com  facilidade
quando acho ruim o que fao. Mas desta vez  no  pude  me  convencer  de
jogar fora nada. Resolvi dormir milhor  sobre  a  coisa  e  ainda  estou
dormindo. Mas cada vez que lembro dela, e  constante, me d um malestar
danado, uma angstia que chega a ser fsica. Est muito pau isso.

86





        Mas me botei trabalhando noutras coisas, terminei  a  composio
de dois livros, um de  ensaios  e  outro  de  crnicas  leves,  tudo  j
publicado em jornais e revistas. Mas terminei, creio  que  a  oitava  ou
nona redao de um conto que anda atravessado na minha vida desde  creio
que 1924, perdi a data exata. Tambm andei mexendo noutro,  um  caso  de
poo bem fortezinho. Como caso. Mas tambm   trabalho  que  jfiz  duas
redaes diferentes e ainda no me agrada suficientemente. Acho que  vou
meter a mo noutro conto, este ms, si a vida der.
        Mas  ms de muita atividade obrigatria e tenho que ir no  Rio,
talvezfiquepra janeiro.
        Gostei muito de voc gostar do Otvio de Faria. Eu tenho  enorme
admirao por ele e considero o romance dele a coisa mais intensa e mais
sria da nossa novelstica.
        Mande me contar como vai o seu romance. Estou  numa  curiosidade
vasta. Trabalhe muito, me'rmozinho e d duro pra ver o que sai. Si  no
prestar,  comece  outro.  Dezenove  anos...  Que  coisa  fantstica  ter
dezenove anos!
        Com um abrao do

Mrio












87




        Belo Horizonte, 30 de Dezembro de 1942

        Meu caro Mrio,
        Recebi sua carta e ela me entusiasmou de tal maneira  que  estou
disposto a dar um pulo a So Paulo para te conhecerpessoalmente.  Mas  o
problema  muito mais srio do que parece - tanto mais que o C.P.O.R. me
prende aqui pelo menos at maro, quando, com a  graa  de  Deus  e  dos
cus, sairei aspirante... se no levar pau. Que a coisa  durssima.  S
mesmo os que nasceram para aquilo, e eu no nasci.
        Bem, mas descolando uma licena mdica, tudo se arranja. O  caso
 saber se voc estar mesmo a, pois, como disse, voc iria ao Rio,  ou
j foi, ou j est l. Enfim, seria timo uma carta sua me dizendo  qual
a melhor poca para eu ir. Mesmo porque vou poder passar a s uns  trs
ou quatro dias, no mximo uma semana.
        Enquanto isso, te peo um grande  favor.  O  que  voc  disse  a
respeito de sua atual  atividade  me  deixou  entusiasmado  com  voc  e
envergonhado comigo:  como digo, parece que voc  que tem 19 anos... E
eu que ia te pedir que me dissesse o que anda fazendo, seus planos,  sua
atividade atual, etc. Isso me interessa muito, mais  do  que  voc  pode
pensar.
        Bem, vamos ao favor que eu queria de voc, se fosse possvel: me
mandar o tal conto que anda te chateando desde 1924.  Nem  queira  saber
como tenho interesse em l-lo. Ou outra coisa qualquer  que  voc  tenha
feito ultimamente. No pode calcular, por exemplo, a  minha  vontade  de
saber como anda o seu trabalho sobre Portinari. Bem, eu leria o conto  e
lhe mandava imediatamente de volta.   possvel?  Se  no  for,  no  se
constranja.
        O meu livro vai indo. Peguei no bicho de novo depois de pronto e
estou cortando todo suprfluo. Preciso de uma  coragem  desgraada,  mas
estou empenhado firmemente em reduzi-lo  ao  essencial.  No  sei  se  o
publico.  Tenho  medo  de  me  ter  prendido  a  uma  orientao   muito
preestabelecida no que concerne  tcnica, de modo que esta se deixa ver
a todo momento como um artifcio. Ser mesmo? Enfim,   ir  trabalhando.
Tenho esperana que depois de pronto eu consiga que voc passe os  olhos
nele para dar sua opinio. Mas pode ser constrangedor para voc, de modo
que prefiro deixar para falar nisso em ocasio oportuna.
        O Abgar Renault esteve aqui e fez uma conferncia sobre  Tagore.
Gostei muito dele pessoalmente e o admiro muito. Voc se d com  ele?  
pena um sujeito como ele, podendo ser um grande artista  e  se  perdendo
assim, no ?  o mal de todos os  mineiros,  mal  de  que  pretendo  de
qualquer maneira fugir: se perder em outras atividades, se deixar vencer
pela vida social, poltica, burguesa. Ser muito passivo, no ter coragem
suficiente para passar o p em tudo. Todos  aqui  so  assim.  Cyro  dos
Anjos, por exemplo, confessa que procura esconder o mais possvel a  sua
condio de escritor, quer passar apenas por um bom burgus, para evitar
amolaes. O diabo   que  o  sujeito  acaba  ficando  burgus  mesmo...
Guilhermino, Alphonsus, esses da velha guarda vo todos  ficando  assim,
camaradas que podiam  ter  feito  grandes  coisas.  Esta  terra  aqui  
desgraada, Mrio. Ou o sujeito foge

88 89



daqui (como fez o Carlos Drummond e recentemente o Oswaldo Alves), ou se
perde mesmo.  o caminho de  todos  ns  se  aqui  ficamos:  casar,  ter
filhos, criar galinhas, um bom emprego, condio social -  e  literatura
mesmo... horas vagas!  o cmulo. E l vou eu, Mrio,  l  vou  eu.  Nem
queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo  pelo  mesmo
caminho? Ser que conseguirei reagir a tempo, ou me agentar a-pesar  de
tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas,  por  diletantismo?
Isso para mim ser pior do que a morte. Mas ento  preciso mesmo mandar
tudo  merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo
e todos, fugir daqui para poder se agentar? Sinto perfeitamente que  se
continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mrio. E isso  no
pode, no pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu  tenho,  se  for
necessrio. Mas  necessrio? E at que ponto    preciso  reagir?  Ser
preciso sacrificar tudo?  Tenho  atravessado  uma  crise  tremenda,  nem
queira saber. Cheguei a um ponto em que sinto que  preciso tomar alguma
deciso, quanto antes! Porque se eu caso para depois resolver a  questo
(e a questo  quase toda essa, como voc deve compreender) depois  que
no resolvo mesmo. Porque isso  de  sacrificar  amor,  facilidade,  tudo
enfim, eu topo mesmo, estou disposto. Mas sacrificar os  outros...  Nada
pior para um  indivduo  do  que  o  dia  em  que  percebe  que  no  h
compreenso possvel, que isso  quimera, e que ele ser sempre como uma
regio amaldioada onde ningum consegue penetrar... E minha obra,  ser
sacrificada com isso?
        Eu estava to adormecido, Mrio, to cego de  entus  iasmo,  que
no via nada disso, achava que tudo nadava em rosas, estava at admirado
de ser to dcil, to facilmente moldvel.  que no percebia que estava
adormecendo qualquer coisa em mim, qualquer  coisa  que  est  acordando
agora, qualquer  coisa  que  sou  eu  prprio.  Nunca  vi  inconscincia
tamanha. Agora, estou emaranhado demais, tudo que acontecer ser  apenas
sofrimento. Como consegui me enganar  por  tanto  tempo,  como  consegui
pensar que havia possibilidade de ser de outro modo, de  conciliar  tudo
to facilmente, como se a gente no fosse mesmo um ser maldito  desde  o
nascimento...
        E essa angstia toda que me tem  assaltado  nesse  fim  de  ano,
Mrio. Procurei retardar a resposta   sua  carta,  pensando  que  assim
poderia passar sem  lhe  chatear  como  das  outras  vezes,  com  minhas
preocupaes, que s a  mim  interessam.    intil.  Acabo  desabafando
mesmo,  e  no  fim,  como  agora,  uma  espcie  de  vergonha,    pudor,
constrangimento para com  voc.  Mas  afinal,  que  diabo,  voc  h  de
compreender tudo e perdoar: voc parece ter 19 anos, Mrio.
        Um abrao do

Fernando

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S. Paulo, 23-1-43

Fernando
        Acabo de reler a sua carta  e  fiquei  da  mesma  forma  que  da
primeira vez: numa impossibilidade muito grande de responder. O  assunto
quando se refere a V se torna de tal forma grave e ao  mesmo  tempo  to
evasivo que tenho medo de qualquer palavra minha  e  mesmo  compreenso.
Terei compreendido? Uma palavra errada poder ferir  muito  a  sua  alma
delicada. E eu no sei.
        Alis  possvel que V tenha escrito  a  sua  ltima  carta  num
desses momentos de angstia grande em que a gente precisa mesmo recorrer
a algum amigo sinb estoura. Imagino que agora V j  estar  mais  calmo
embora sempre sofrendo muito as suas indecises.
        Primeiro falemos dos mineiros, puxa como V    mineiro  cem  por
cento. Deixe que eu lhe diga uma vez por todas, sem favor: eu  adoro  os
mineiros,  a  maneira  de  sensibilidade  dos  mineiros,  a    qualidade
intelectual derivada disso. No  tem  dvida  que  os  mineiros  so  as
inteligncias mais sensveis e tambm mais completadas  do  Brasil.  Mas
disso tudo deriva uma conscincia que no  mais exatamente  lgica  mas
excessiva, uma clarividncia que no    mais  dinmica  mas  cptica  e
tendendo para a inatividade e o esconderijo.
        Eu gosto muito de certas qualidades de vocs, a timidez, a falta
de brilho exterior, o  pudor,  a  ironia,  a  esperteza.  Esse  caso  de
esperteza, por exemplo,    muito  subtil.  Os  nordestinos  tambm  so
espertos e os paraenses. Paulista no:paulista  pesado. Mas quando  os
do norte fazem esperteza e sao espertos, tudo transparece franco, brutal
e toma, em refernda  moral da civilizao crist, um ar  de  safadeza,
de semvergonhice,  o exrcito do Pard. Muita  gente  detesta  isso.  Eu
compreendo.  que h neles uma espcie de primarismo (estou  falando  em
geral,  claro) que os torna por assim dizer mais leais.  H  uma  certa
grandeza nisso, que eu amo. Talvez eu "ame" mais os nordestinos  que  os
mineiros.
        E so todas essas qualidades delicadas que  prejudicam  bastante
os mineiros, no  o provincianismo, acredite. So Paulo pode ser  maior
que Belo Horizonte,  mas  continua  terrivelmente  provinciana.  No  h
dvida que pra mim vocs sejam, sempre em  geral,  a  inteligncia  mais
completada  do  Brasil,  a  que  mais  harmoniosamente  rene  todas  as
qualidades e caracteres da Inteligncia. No entanto seria  a  maior  das
falsidades dizer que vocs tm realizado uma criao  intelectual  maior
que a dos outros brasileiros em igualdade de situao produtiva.  Vocs,
sobretudo, e justo pela maneira intelectual mineira, nunca vm  frente.
Passado o momento da chamada"Escola Mineira", vocs se limitam sempre  a
ir na cauda do cordo. Vocs  desconfiam  demais.  Falta  ingenuidade  a
vocs. No terconcincia que prejudica a  vocs,  mas  ter  excesso  de
concincia. Talvez seja um pouco bom confiar no  acaso  do  futuro,  mas
vocs  so  de  todos  os  brasileiros,  os  nicos  que  eliminaram   o
anjo-daguarda. Em que at os plutocratas confiam.
        Veja um caso bastante divertido:  sabido  que  os  mineiros,  e
devido  no  tem  dvida    maneira  da  inteligncia  deles,  so  uns
"polticos" de primeira ordem,  diz-que  os  mais  hbeis  polticos  do
Brasil. Durante o regime do PR.P  foi  assim  e  enquanto  os  paulistas
politiquentos  imaginavam  mandar  e  mandavam,  Minas  se   engrandecia
internamente.

92 93

k



 verdade que a riqueza do caf foi tamanha que ainda permitiu que muita
coisa  ficasse  aqui  dentro  pra  engrandecimento  da  terra,  mas  uma
porcentagem infinitamente maior se escoava  na  compra  do  gostinho  de
mandar.
        Mas veio a inteligncia diablica de Getlio Vargas. O que fazer
com esses mineiros incomodativos? Era preciso um jeito  de  elimin-los.
Foi criado esse privilgio ridculo da "presidncia", enquanto os outros
estados todos ficavam sob o jugo ditatorial  das"interventorias".  Minas
que se governe! - o que tambm  um jeito depensarpor dentro: Minas  que
se arranje! Enquanto o governo do pas  obrigado a cuidar de e proteger
todos os outros estados, talvez nunca Minas tenha atravessado um perodo
detamanhapasmaceira de engrandecimento interno como de 1930  pra  c.  O
prprio So Paulo odiado do governo com razo e sem razo, alm  do  seu
ritmo de engrandecimento interno mais normal devido   sua  riqueza,  si
continua ininterruptamente  espesinhado  no  que  chamaramos  dignidade
moral, na sua "prospia", pelas mil e uma  exigncias  da  sua  economia
interna  que  reflete  imediatamente  sobre  a  do  Brasil,  continua  a
menina-dos-olhos  do  governo.  Povo  inerme,  polticos   semvergonhas,
capitalistas infamemente cnicos, uma coisa moralmente horrvel  que  me
envergonha. Mas que sustos d constantemente no governo!  Epreocupaes!
Minas? Minas  brilha  com  o  crach  da  presidncia  napeitaria,  est
conosco. E o governo no se amola  com  Minas.  Minas  duvida,  sei  que
duvida at do seu crach lustroso, mas tambm prefere no se  amolar.  E
to interrogativo o fazer! e ento  um Ciro dos Anjos que no faz  como
 um politico que no faz - ambos so a mesma coisa.
        Fernando, eu vejo o reflexo disto tudo na sua  carta.  Mas  como
voc  moo e ainda no est "acomodado" na vida, V  se  exaspera  e  se
desespera. E sofre  muito.  Um  Joo  Alphonsus  sofre  bem.  Essa    a
converso acomodatcia que o diferena a ele e aos mais, dos moos  como
voc. Ele j sofre bem, internamente, numa espcie  de  volpia  branda.
Mas voc e vrios outros moos d'a, vocs olham isso e enxergam; e  por
isso sofrem muito, naquele  estado  dinmico  do  sofrimento  que  exige
perpetrar um gesto. Voc exige de si mesmo o gesto, mas ao mesmo tempo a
qualidade mineira da sua inteligncia enche V de perguntas e no sabe  o
gesto, o ato que pode fazer. Voc  se  lembra  em  "Fantasia",  de  Walt
Disney, aquela passagem da Fuga de Bach, em que se v um tnel confuso e
aquele como que caixo de defunto se bota andando e  se  anula  tnel  a
dentro? A inteligncia de vocs, mineiros moos (e alis de vrios moos
paulistas tambm) est muito assim. No  concinca:  excesso  de  con
cincia. Alm da dvida, sempre nobre, sobre o valor  pessoal,  mas  que
quando desprovida de ingenuidade nos imobiliza  em  caixo  de  defunto,
vocs exigem saber o que vo encontrar no  fundo  obscuro  do  tnel.  E
vocs no tm certeza que seja uma qualquer espcie de dia.  Assim,  nem
mesmo o caixo  se  bota  andando.  O  crach  da  inteligncia  relumia
napeitaria enganada. Mas  a estagnao.  De  muitos  moos  mineiros  e
paulistas tenho ouvido ultimamente  os  julgamentos,  as  anlises  mais
implacavelmente clarividentes sobre o confusionismo do momento que passa
e as incertezas pessimistas sobre o futuro prximo. O que me assombra  e
me entristece muito, que toda essa clarividncia sdica   um  pretexto
para no fazer.

94 95

        E  preciso antes de mais nada,fazer Fernando,  preciso  fazer.
Eu creio que voc vive justamente num elemento estagnado em  que  o  seu
dever  fazer. Voc est arripiado de  perguntas  inteis.  "Coragem  eu
tenho, sifor necessrio. Mas  necessrio?";"Cheguei a um ponto  em  que
sinto que preciso tomar alguma deciso. Porque si eu caso  para  depois
resolver a questo, depois  que  no  resolvo  mesmo";"Porque  isso  de
sacrificar amor, felicidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou  disposto.
Mas sacrificar os outros?";"Nada pior para um indivduo do que o dia  em
que percebe que no h compreenso possvel, isso  quimera, e  que  ele
ser sempre como uma regzao amaldioada onde ningum consegue  penetrar.
E minha obra ser sacrificada com isso?". Tomei a  pacincia  de  copiar
estas frases da carta de  V  pra  que  voc  as  guarde  consigo.  Foram
escritas aos dezenove anos! em 1943!!! Em 1843 os lvares-de-Azevedo  do
tempo escreviam essas mesmas  frases.  E  voc  sabe  como  elas  saram
vividas, verdadeiras de dentro de voc. E voc. Mas  eu  sei  como  elas
saram igualmente vividas e sofridas dos  lvares-de-Azevedo  maiores  e
menores de todos os tempos.  Mas  voc  me  interromper  com  todssima
razo:"Mas eu no tenho nada com lvares de Azevedo e  si  coincido  com
ele, ele que se fornique!  o meu sofrimento,  o meu caso que eu  tenho
que resolver". E voc tem razo, Fernando. O que eu quis foi apenas  dar
mais humanidade ao seu egosmo. Digo mesmo: dar mais egosmo,  dar  mais
profundidade ao seu sofrimento e ao seu egosmo. Porque voc ainda no 
o"egosta" no sentido em que Milton, Goethe, Dante,  Cames  oforam,  no
sentido em que o artista, o homem tem de ser egosta. Pra  se  realizar.
Voc  pensa"nos  outros",  hesita  em"sacrificar  os  outros",  e   esta
aparncia de  humanidade    que  me  parece  deshumana.  Mesquinhamente
humana. Apoucadamente humana, como  si  a  sua  humanidade  de  voc  se
resumisse s quatro ou cinco pessoas que voc toca com a mo!
        Eu no sei, Fernando, eu no estou aconselhando nada, V  tem  de
resolver sozinho. Mas haver mesmo o que resolver! Tudo no estar  indo
certo? E neste caso o seu sofrimento e as suas dvidas no  derivam  nem
das circunstncias da sua vida, nem da sua mocidade vida do sofrer, mas
das prprias realidades to confusas da vida atual do  homem.  No  ser
talvez prefervel e mais profundamente egosta voc no sacrificar nada,
nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos,  nem  incompreenses,
mas viver tudo isso junto, em tudo procurando apurar  o  que    voc  e
buscando se superar em voc? Pra que imaginar si do outro lado do  tnel
faz dia ou faz noite? S tem um jeito de saber:  ir at l. O perigo no
 encontrar noite la, mas encontrar a noite e  imaginar  que    o  dia.
Talvez o milhor segredo da dignidade de ser  homem    ter  a  fora  de
dizer: "perdi". Porque, Fernando, ns perdemos. Ns perdemos sempre... O
indivduo humano ser sempre  essa"regio  amaldioada"  em  que  no  
exatamente que ningum consiga penetrar, mas em que toda explora  o  
imperfeita, incompleta. E por isso deformadora.  At  para  o  indivduo
mesmo.  o signo da maldio.
        D mesmo um pulo at So Paulo, Fernando, eu  gostava  muito  de
conversar mais com voc, ler suas coisas com voc aqui, lhe  mostrar  as
minhas. No me animo a lhe mandar o conto que durou vinte anos quase  se
fazendo. No  desejo  que  ele  seja  lido  em  separado  por  causa  da
delicadeza do assunto. Alis no tenho atualmente  duplicatas  dos  meus
contos e tenho medo muito do nosso correio, embora no deva  me  queixar
muito dele. S lhe peo uma coisa: me prevenir mais

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ou menos com uma semana de antecedncia, da sua vinda.  Vivo  sempre  de
horas marcadas e assim  poderei  reservar  muitas  horas  para  a  nossa
convivncia.
        Este ms j escrevi dois  contos  mas  esto  apenas  emprimeira
redao, como sempre, muito fracos.  Talvez  possa  tirar  alguma  coisa
deles, mas no sei, nem quis reler. Apenas sei que um deles, epor  certo
o milhor, ter que ser totalmente modificado, por enquanto no passa  de
um rosrio  de  anedotas  que,  si  caracterizam  a  psicologia  de  uma
professorinha velha que tem uma  crise  de  sexo,  ainda  no  chegam  a
aprofund-la. O outro conto,  um puro efeito  de  contraste,  no  vale
nada si no conseguir escrever em estilo muito bom, que o sustente. Crio
um ambiente de mistrio e malestar que deve durar por todo o conto,  mas
que  no  ltimo  pargrafo  se  resolve    numa    piada    humorstica,
voluntariamente larvar. Um caso de virtuosidade pura. Mas eu  careo  de
me desfatigar s vezes, nestes virtuossmos gratuitos  das  coisas  mais
srias que me abalam muito. E tpico: completado  o"Caf",  me  meti  em
contos cmicos e nada doloridos.  sensvel que fui levado a  isso  pela
preciso de me desafagar.
        Bem,  chega  por  hoje  e  estou  escrevendo    estefinalzinhoj
de-tarde. A carta foi escrita de-manh. At breve. No conto ir  no  Rio
to cedo. Sifor, avisarei voc pra nossas viagens no se desencontrarem.
        Com o abrao do

Mrio






98

B. Horizonte, 11 de Maro de 1943

        Meu caro Mrio,
        H bem uns oito  ou  dez  dias  que  no  apareo  por  aqui  na
Secretaria: o Secretrio viajou, de modo que a coisa andou  meio  frouxa
por esses dias. Minha noiva est em Caxambu descansando, para  onde  no
fui tambm por causa do C.P.O.R., se eu faltasse um dia  seria  suspenso
cinco. Acontece que faltei esse um dia e fui suspenso os cinco.  Em  vez
de ir para l, me enfurnei em casa e descasquei  a  novela  com  tamanha
fria que ela est acabada. Para celebrar, o  Carnaval  mesmo  serviu  e
agora quem est acabado sou eu: aqui estou curtindo a ressaca.
        No quis fazer outra coisa seno trabalhar na novela esses dias,
por isso no lhe escrevi h mais tempo respondendo  sua  carta,  de  que
alis gostei muito. Peo desculpas pela demora. Mandei um carto  rpido
no ltimo dia que estive aqui, no sei se voc recebeu.
        Hoje, antes de sair de casa, reli sua carta pela 3a  vez  ou  4a
vez. Muito me entristeo por no poder pelo menos por ora dar um pulinho
a. Seria fabuloso para mim te conhecer de perto. Alm do mais voc  nem
queira saber o que isso significaria em orientao e ajuda. Estou  louco
para que voc passe os olhos na novela.  Ela  me  deixou  um  sentimento
muito desagradvel: certo carinho meio desdenhoso e superior, por  causa
da tremenda decepo que tive - pois no  ainda o que  eu  esperava  de
mim. Tenho a impresso que no consigo tocar mais no fundo de mim mesmo.
At aquilo que  pura experincia pessoal sai assim

99




com ar de virtuosismo, de coisa inventada e besta. J viu s? Ela  ficou
bem menor do que eu esperava, graas a Deus, e  espero  encurt-la  mais
(pretendo agora pass-la a mquina, definitivo)  umas  sessenta  pginas
datilografadas. Depois guardo na gaveta para chocar, ver se vale  alguma
coisa mais tarde. No quero publicar no. Se eu for a, levoa  para  que
ela fique com voc. No me atrevo a envi-la, pois sei o  quanto  o  seu
tempo  curto. Eu tenho vontade de passar uma semana a, de modo  que  o
C.P.O.R. dando brecha eu bato as asas no mesmo dia.
        Com respeito   minha  ltima  carta,  voc  tem  razo,  Mrio:
escrevi-a num momento de angstia em que  precisava  desabafar.  E  como
voc diz,"continuo mais calmo, embora sempre sofrendo  muito  as  minhas
indecises". (Alis, tirei um peso de cima de mim depois que terminei  a
novela. Estou mais leve, mais descansado. Vai fazer um  ano  que  estava
mexendo com ela! Consegui dormir umas noites deliciosamente tranqilas.)
Acredito que seja o excesso de conscincia que me  prejudica;  mas  isso
decorre de minha natureza mesmo e no do fato de eu ser"mineiro cem  por
cento", como diz voc. Voc acha que ns mineiros  desconfiamos  demais.
Que falta ingenuidade em ns. Pode ser, mas em mim    o  contrrio:  h
ingenuidade demais... E  por causa desse excesso de ingenuidade (e  no
de conscincia) que me preocupo muito com  meu  futuro:  estou  querendo
ingenuamente enxergar o que h do  outro  lado  do  tnel.  No  que  me
exaspere contra a minha condio de mineiro. Mas  que sou  moo,  quero
fazer, e no h de ser porque os outros no fazem que eu vou  deixar  de
fazer.
        O que h de mais melanclico em tudo isso  que a gente sabe que
"a mocidade vai acabar", e chegar um dia em que  todo  esse  entusiasmo
nos parecer pueril - ento a gente  se  acomoda  na  vida,  passando  a
sofrer bem, aprende a curtir o sofrimento interiormente, a  aproveit-lo
como fora criadora. Eu sei  que  isso    bom,    uma  evoluo,  esse
amadurecimento do esprito.  Mas    to  melanclico  saber  que  nosso
esprito vai amadurecer...
        E depois, Mrio, o conflito nasce do fato de o esprito  mineiro
j nascer maduro, faz com que a gente de 19 anos se sinta  s  vezes  um
velho, enquanto a mocidade ao mesmo tempo grita em ns que est  errado.
Voc sabe bem que em mim nunca haver estagnao.  Na  verdade  eu  quis
saber se do outro lado do tnel era dia ou noite. Mas   verdade  tambm
que eu vou at l.
        Disso tudo, Mrio, eu aproveito com melancolia as suas  palavras
mais impressionantes de crua verdade - de tudo que voc me tem dito  foi
o que me tocou:"Talvez o milhor segredo da dignidade de ser homem   ter
fora de dizer: perdi. Porque,  Fernando,  ns  perdemos.  Ns  perdemos
sempre..." Nunca verdade  alguma  me  encheu  de  tanta  melancolia,  me
sufocou tanto a alma como essa, assim escrita. Porque a gente sabe,  mas
nunca se volta sobre o caminho andado para constatar que apenas  perdeu.
E de repente esbarra com  uma  verdade  to  dolorosamente  grande:  ns
perdemos sempre... E amargo demais.
        A propsito daquele caso  dos  mineiros,  uma  coisa  engraada:
falamos de Cyro dos Anjos, eu at o aproveitei para exemplo  do  marasmo
em que anda a literatura por aqui. Pois acontece  que  ele  me  ofereceu
outro dia para ler as 40 pginas de seu novo romance, que vem escrevendo


        100 101




h muito tempo e s produziu 40 pginas at hoje. Pois seu Mrio, fiquei
besta com o que li: est muito  bem  escrito,  amadurecido,  definitivo.
Naquele mesmo clima do Amanuense Belmiro, mas melhor ainda.  Parece  que
vai ser um belo romance, se continuar no mesmo p.
        Por falar em romance, recebi ontem uma carta do Octavio de Faria
que me fala nos romances dele.  Que  homem  extraordinrio,  puxa!  Est
escrevendo dois romances ao mesmo tempo, prosseguindo a  srie  Tragdia
Burguesa, e diz que no pode escrever um sem escrever o outro,  pois  os
personagens  se  entrosam.  E  acontece  que  o   segundo    tomou    um
desenvolvimento tal que est ameaando abrir um novo ciclo, to  sofrido
: trata-se da confisso do Armando com o Padre Luiz - voc  leu"O  Lodo
das Ruas", no? Pois bem, diz ele que j  escreveu  para  mais  de  dois
volumes e meio e ainda falta muito. Onde  que ele arranjou cabea  para
caber tanta coisa dentro? Tem medo de ficar louco: eu tenho  medo    de
que ele no tenha tempo de fazer tudo o que tem para fazer e  capaz. Me
fale nele quando me escrever, Mrio: tenho uma admirao desgraada  por
ele, pela Tragdia Burguesa, acho que ele est fazendo ou  vai  fazer  o
que h de mais importante em nossa literatura,  mais  que  Graciliano  e
quem sabe mais tarde mais mesmo que Machado de Assis. Alm disso,  tenho
por ele grande amizade, pelo que me ajudou, me animou (assim como  voc)
quando eu era ainda um menino; desejava muito saber se voc tambm  acha
importante assim (Nossa Senhora, quatro pginas!) a obra dele,  defeitos
- enfim, a sua opinio. Voc  j  fez  algum  estudo  sobre  ele?  Tinha
vontade de saber.

102

        Bom, Mrio, quatro pginas em tempo de guerra no    sopa  no.
Deus te guarde de minhas cartas, te d  muita  sade  e  caso  contrrio
dinheiro para poder pagar o mdico: pode  ficar  certo  que  se  eu  for
suspenso outra vez no C.P.O.R. a estarei firme para um papinho. At l,
um grande abrao e a amizade do

Fernando





103



        Belo Horizonte, 24-25 de Maio de 1943

        Querido Mrio,
        Jurei a mim mesmo no passar de hoje e  escrever  a  voc.  Toda
noite chego em casa, falo:"hoje vou  trabalhar  um  pouco  na  novela  e
quando acabar escrevo para o Mrio." E quando acabo j so duas, trs da
manh, estou caindo de sono. Sempre assim. Desde que vim da, passei por
uma srie de complicaes at hoje. Formatura de  C.P.O.R.,  festas  pro
Presidente, uma poro de coisas, acabei doente. Mas j estou bom.
        E voc? Foi bem de Rio? Soube que no chegou a ver  a  exposio
do Segall. Estou pensando em ir ver a do Portinari, voc  vai?  Podamos
no analisar e ir juntos, que  que voc acha? Uns dois  dias,  eu  iria
at mesmo a So Paulo te buscar. Veja se topa, que  eu  gostaria,  e  me
responda, sim?
        Por falar em Portinari,gostei demais dele.  Bom  sujeito,  muito
camarada, me tratou muito bem, almocei com ele. Os trabalhos que vi  nem
se fale,  aquela  srie  bblica  me  deixou  grogue.  E  o  retrato  do
Chateaubriand tambm. Fiquei de arranjar uma  pedra-sabo  para  ele,  
difcil, mas estou arranjando, gostei muito dele.
        Engraado, Mrio:  eu  estava  pensando  agora,  apesar  do  meu
silncio nesse tempo todo desde que voltei, vejo bem que na verdade  no
nos afastamos. Agora mesmo, por  exemplo,  estava  lendo  "O  Baile  das
Quatro Artes"; ontem

"Um dos Quatro Grandes, em"Gente", Editora Record, 197S.

104

encontrei o "Aleijadinho" numa livraria; amanh  vou  mandar  encadernar
o"Amar, Verbo Intransitivo" que est desmanchando. E no s os livros  -
a falta que estou sentindo  do  nosso  bom  tempinho  a,  do  chope  no
Franciscano, eu e o  Hlio  sentadinhos  esperando  at  que,  de  tanto
esperar, acabava aparecendo mesmo um vastssimo Mrio de Andrade  metido
num sobretudo enorme, um sorriso maior ainda...
        Foi bem boa para mim esta viagem, Mrio,  nem  queira  calcular.
No demora muito  e  estarei  a  de  novo.  Sinceramente,  foi  bom  te
encontrar: conheci um amigo,  me  enriqueci  muito  mentalmente,  ganhei
certa confiana em mim que no tinha. Voc nem imagina  como  fiquei  te
querendo bem - mais ainda. Eu sabia sim que  voc  iria  me  receber  de
braos abertos, sabia voc um bom sujeito, um bom amigo. Mas me comoveu,
palavra, a  sua  to  acolhedora  simpatia  para  comigo,  sua  generosa
pacincia ante minha curiosidade em te conhecer -  senti  que  de  algum
modo voc acredita em mim, no meu esforo para produzir alguma coisa.  E
isso  mais do que eu podia esperar. Gostei dessa sua casa,  o  ambiente
em que voc estar lendo esta carta. Me comoveu a sua  solidariedade  de
companheiro, largando as coisas importantes  que  tinha  de  fazer  para
conversar com a gente.
        Minha  novela  vai  indo  bem,  obrigado.  Estou  copiando    em
definitivo para te mandar, mais uns quinze dias e acabo.  Sabe  que  sa
oficial do C.PO.R.? Pois sa, com a graa de Deus. Agora, o  estgio  de
trs meses em Trs Coraes... Se  no  acabar  meu  livro  antes  estou
desgraado.
        Tenho pensado muito, todos os dias,  no"Caf".  Vontade  de  ler
outra vez, para poder assentar um juzo

105

definitivo. Me deixou meio atordoado  a  primeira  leitura.  O  Drummond
esteve aqui, queria conversar com ele sobre o"Caf" e me esqueci.
        Por falar em poeta, o Hlio  est  com  medo  de  te  mandar  os
poemas. Diz que ficou burro para sempre, que aquilo tudo  uma porcaria,
vai largar de escrever de uma vez. Falei que faz bem e ele ficou safado.
        Voc no imagina a curiosidade com que fui recebido pela  Helena
no Rio. Queria saber isso e mais aquilo de voc. Inda h pouco, ali  por
meia-noite, me deu saudade, telefonei para ela  que  ainda  devia  estar
acordada e falei -"Voc vai ficar boba  com  uma  coisa  que  aconteceu,
adivinhe." (Ia falar que tive saudade dela, s isso.) Ela  ento  disse:
"Ah, j sei, o Mrio chegou aqui."  Nem  falei  em  saudade  nenhuma.  A
conversa foi toda sobre voc, at sobre  a  cor  daquele  seu  sobretudo
comprido.
        E a cabea dela, esculpida pelo Jos Pedrosa?  Mande  dizer  que
tal achou, ele pediu, e eu tambm estou querendo saber. Ele chegou ontem
do Rio, cheio de encomendas, inclusive uma Santa Clara de 3 metros  para
a capela da Pampulha. Est sem saber como, j falei com  ele  que  Santa
no pode ser nua no.
        Depois de longa demora recebi o registrado com os livros.  Muito
obrigado por mais essa camaradagem. Falar nisso, estou  lendo  o  "Baile
das Quatro Artes", conforme disse. Nunca pensei que fosse possvel a uma
pessoa exprimir integralmente o meu pensamento a respeito de uma  coisa,
sem faltar o mnimo detalhe, como voc, fazendo a crtica de  "Fantasia"
do Walt Disney.  aquilo, sem uma vrgula, o que eu penso. Gostei  muito
de"O Artista e o  Arteso",  discuti  com  Murilo  Rubio  sobre  aquela
histria de virtuosidade. Ele confunde aquilo com cultura,  cultura  com
erudio, confunde tudo!
        Bem, meu velho Mrio, vou ficando por aqui. Uma hora e  dez  j,
tenho de dormir e a carta j vai longa. Eu queria que voc  soubesse  de
verdade o quanto foi bom encontrar voc, o quanto voc  importante para
mim. A prova disso  que estou pensando em voltar a: logo que a  novela
estiver pronta, conforme for, levarei eu mesmo. Se voc no se importar,
 lgico. Use daquela franqueza de pr a  gente  pra  fora  a  hora  que
estiver cansado seno o dia amanhece, voc morre de  sono  e  ainda  no
samos.
        Estou esperando o livro da Oneida Alvarenga. Quando estiver  com
ela d-lhe lembranas.  Gilda eu envio um abrao,  diga  que  recebi  a
carta  dela  e  que  vou  responder  logo,  estou  vendo  se  arranjo  a
colaborao para Clima. Diga a  ela  que  todo  mundo  gostou  de  "Rosa
Pasmada", incondicionalmente mesmo.  Fala  com  o  Antonio  Candido,  se
estiver com ele, que achei excelente o artigo sobre o Cyro, se no h um
jeito dele me enviar as crticas anteriores para  eu  ver,  tinha  muito
interesse.  que eu estou vendo se recebo o pagamento dos exemplares  de
Clima que consegui vender, vou reunir os nmeros no vendidos,  recibos,
dinheiro e tudo e mandar para ele.
        Bom, Mrio, meu velho, ponha-me para fora. Um grande  e  saudoso
abrao do sempre amigo

Fernando


        P.S.: Me responda sobre aquela idia de  irmos    exposio  de
Portinari. Quem sabe voc j ia mesmo?

106 107




        B.H. 3-6-43

        Mrio,
        O Pedrosa est aqui na Secretaria  todo  afobado:  vai  embarcar
para o Rio e de l para a. Como ele na certa vai te procurar, pedi  que
esperasse um pouquinho para eu bater na mquina este bilhete. Soube  que
voc anda pitimbado (Alfonsinho me disse), que diabo    isso?  Ainda  
aquela encrenca do fgado e  adjacncias?  Desejo  que  voce  fique  bom
depressa.
        Como ? Resolveu alguma coisa a respeito do Portinari? (Deve ter
recebido minha carta, no?) Estou com  vontade  de  ir,  mas  com  voc.
Vamos, que diabo, faa fora! Eu dou um pulo a, para  te  buscar.  Ando
com vontade de bater um papo com voc, saudoso de meu tempo a. A novela
est acabando e me acabando tambm.  Surgiu  uma  poro  de  problemas,
tenho trabalhado pra burro todo dia. Estou louco para saber sua opinio.
        Bem, o Pedrosa est nervosinho aqui me olhando,  vou  arrematar.
Um grande abrao para  voc,  e  se  puder  mande  notcias,  que  estou
impressionado com essa histria de emagrecer  12  quilos.  Lembranas  
Gilda, diga que hoje mesmo escreverei a ela. Sempre seu o
                            Fernando


        Mrio,
        Estou saindo da Secretaria e  resolvi  te  mandar  este  carto.
Recebi sua carta e no respondi ainda  porque estava brigando com  Deus
e todo mundo aqui para dar uma fugida a  So  Paulo  e  estar  com  voc
pessoalmente. At agora  no  consegui  nada.  Amanh  te  escrevo  mais
longamente. Um grande abrao do Fernando

        Gostei muito da sua carta. Mas  deixa  para  falar  amanh,  que
seno essa  que no vai hoje.

108 109



S. Paulo, 16-VI-43

        Querido Fernando,
        Daqui a pouco chega a criada com o " janta tdna  mesa"  mas  vou
principiar lhe escrevendo assim mesmo. No sbado parto pra chacra do Tio
Pio e desta vez quero ver si nem penso. 20 dias de descanso total. Andei
ruim mesmo, irmo pequeno. Com Rio e coisas-de-Rio piorei muito,  fiquei
palito e verde. Mas creio que as Mulheres,  as  minhas  Santas  Mulheres
ho-de me botar forte. Uma amiga me fez jurar pr  em  experincia  dois
meses de tratamento severo e dieta legtima. Outra pediu mais um ms pra
ela e eu no pude recusar. Outra,  finalmente,  me  pediu  s  mais  uma
semana, de choro, que concedi tambm. A coisa principiou no 15 de maio e
com um ms j estou muito milhor outra vez,  pelo  menos  do  fgado.  O
resto vai indo.
        Mas  falar  nisso    chato.  A  cabea  de  Helena  est  aqui,
importante e bela eforte de verdade. Estou seriamente preocupado  com  o
Pedrosa, acho que pode ir longe. A cabea no  promessa  no,    coisa
que j se sustenta por si, muito bem  construda,  rica  de  planos,  de
linhas. Ah! me esqueci de falar a ele  aqui:  ser  que  ele  faz  muita
questo mesmo de acusar a menina dos olhos? Fez  isso  na  Helena  e  no
amanuense Belmiro. Eu no sei no... A mim me  parece  que  fragiliza  o
globo ocular sem adiantar muito como expresso pessoal. Mas  apenas  um
problema que eu queria perguntar a ele, no tenho opinio formada sobre.
Apenas,prefiro o globo ocular liso. De resto todo o busto da Helena est
de uma simplicidade muito nobre, uma sntese bem  escultrica.  No  Giro
dos

110

Anjos h talvez uma certa preocupao realista inquietando um  bocado  o
silncio do material, no sei me exprimir direito,  no  pensei  bem  no
caso e agora no tenho tempo pra pensar.

        Voc me fala em nos encontrarmos no Rio na exposio  Portinari.
Estou na angstia com a exposio do Portinari. Recebi  um  convite  dos
alunos (aqueles que estiveram aqui) da E. de Belas Artes, pra fazer  uma
conferncia na exposio. Eu  tenho  mesmo  que  escrever  a  monografia
"Portinari" pra Argentina, mas queria fazer isso s quando voltasse  das
frias. Antes de mais nada preciso  me  "desintoxicar",  diz  o  mdico.
Tanto que at os rodaps musicais da Folha da Manh j bati malemal  uns
cinco pra deixar aqui. Voc no imagina, Fernando, basta ler duas  horas
seguidas, escrever duas horas, me vm dores-de-cabea to horrveis  que
fico desesperado. Sim, j vm mais raramente agora, mas eu sinto, eu sei
pelas Santas Mulheres que um descanso total agora vai me  fazer  um  bem
prodigioso.
        De maneira que s na volta, l por  15  de  julho  posso  pensar
portinarices e a exposio dele se fecha a 19 seguinte.  Vou  recusar  a
conferncia. Alis sem muita dor de corao, porque embora amigo  ntimo
do Portinari epessoalmente o preferindo de muito ao Segall,  tem  havido
briguetas e intrigas de rivalidade entre os dois e no  quero  me  sujar
nessas baixuras de interesseiros ou simplesmente sentimentais.  A  janta
t na mesa. At logo - S recomeo a  carta  s  22  e  30,  uns  amigos
estiveram aqui.
        Bem, mas o que eu ia falando  que bem mais interessante  que  a
ida ao Rio, foi o convite que recebi  pra  ir  a  Belo  Horizonte,  duas
conferncias na Fac. de Direito, pra um

111

Centro. Mas neste caso o que me obrigou a recusar foi a  impossibilidade
de falar o que, pra moos e estudantes, eu deveria falar. Ah,  Fernando,
como est difcla minha vida, cada vez mais difcil... No  questo de
fazer conferncia que, alis, estou disposto a no falar mais em pblico
na  minha  vida,  a  no  ser  por  obrigao  ou  caso    absolutamente
excepcional. Mas  que no me agento mais, cada vez mais  me  sinto  na
obrigao de ou falar o que devo ou me calar duma vez, no sei como  vai
ser.
        Voc me falou que desejava ler outra vez o "Caf" pra ter opino
mais livre. Voc tem razo, mas antes de mais nada no  se  esquea  que
o"Caf" no me satisfaz. No falo como realiza o que isso ele  no  me
satisfaa, nem ele nem nenhuma  obra  minha,  nunca.  O  "Caf"  no  me
satisfaz, quero dizer: no sentido de que eu no  posso  ficar  nele.  Eu
sinto  verdade que, no instante, ele foi um como que  completamento  de
uma etapa. E apenas isso. Est claro que, nesse sentido, ele me completa
tambm, mas eu sei que ele seria  um  completamento  de  mim  s  si  eu
morresse agora, j, coisa que no parece muito provvel. Mas, e agora? o
que fazer? Me lembrei de um livro de combate, que se chamaria "Vademecum
para os Artistas de  boa-inteno",  uma  espcie  de  divagaes  sobre
esttica, arte, o  artista,  funcionalidade  da  arte,  do  artista,  da
obra-de-arte. Guarde pra voc o que estou lhe contando. Se trata  apenas
de um projeto muito vago, de que nada  est  escrito,  s  imaginado  em
desordem. E si voc contar vai ser esse sofrimento chato de todo  dia  a
gente escutar"E o Vademecum como vai?", coisas  assim.  Seria  um  livro
como ode Tolstoi, nada cientfico mas cheio da minha verdade pessoal, de
grande violncia moral, drstico: ou o artista  honesto ou   filho  da
puta. Coisas assim, mas sem palavra-feia. Em todo caso, no sei  nada  e
nem a voc dou o direito de me perguntar nunca"Em que ficou o projeto do
Vademecum", te mando naquela parte.
        Voc no me  falou  que  impresso  teve  do  Otvio  de  Faria.
Pergunto porque na sua carta anterior voc me perguntava sobre ele e no
preciso lhe responderporquej conversamos aqui sobre.
        E creio que  s. Ah, tem o Hlio. Insista com ele  pra  que  me
mande os versos, mesmo que esteja disposto a  no  gostar  nem  publicar
Fiquei  gostando  muito  dele    e    ele    me    inquieta    com    os
seusproblemasferozes. Como deve ser difcil ser  moo  neste  tempo  que
vivemos! Aqui sim, reconheo: deve ser muito mais difcil do que j  ser
da minha idade. Um futuro de que vocs sero responsveis...  Que  vocs
tero que fazer... A  no  ser  que  virem  aquele  palavro  que  ficou
atrs...
        Achei vocs dois diabolicamente inteligentes, puxa! Na sua idade
eu era nada. E probleminhas to outros. Os que eu tinha vocs  tm,  mas
tm os seus, os deste tempo a mais, que eu no tive. E com a  vitalidade
intelectual de vocs dois, eu imagino que,  sim,  sobretudo  que  vulco
catico vocs tm por dentro. Efico to inquieto,  com  tanto  medo  por
vocs, medo por todos os lados.
        Olha, Fernando,  certo que eu gostava muito de voc,  das  suas
cartas, do que voc promete, do seu sofrimento pessoal.  Mas  foi  muito
bom  voc  vir  aqui,  tudo  se  engrandeceu,  ficou  to  despido    de
inquietaes, de esperanas. Ficou verdade e ficou simples. A literatura
 uma coisa grande mas a literatura  de passagem. E agora  ns  ficamos
mais humanos. Havia como que uma necessidade em ns, que  era  superior,
dominadora, e no meu modo de ver muito desencaminhadora do


        112 113




sentimento sublime da amizade.  Voc  precisava  de  mim,  de  perguntar
coisas pra saber. E eu precisava de  voc,  pra  responder,  pra  dar  o
resultado da minha experincia, que  to necessrio  como  perguntar  E
havia sempre e tambm aquele meu egosmo de no querer perder tempo  com
gente inaproveitvel. A sua presena aqui veio apagar essas necessidades
e tudo ficou muito mais nobremente humano. Est claro, nada mudou e tudo
mudou completamente. Voc continuar perguntando coisas, eu  respondendo
coisas, eu me agradarei de quando voc gostar do que  eu  fao,  ficarei
menos completo quando voc no gostar, e o mesmo se dar com  voc.  Mas
repare como tudo se quotidianizou doutra forma. Agora  voc  poder  nem
perguntar mais nada, nem eu perguntar mais nada. Nada impede  uma  carta
falando de Helena, nada impede uma carta contando que vou pra fazenda. A
presena, o contacto teve essa  magia.  Ficamos  libertos  e  gratuitos.
Agora somos dois estraalhados humanos que sabem que se querem  bem,  se
estimam, se entrevivem sem interesses imediatos mais que essa glria  de
entreviver por coincidncia. E ficou tudo to  notvel!  Estou  sorrindo
por causa da beleza perigosa que me nasceu do, do que, meu Deus!  no  
s do meu sentimento, nem s do meu pensamento, que nasceu de mim  todo.
E que eu sei  que  agora  eu  dava  a  vida  por  voc.  No  pensa  que
estoufalando palavras grandes, no,  so  das  mais  simples.  No  por
sentimento, nem por esperana, nem si quer pelo seu futuro em que creio.
 por,  para distinguir o carcter da amizade que nos liga a mim com 50
anos e voc com 20. Voc no se lembra  bem,  decerto,  mas  no  30  ato
do"Caf", enquanto os corais degu erra se amontoam por detrs do muro do
cortio, tem aquela cena  muda  em  que  chega  o  chefe  revolucionrio
malferido e morre. Vem trazido por dois companheiros moos, dos quais um
parte assim que entrega o moribundo s mulheres, mas o outro fica. Nisto
vem a visita-da-sade e o moribundo repara no moo que ficou parado ali.
Faz um gesto enrgico, no pode mais  falar,  coitado,  mandando  que  o
rapaz siga o seu destino de lutar. O moo vai  pra  partir,  enxuga  uma
lgrima, se detm, volta, quer dar um beijo  de  adeus  nos  cabelos  do
chefe. Este se irrita, recusa e cai morto. E  assim,  Fernando,  que  eu
digo, sem demagogia nem exagero, que eu hoje dava a vida  por  voc.  Si
voc dissesse o mesmo, eu ficava danado  como  o  chefe  revolucionrio.
Recusava o seu adeus intil, dizendo: Besta! v viver!  Hoje  o  que  eu
desejo simplesmente, alm, acima do que voc promete  em  arte    saber
voc, moo, vivendo. Bem entendido: como o moo revolucionrio  que  foi
arriscar a vida de novo por alguma coisa maior que  o  indivduo.  Mesmo
porque si no houvesse a comcidncia, no seramos amigos.
        Com o abrao mais perfeito do

Mrio

Lembrana pra Helena, Hlio e Rubio. E eu  que  fiquei  de  escrever  a
ele...

114 115


        B.H. 20-7-43

        Querido Mrio,
        Etienne me telefonou ontem dizendo que recebeu  uma  carta  sua.
Fiz ele ler a carta pelo telefone mesmo e fiquei sabendo por ela  a  sua
alegria ao receber meu telefonema. Por maior que  ela  tenha  sido,  no
deve ter sido to grande como a minha ao falar com voc. Eu  j  tentara
me comunicar com voc vrias vezes, antes de receber sua  carta  dizendo
que ia para a fazenda do tio Pio. A carta aumenta a saudade e  um  pouco
da apreenso pela sua sade. Senti muito ter ido ao  Rio  sem  voc.  Eu
pensava mesmo de l dar um pulo at a, mas tive medo de voc ainda  no
ter voltado. (Esta mquina est desgraada de mim.)
        Falei na sua carta: voc nem queira saber a alegria que  ela  me
trouxe. Dessas cartas que enchem a vida da gente.  Confesso  que  fiquei
comovido, alegre, triste, saudoso, sentindo todo o bem que  j  quero  a
voc me melancolizando, me dilatando a alma, cheguei a  pensar  que  era
vontade de escrever. De noite, l para uma hora, li voc de novo, passei
para os seus poemas, voltei para  as  cartas,  li  todas  elas  desde  a
primeira at a ltima que tanto me purificou, e tive de  repente  desejo
de contar a voc uma poro de coisas de minha vida, que  nem  eu  mesmo
sei. Foi quando o Hlio brotou  quase  milagrosamente    porta  do  meu
quarto naquela hora da madrugada. Soubera  que  eu  tinha  recebido  uma
carta sua, queria saber de mim as novidades. Samos,  fomos  sentar  num
banco da Praa da Liberdade e ficamos conversando sobre voc  at  quase
de manh. Chegamos  concluso de que voc  o melhor sujeito do  mundo,
e eu vim dormir inteiramente pacificado e sem solido mais. Ento no dia
seguinte quis agradecer a voc por telefone, mas voc  ainda  no  tinha
chegado. Quando afinal consegui te encontrar no agradeci nada. Acho que
nunca saberei te contar o imenso bem que sua amizade me faz.
        Gostei muito da exposio do Portinari, e dele tambm.    muito
camarada comigo. Estou querendo escrever alguma  coisa  sobre  ele  para
Mensagem (esta mquina, esta mquina...) mas sou imensamente burro  para
escrever sobre pintura, de modo que s fazendo um artigo  de  divulgao
para o pessoal daqui, voc no acha?  Ningum  aqui  conhece  Portinari,
sabe quem , a no ser que  um pintor que pinta negros de  mos  e  ps
enormes...
        Alis, por falar em Mensagem, tenho a impresso de que voc est
achando  que  o  jornal  vai  entrar  numa  nova  fase...  No     isso
propriamente. A verdade   que  saram  alguns  burros  respeitveis  da
direo e o  Etienne  entrou  de  secretrio.  Com  isso  esperemos  que
melhore. Mas ela continua sendo apoiada financeiramente por uma livraria
daqui, cujo diretor acha que o jornal deve ter um  cunho  popular,  todo
mundo  ler  para  comprar  mais  livros,  toda  mediocridade   possvel,
inclusive poetas de rdio, etc., para ser  simpatizada  pelo  pblico...
Imbecil. No sei se o Etienne conseguir  dobr-lo,  ns  todos  fazemos
votos.
        Ele hoje vai me entregar o artigo do Roger Bastide, logo  que  o
ler te falarei o que achei. Por falar em achar, encontrei  um  monte  de
"Namoros com a Medicina" numa

---

* Um dos Quatro Grandes,"Gente", Editora Record, 197S.


        116 117

livraria daqui. A turma toda comprou. Te interessa? Acho que ainda  deve
haver por l alguns.
        Andei tentando o conto de novo, escrevi dois. Estou com  vontade
de te mandar, mas sempre que penso em te mandar alguma coisa  me  lembro
logo dessa sua vida agitada a, dessa sua dor de  cabea  que  me  deixa
muito apreensivo (se puder me escrever, diga como vai  passando.  Escuta
aqui: por que voc no experimenta levar  srio um mdico por uns  bons
tempos? H de haver alguma causa. Voc no pode  continuar  assim,  deve
ser insuportvel!).
        Minha novela h muito tempo est pronta para te mandar, mas  no
o fiz at agora por causa de seu estado de sade. Deixei uma cpia com o
Carlos Drummond, no Rio. Em todo caso, j que tirei uma cpia para ficar
com voc, ela vai, e voc me promete no deixar ela aumentar sua dor  de
cabea.
        Tambm tenho tido minhas dores de cabea, mas ca a meu  modo.  A
novela  uma. Acabei, e estou sentindo que  no  fiz  nada,  apenas  uma
coisa  mal  desenvolvida,  contrafeita,    convencional,    torcida    e
profundamente literria. Ser mesmo? Por isso sua opinio   importante.
O pior  que tenho medo de haver entrado por  um  caminho  errado,  e  o
certo ser o dos dois contos que falei (eles e a novela so dois caminhos
completamente  opostos).  E  eu  no  tenho  conseguido  calma  para  me
concentrar, pensar. Minha vida cada vez mais  agitada,  tudo  saindo  ao
contrrio, todo mundo contra mim, me chateando, me atrapalhando.
        Pois , velho Mrio, deram agora para ficar contra  mim.  Helena
no, ela est do lado de c.  Mas  a  tradicional,  respeitabilssima  e
honrada famlia mineira considera literatura boemia, coisa de  vagabundo
- e vai por a afora, aquilo tudo que voc j sabe: " o cmulo o  noivo
da filha da gente ir ao Rio para ver exposiao de pintura! Malandragem!"
 assim mesmo, pode crer. De modo que eu, que no princpio no  conhecia
as divinas vantagens da hipocrisia, tomei posio, no  bajulei,  fiquei
contra o que achava errado, me abstive de lamber os ps de ningum  como
os  outros.  Da  haver  atritos,  eu  ser  criticado,  censurado,    os
bajuladores entram em cena, caluniando cada vez mais  por  verem  que  o
terreno  propcio, e  ento  eu  sou  farrista,  namorador,  leviano  e
literato. Helena sempre do meu lado,  a  ponto  de  ficar  louca  com  a
oposio que me fazem. Agora tudo j serenou um pouco, estamos  os  dois
mais ou menos  entrincheirados,  embora  me  sinta  observado  nos  meus
menores gestos. Mas a coisa andou feia, mais ou menos naquela ocasio em
que estive a, cheguei a ter vontade de mandar tudo  merda e ir  embora
de uma vez. Pensei em te pedir algum conselho, mas  naquela  poca  tudo
ainda estava acontecendo, as intrigas ainda estavam sendo feitas, eu sem
saber direito o que se passava.
        Graas a Deus estamos eu e ela conseguindo atravessar isso  tudo
com dignidade, embora a guerra seja dura. Eu me recolho, fico quieto  no
meu canto, mas tambm no posso chegar ao cmulo de elogiar  aquilo  que
acho errado, como o caso da Folha de Minas, que o  Hlio  disse  que  te
contou.  Minha  posio  de  futuro  genro  do  Governador    a    mais
insustentvel possvel - nada de pessoal, mas que ele no me veja nunca:
eu entro, ele sai, ele vai, eu no vou. Qualquer hora o tempo fecha e eu
arrumo as malas. Ou ento tudo se resolve bem,  ns  nos  entendendo,  
lgico, o que seria melhor.

118 119




        Mas, por que estou dizendo tudo isso a voc? Para  aumentar  sua
dor de cabea? Talvez apenas para satisfazer esse desejo  de  te  contar
tudo o que se passa comigo, que tanto me alivia, e que nos aproxima como
amigos. Parei um pouco, li o que escrevi,  e  fiquei  com  uma  vergonha
imensa  de  estar  te  contando,  fazendo  suas,  preocupaes    afinal
passageiras, sem nenhuma importncia, que  atribulam  a  vida  da  gente
quando essa vida  mesquinha, e que positivamente no  interessam.  Voc
achar que a soluo para tudo isso  casar, e tem razo. Mas a  verdade
 que tenho 18 anos e um medo desgraado de casar (aqui  entre  ns).  O
Hlio queria ficar noivo, eu falei: fica, para voce ver...
        Bom, Mrio, s mesmo um sujeito como  eu,  que  no  tem  o  que
fazer. Esta carta era exclusivamente para responder a sua, e voc a tome
como tal, unicamente. No leve ela a srio. Gostei  muito  da  idia  do
livro sobre sua posio esttica. Engraado    que  de  certo  modo  j
esperava  uma  coisa  assim...  Mas  no  precisa  xingar,  no    estou
perguntando como vai o Vademecum no, viu?
        Estou  muito  chateado,  pois  fiquei  sabendo  que  em  outubro
possivelmente estarei no  estgio  do  Exrcito,  com  certeza  em  Trs
Coraes ou Juiz de Fora. Gostaria de passar o nosso aniversrio  junto,
o meu e o seu. No sei se  voc  concorda  com  isso,  mas  no  caso  de
concordar, eu dou um jeito de arranjar uma licena L.  Enfim,  vou  nem
que seja fugido.
        Mas uma vez te peo que no Leve minhas  complicaes  a  srio.
Vou ver se mando a novela e os contos, naquela condio (s  ler  quando
puder, no se chatear). No recebi o Clima  no,  teria  se  extraviado?
Escrevi para a Gilda, ela no recebeu. Vou escrever de novo.  D-lhe  um
abrao e lembranas minhas. Helena tambm  te  manda  um  abrao,  ficou
muito contente de eu ter conversado com voc e de  voc  ter  perguntado
por ela. Mande dizer como voc vai passando, e quando  que fica folgado
de novo este ano, pois tenho muita vontade de ir a te dar um abrao.
        Por enquanto me contento em mand-lo por escrito, com todo o meu
reconhecimento e amizade. Seu amigo de sempre

Fernando

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        Belo Horizonte, 16 de Agosto de 1943

        Querido Mrio,
        Fiquei contente por  ter  conversado  com  voc  pelo  telefone.
Ultimamente andava sem notcias suas, salvo as que recebi por intermdio
do Oscar Mendes, muito vagas. Como ento as doenas  desapareceram  pelo
menos por enquanto? Ainda bem. Hoje, ao  chegar  em  casa,  encontrei  o
livro que voc me mandou, tive grande alegria.*  Ficou  realmente  muito
bonito e estou gostando at onde j li  (metade  mais  ou  menos).  Voc
pensa que um livro assim  no  vale  nada,  mas  vale  sim,  tem  grande
significao, a gente pode acompanhar muita coisa de sua vida  literria
justamente pela despretensO das crnicas, o gnero ajuda. Pode-se ficar
sabendo o que voce pensa de certas coisas  que  pelos  outros  livros  a
gente no sabia.
        Gostei de saber que a Gilda ficou noiva,  noivado    uma  coisa
muito engraada e divertida, eu que o diga. Conte a ela a minha  alegria
e pea que me mande notcias. Tenho grande estima por ela.
        Estou fazendo uma bruta fora para passar uns dias a  antes  do
estgio. O estgio  no princpio de setembro,  por  trs  meses.  Estou
arranjando para ser em Juiz de Fora em vez de Trs CoraeS. J. de  Fora
 melhor, mais perto daqui e do Rio, mais alegre, vida melhor, se   que
pode haver vida melhor num quartel de  cavalaria.    difcil  conseguir
essa troca, mas acho que consegui, se Deus quiser,

---

* "FiLhos da Candinha", Livraria Martins Editora. depois  de  ter  feito
clculos enormes de quanto tempo a gente levava de Trs Coraes at So
Paulo... Vi que no era vantagem, Juiz de Fora  s um pouco mais longe,
e se for possvel uma ligaozinha com o comandante, poderei  ir  a  em
outubro como tanto desejava, para passarmos  nosso  aniversrio  juntos,
caso voc no tenha outros planos.
        Vou te mandar minha  novela,  depois  de  muito  pensar.  Acabou
vencendo a imensa vontade que tenho de  saber  sua  opinio,  e  de  sua
ajuda. Estava com medo de complicar mais ainda a sua vida, to cheia  de
coisas. Mas vai assim mesmo. Quanto ao negcio do Martins,  o  seguinte
que eu queria te dizer: o Anbal Machado prometeu entregar a  novela  ao
Jos Olympio, e no h dvida que ele  um bom padrinho para  isso,  tem
cartaz com aquela editora. Mas eu no quero pensar em publicar sem saber
se voc acha que devo. Sei, isso sim, que no  devo  passar  desse  ano,
caso publique, pois perco oportunidade, me atrasa, me prende.  Por  isso
mando a voc e se voc achar que devo publicar, v para mim se o Martins
publica este ano. Caso ele no queira ou ento no  possa  editar  ainda
este ano, a gente faz um oramento na Grfica dos  Tribunais  e  arranja
para ele lanar. E chega de falar nisso que no estou escrevendo para te
chatear.
        Segue junto o artigo do  Roger  Bastide  que  eu  devia  ter  te
mandado h mais tempo e  no  mandei  porque  queria  escrever  a  voc.
Conversei muito com Henriqueta Lisboa outro dia sobre voc,  concordamos
que ningum compreende ainda a sua poesia como merece, que  exige  muito
corao, mas agora sinto, no sei por qu, que j comea

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a ser compreendida. Talvez foi esse artigo do R. Bastide, de  que  muito
gostei, mas acho ainda um pouco dialtico, talvez, meio frio,  no  sei.
Era preciso penetrar mais ainda na poesia do que  ele  penetrou.  Sentir
mais, se encharcar mais, no olhar meio de fora no. Sua poesia estudada
assim de plano traado, orientado, no vai. Foi o que o lvaro Lins fez,
sem a menor simpatia humana, e o que  o  Roger  Bastide  fez  tambm  um
pouquinho. Pois acho que era preciso deixar  de  muita  teoria  e  muita
anlise, mergulhar nos poemas, deixar-se penetrar por eles,  esmagar  os
versos nas mos e sentir o seu cheiro como a um torro de terra, isso  
que era preciso. Por isso digo que ainda no compreenderam at agora sua
poesia, quando pretendiam fich-la, pregar um  rtulo  nela.  Mas  nesse
artigo do Roger Bastide j se sente qualquer coisa mais, por causa disso
gostei. Tambm pode ser que eu esteja errado,  no  sei.  Mas  acho  que
ainda est para surgir quem descrever aquilo que sua poesia faz sentir.
        Voc ento gostou de meu conto? Estou muito ansioso  para  saber
detalhes. Mando hoje outro, e por esses dias o terceiro, que  no  tenho
agora  mo. Me interessa muito porque so contos, e  depois  da  novela
comecei a escrev-los no sei por qu. Por isso quero saber sua opinio.
E o do Murilo,"Eunice e as Flores  Amarelas"?  Eu  gosto  daquilo,  acho
bonito.
        O Hlio anda por aqui,  naquele  seu  jeito  de  sempre.  Muito
agitado como de hbito, vida ali  mato. No tem escrito  muito  no,  e
todo dia pergunta: Fernando, voc acha que devo mandar  meus  poemas  ao
Mrio? Depois ficamos pensando em voc, sacudimos a  cabea  e  falamos:
Mas que sujeito bom, o Mrio! s vezes, quando vamos a  algum  lugar,  e
isso sempre, pensamos assim: Hlio, imagine se o  Mrio  estivesse  aqui
agora. E ns ficamos sorrindo como dois bobos, no meio da rua,  pensando
em voc, o Hlio arremedando seu jeito de falar  doce  e  ns  sentimos
saudades. Outro dia, pensamos em te levar na Pampulha,  (Hlio  tem  uma
casa l), voc ficou morando na casa  do  Hlio,  sem  ningum  para  te
chatear, sozinho, como voc pretende quando vier aqui. De vez em  quando
ns amos te procurar, saamos, dvamos uma volta de barco  na  represa,
sem falar, olhando aquilo tudo, que  bonito, sentindo uma alegria muito
grande de viver. O diabo era o transporte, que a casa do  Hlio    meio
longe do ponto de nibus. Mas resolvemos o problema te levando na garupa
da motocicleta do irmo dele, e l ia voc com suas pernas  enormes,  na
garupa, o Hlio dirigindo, e eu morrendo de rir, que  voc  dois  iam  
levar o diabo na primeira curva... Te  deixvamos  em  casa,  voltvamos
para a cidade e amos fazer inveja no Etienne... Toda tarde  voc  vinha
para a cidade tomar um chope com a gente no Trianon. Depois saamos pela
noite, lricos e melanclicos, e voc ia embora. Voc nem queira saber a
vida  sossegada  que  ns  trs  temos  levado  na  casa  do  Hlio,  na
Pampulha."Imagine se o  Mrio  estivesse  aqui.  Imagine  isso.  Imagine
aquilo".  todo dia, para variar.
        Bom, Mrio, sabe o que eu vou  fazer  agora?  Senti  vontade  de
procurar o Hlio. So onze  horas,  ele  deve  estar  rondando  por  a.
Entrego o seu livro a ele, hoje ele no dorme. Na  Praa  tem  um  banco
perto do lago,  a  gente  fica  l  conversando  a  noite  toda.  Quando
resolvemos ir embora, um bate na perna do outro:"Mas  um bom sujeito, o
Mrio!"

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        O Hlio acha graa, diz que eu escrevo para voc todo dia. Mas 
mentira. Boa noite, Mrio, felicidades a nesse So Paulo frio, onde, se
Deus quiser, ainda irei este ms. Se puder, escreva.  Um  grande  abrao
para                                                               voce.
 Fernando
 B.H. 13-8-43

Querido Mrio,
        A vai  "A  Marca",  coitadinha...  H  ainda  umas  coisas  que
consertarei mais tarde. Quando voc ler, marca  (sem  trocadilho)  tudo,
tudo, coisas ruins, bestas, etc. No  se  chateie  com  isso.  Quanto  
histria da Editora do Martins, s se for sem nenhum constrangimento  de
sua parte.
        Acho que vou  mesmo  a  no  fim  do  ms.  Escreva  dizendo  se
concorda. Telegrafarei ou telefonarei avisando. Ando com saudades  suas.
Mas estou esquecendo que escrito a mo sou ilegvel. Um  saudoso  abrao
do Fernando

Mais umas pginas e termino"Filhos da Candinha". Delicioso  e  bem  mais
importante do que eu esperava. Deixa a gente leve, feliz.

F.





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 S.                     Paulo,                                24-VIII-43
 S. Paulo, 21-VIII-43
        Querido Fernando
        Estou em aula! mas dei uma tarefinha aos alunos s pra poder lhe
escrever. Mas  pouco. E s pra acusar o recebi mento, ontem, da novela,
do conto e da carta. Assim pode ficar sossegado, o correio foi fiel. No
demoro muito nao, pra ler. Mas me d uns 15 dias, serve?
        Fiquei muito assanhado com a possibilidade de voc vir  agora  a
So Paulo, antes do seu estgio militar. Tambm por isso lhe escrevo. Si
puder vir venha logo, pois dia 4 de setembro vou ao Rio. Mas no tinha o
menor gosto de encontrar voc la, porque as disperses so tantas, tenho
tanta gente pra ver e negcio a tratar, que no sobrar nenhuma hora bem
nossa.
        Quanto a outubro, desista do "nosso"  aniversrio.  Resolvi  que
ele no vai existir. Tambm por questo de gente muita.  E  o  resultado
sempre insatisfatrio da festinha, muito riso e pouco siso, e a gente s
no se , como no  de ningum. Passo. Pretendo sair de S. Paulo  e  ir
engulir a gota que no sei que gosto tem, entre-s com as visagens.
        Sua carta estava uma delcia.  Me  diverti  muito  com  a  minha
viagem de motocicleta.  Bem,  mas  as  vontades  de  ir  a  Minas  esto
amargando demais e creio que no vou esperar  a  prxima  Semana  Santa.
Irei nas frias si Deus quiser. Voc j estar la, findo  o  estgio.  E
nada de conferncia nem entrevista em cima do jornal.
        A vida entre amigos s.
        Te    vos    abrao,    Helena,       Hlio        e        voc
 Mrio
        Querido Fernando
        Acabo de ler duma assentada o conto de  Astolfo  Malaquias  e  a
novela. Desta eu sa completamente estupefato e desnortiado. A  sensao
que eu tenho, atravessada de sustos, de medos e at de tristezas,   que
voc acaba de escrever uma coisa muito grande,  uma  coisa  de  primeira
ordem.
        Olha, Fernando, eu preciso reler isso  pra  megarantirmais  numa
opinio  assentada.  Opinio,  alis,  que  por  mais  assentada,    no
modificar muito o sentimento de agora. Alm  disso,  eu  j  falhei  as
aulas da manh de hoje pra poder ler o seu livro e  estou  por  aqui  de
trabalho, um milho de coisinhas pra fazer. Por isso hoje s  quero  lhe
falar sinttico. S porque preciso mesmo lhefalar. Neste momento sim,  
o tipo do momento  do  "no  analisa  no":  como  eu  queria  que  voc
estivesse aqui comigo, leramos juntos a novela, abandonando a  vida,  e
comentando e conversando. Mas vamos falar:
        I- Contos."O  galo"  no  tenho  tempo  pra  comentar.  Mas  no
publique j, antes de eu lhe escrever. Creio que d coisa de 1a ordem  e
quero comentar antes, o que acho de hesitante nele. O Malaquias no  tem
dvida. Talvez psicologicamente um  pouco  exagerado,  no  consegui  me
interessar muito. Mas no prejudica ningum. Desses  contos  que  servem
galhardamente pra que o livro tenha 290 pginas e a revista se varie nos
assuntos.
        II-A Novela: A novela,  assombroso como  voc  est  escrevendo
bem a prosa de fico.  uma coisa admirvel a sua  linguagem  e  o  seu
estilo. Voc est escrevendo to bem como Machado de Assis!

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        No estou exagerando o meu sentimento, nem sei  bem,  no  estado
atnito em que estou, si falar isso  um elogio, Fernando. Porque o fato
grave  que voc est, com todas as suas liberdades, com todos  os  seus
brasileirismos, voc est  escrevendo  "clssico"!  voc  est  "tico".
Confesso que isso  assustador.  Depois  de  Machado  de  Assis,  j  se
escreveu adiante de Machado de Assis. Mal mas adiante, principalmente  o
Nordeste e o Rio. Voc volta, mas  certo que no senti nenhum rano  de
academismo, desta vez.
        De  vez  em  quando  voc  tem  descadas  pueris  de  expresso
lingstica, embates desagradveis de slabas, cacfatos,  essa  coisada
toda que os modernos afetam desprezar, mas  por ignorncia. O  bemfalar
existe, e tanto mais um estilo de tamanha pureza e simplicidade  como  o
que voc conseguiu. Na releitura, l pela semana que vem,  corrigirei  o
que imagino, pra lhe mandar.
        Quanto ao assunto: mesmo caso da linguagem. Uma coisa que no  
novidade (inexplicvel, dissolvendo uma famlia, no   a  primeira  vez
que  tratado. J li isso. Mas no tem a menor espcie de importncia. O
seu entrecho  novo (e isto  que importa), no   novidade  como  base,
mas que voc trata com verdadeira maestria de  discreo,  de  fora  de
verdade, de tristeza impregnan te, de  mistrio  realista  (um  mistrio
legtimo, vital, e no o mistrio pelo mistrio) e de malestar.
        Forma e fundo formam um conjunto harmoniosssimO,  e  se  tem  a
sensao de que tal fundo s vazado  em  tal  forma.  Na  realidade  uma
obra-de-arte muito perfeita, magistral! Anlise  psicolgica  muito  bem
feita  e  intensa.  S  uma  descada  besta  que  voc  vai   modificar
imediatamente pra no rompermos relaes: a piada do moto-contnuo. Isso
 tolice da grossa. A psicologia  de  quem  est  contando  a  novela  
bastante abatida, bastante amarga pra impedir essa  piada.  O  lugar  ,
de-fato, estupendo pra um estouro do heri, e o estouro existe, ns logo
percebemos. Porm a frase que ele vai dizer ao farmacutico jamais  ser
uma piada"erudita", nem com "sense of humour". Isto, veja bem, at  pode
ter sucedido mesmo, na vida da  vida,  mas  na  vida  da  arte  no  tem
realidade nenhuma. Substitua a frase do estouro por outra  menos  piada,
mais bem escolhida e bem amarga."Seu Fulano, o senhor pode me informar a
que horas de que dia de que semana! de que ano! o senhor acaba de  matar
vov!", coisa assim, estrompante, infinitamente  pobre  de  esprito  no
infinitamente rico sofrimento.
        E publique j. S tem um jeito: publicar imediatamente  j,  pra
voc se libertar desse livro. E nunca mais  no  fazer  outro  do  mesmo
gnero, meu irmozinho. Olha, Fernando, eu no  posso  desenvolver  este
assunto nesta carta, no tenho mais tempo, ela j ultrapassou o  tamanho
que  imaginava  lhe  dar  E  preciso  pensar  mais  no  assunto,  que  
gravssimo. E no sei si tenho razo. Mas eu sinto que h qualquer coisa
de dissolvente, de intil, intil no posso dizer, mas  de  hedonstico,
de arte pela arte na sua novela, que no me entristece, mas me preocupa.
Afinal das  contas  voc  tem  20  anos,  voc  est  adquirindo  o  seu
instrumento de trabalho, voc tambm vem  "marcado"  pelas  leituras,  e
muito principalmente por tradio,famla, situao. Mas como   difcil
desenvolver este assunto! No pense, por  favor,  que  quero  literatura
"social",  no  sentido  em  queafazempora.  Mas  si  lhe  vier   alguma
inspirao de novo tema de romance, analise ele

130 131

mais pra ver si vale a pena desenvolver. "A Marca" precisa ser publicada
j, pra voc se livrar duma  talvez  obra-prima  que  est  escravizando
voc. Vou falar com o Martins.
        O abrao irmo do

Mrio

No reli,fiquei com preguia. Mas repare bem: o que lhe digo aqui no  
opinio fixa, pode variar, no  como  julgamento  de  valor  que  apenas
poder aumentar ou diminuir de intensidade, mas ser sempre o  mesmo.  A
argumenta ao pro ou contra  que de pr pode virar contra, e de contra,
pr: careo pensar mais. Mas que voc  fez  obra  de  beleza  no  tenho
dvida nenhuma. Ciao.

Mrio





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B. H. 16 de Setembro de 1943

        Querido Mrio,
        Estava aqui na Secretaria quando me deu uma vontade de conversar
com voc. Tenho recordado com muita saudade os dias felizes passados a.
E como foi pau aquela nossa despedida na estao! Fui ter a  conscincia
de que estava indo embora depois do trem j ter sado, senti vontade  de
descer e voltar. Foi tudo muito rpido, assim meio no ar.
        Ando abafado porque minha convocao para o estgio at hoje no
saiu e temo que eu ainda esteja l quando voc vier aqui. So trs meses
no duro, e quanto mais demorar, pior.
        Tive notcias de voc no Rio. O que  que voc fez  de  bom  por
l? Logo que puder escrever me conte. J  acabou  a  reviso  do  "Amar,
Verbo Intransitivo"? De minha parte ando quebrando a  cabea  num  conto
aqui, seguindo seu sistema, j fiz ele uma poro de vezes.  Depois  vou
te mandar para saber o que voc  acha.  Tentei  refazer  o  captulo  da
novela, est difcil como o diabo. Ando muito afastado dela,  no  estou
conseguindo penetrar de novo naquilo, sentir outra vez.  Tenho  medo  de
sair artificial. Em todo caso vou esperando, que no fim  d  certo.  Que
notcias voc tem da publicao  na  Martins?  Ele  j  resolveu  alguma
coisa? Era bom que resolvesse logo, para  que  sasse  o  mais  depressa
possvel. Vou aguardar notcias suas nesse sentido.

133




        Voc nem acredita, Mrio, tentei recordar como  a  tal  cadeira
em X que voc tem a,  para  mandar  fazer  uma  igual,  mas  que  coisa
desgraada de complicada! Uma perna pra dentro, outra  pra  fora,  qual,
no d certo no. O carpinteiro fica doido, eu mais ainda e - quer saber
de uma coisa? Tenho mais o que  fazer,  sabe?...  S  mesmo  voce  podia
inventar uma coisa complicada daquelas.  Hoje  vou  passar  o  poema  do
Carlos para te mandar. No me esqueci das outras coisas, as  broinhas  e
odicionarinho. Agenta firme que acaba indo tudo.
        Me fale sobre sua vinda aqui, que est me preocupando  muito  um
possvel desencontro.
        Ontem de noite eu estava muito abafado longe da noiva  que  est
no Rio e eu aqui sozinho sem ningum, fui ficando pior, te  escrevi  uma
longa carta que felizmente rasguei e joguei fora.  Nada  de  literatura.
Alis, eu sou um sujeito engraado: comecei esta carta pensando  em  no
te falar nisso, e estou falando. Voc a na sua mesa atulhada de  papis
e cartas por responder, de  pijama,  chinelos  e  aquela  peruca  de  l
(indispensvel, a peruca) ha  de  se  inclinar  para  trs  lendo  isso,
sacudir a cabea falando: esses  meninos...  Engraado,  estou  pensando
agora que voc deve ter uma ternura bem grande pelos nossos draminhas.
        Por falar em draminhas, andei pensando  e  conversando  muito  a
respeito daquela tendncia que voc descobre em ns de  noparticipaO,
de um hedonismo esttico, enfim, de  qualquer  coisa  semelhante  a  uma
exclusiva  preocupao  artstica  que  nos  torna   aparentemente    a-
polticos. Sabe o que conclu? Que qualquer coisa existe  sim,  e  muito
mais grave do que eu estava pensando. Quando eu  vou  a,  Mrio,  volto
inteiramente desorientado, inflamado de pensamentos  que  conheo,  sim,
mas que no me so cotidianos, no permaneo neles  o  dia  todo.  Volto
cheio de entusiasmo, querendo agir, me sentindo torcido no meu elemento,
achando que a arte no conduz a nada, e vai por a afora. Chegando aqui,
comeo a pensar  que  o  que  no  conduz  a  nada    a  agitao  e  o
bracejamento do pessoal a, muito falatrio, muita  conversa,  que  quem
est participando somos ns, calados, no nosso elemento, com  as  nossas
foras, que h algo de muito mais importante fermentando por baixo desse
nosso alheamento todo, e que no pode ser muito  pavoneado  no  meio  da
rua. Achamos que de nada vale ser artista de arte pura, mas no  achamos
graa em sermos apenas conscientemente bestas. No h  dvida  que  voc
apanhou bem uma face do nosso problema, quando sentiu, meu  Deus  e  com
que  penetrao,  com  que  agudeza!  que  a  mocidade  est  engasgada,
engasgaram a mocidade. Alis, isso foi recebido com entusiasmo aqui.  No
discurso apresentando Afonso Arinos (que fez uma conferncia  na  Escola
de Direito) um aluno transcreveu grande trecho de seu prefcio ao  livro
do Otvio Freitas Jnior, e a coisa inflamou o auditrio.
        Bom, a agitao aqui est desgraada, no posso pensar com calma
para escrever a voc, vou batendo a mquina sem saber o que  ficou  para
trs, se j disse o que queria dizer. Provavelmente j  disse,  no  vou
reler. Escrevi apenas para matar as saudades, como sempre. E tambm para
pedir notcias do Martins quanto  minha novela. Se  voc  me  escrever,
conte bastantes coisas suas, viu? E um abrao amigo do

Fernando

134 135




        No me esqueci dos retratos no. Inclusive o que tiramos na  Av.
So Joo (e os outros tambm). Continuo  esperando.  Ontem  no  telefone
Helena perguntou por voc, se tenho recebido notcias suas. O  Hlio  do
mesmo jeito de sempre, fez hoje  um  timo  poema.  No  mais  tudo  bem.
GuilherminO j foi embora. Voc esteve com o Carlos Drummond no Rio? No
tenho tido notcias dele. D um abrao no Antonio Candido  e  na  Gilda;
gostei muito dele,  muito camarada. Bem,  deixa  eu  trabalhar,  Mrio.
Mais um abrao. (Voc j reparou como sou bom datilgrafo?)



        Belo Horizonte, 23 de Setembro de 1943

        Querido Mrio,
        Uma das coisas que mais me encheu de alegria  ao  conversar  com
voc ontem foi voc ter afirmado que s viria aqui  quando  eu  aqui  me
achasse de volta do estgio. Desliguei o telefone, fiquei  pensando  com
ternura em voc. Quando chegou exatamente a meia-noite e quinze,  eu  j
estando na cama e quase a apagar a luz, o Hlio me  assobia  do  porto.
Grito para ele entrar, ele falou que estava  voltando  da  casa  de  uma
colega onde fora para... estudar.  Ento  eu  contei  a  ele  que  tinha
conversado com voc, e lhe disse: - Hlio, voc j reparou como o  Mrio
 bom? Mas que bom sujeito, meu Deus do cu. A gente fala que  est  com
medo de ficar doente, o coitado fica des orientado, com  mais  medo  que
voc; eu escrevo para ele dizendo que briguei com a  noiva,  ele  tambm
sofre comigo como se tivesse brigado tambm, me escreve dizendo que tudo
h de se arranjar. A gente fica doente, chega para ele e diz: olha aqui,
Mrio, o que que eu fui arrumar. Ele trata da gente, d remdio, bota  a
gente na cama. E no prega olho a noite toda. O que ns somos, Hlio,  
filhos do Mrio - essa cambada desgraada de grande, sem juzo, moleque,
travessa, e ele cuidando da gente, sofrendo pela gente, ensinando o  que
sabe para a gente no se estrepar, gastando tudo que tem de  bom  com  a
meninada. Voc j viu coisa igual? E no  de hoje,  Hlio,  que  ele  
assim. Com todo mundo que precisa dele, e que ganha  pitos  dele  quando
no faz as coisas direito,  tudo filho dele espalhado


        136 137




por a. Ele escreve para a gente, ajuda, orienta, diz que minha novela 
isso e mais aquilo, l vou eu para So Paulo, o coitado passa dois  dias
lendo a novela comigo, e perde tempo, e sai com a  gente.  Nunca  pensei
que pudesse existir um sujeito assim. E muito mais coisas que  falei,  o
Hlio ouvindo tudo, concordando com tudo. Antes de uma  hora  conclumos
solenemente que voc  a melhor pessoa do mundo, e o Hlio foi embora.
        (Agora, sem nenhuma solenidade: eu acho que  mesmo, Mrio.)
        Passei hoje o dia todo mexendo  com  o  Exrcito,  apresentao,
etc. Hoje recebi uma carta do Carlos muito boa,  e  que  diz  assim:  "o
nosso professor continua sublime. Escreveu um prefcio para o  livro  de
Otvio Freitas Jnior que  uma beleza e de uma brutalidade de achatar."
        Quanto  minha novela,  voc  no  d  importncia  ao  fato  do
Martins no querer lan-la sozinha. A histria dos contos positivamente
no me interessa. E oramento,  no  sei  se  poderei  pagar.  Agora,  a
respeito do Jos Olmpio, acho que voc no entendeu bem. O que h    o
seguinte: o Anbal Machado pediu (quer dizer, eu  que pedi a  ele  para
ler...) para ler a novela; falei com ele que se arranjasse para publicar
no Jos Olmpio seria bom. Isso antes de conversar com voc. Quando,  de
acordo com voc, eu estava pensando em public-la no Martins, escrevi ao
meu irmo que se encontra presentemente no Rio,  pedindo  que  apanhasse
ela com o Anbal. Meu irmo vai me escreve que este j  a  entregara  ao
editor conforme eu pedira, e que havia conseguido a custo a devoluo da
novela pois o Z Olmpio se interessava em public-la. Como eu no havia
tomado conhecimento desse interesse, e como o Z Olmpio  pediu  ao  meu
irmo que conseguisse para ele a minha preferncia,  creio  que  no  h
inconveniente em atend-lo, no  assim? Como voc v, no fica mal  ela
voltar para l, pois eu nem tomara conhecimento de que ela l  estava  e
que o Z Olmpio queria public-la. Bem, mandei meu irmo se entender l
com ele. Vamos ver em que  que d isso. O Z Olmpio falou com  o  mano
que caso eu quisesse, ele  se  comprometia  em  public-la  no  primeiro
trimestre de 44, e que insistisse comigo. Que  que voc  acha  de  tudo
isso? Creio que voc pode pedir ao Martins para me mandar a  novela.  E,
papagaio, como estou te dando chateao!
        Como te disse vou para o estgio dia 4. Logo que  chegar  l  em
Juiz de Fora te escrevo, mandando meu endereo.
        Tomei as providncias  para  que  voc  receba  a  Mensagem  que
deseja. Sempre s suas ordens, doutor.
        Te mando hoje um conto meu. Quando tiver tempo diga o que  pensa
dele, que me interessa muito saber.
        No se preocupe com a sade do  Hlio.  Apenas  esgotamento,  um
pouco de literatura. Mas agora est nos eixos, caseiro,  estudando.  Ns
temos andado recolhidos cada um para o seu canto, isso  bom de  vez  em
quando. E saudade da Helena aqui, meu Deus, para que    que  fui  falar
nisso! Se Deus quiser ela chegar amanh, e j no era sem tempo.  Mande
notcias do Antonio Candido, da  Gilda,  do  pessoal  a.  Clima  morreu
mesmo?
        Bem, Mrio, j desconfiei que eu fico  inventando assunto  para
no interromper a conversa com voc. Vai l um abrao. Estou aflito para
receber sua carta, ver se ela no diminuiu  por  causa  do  telefone.  E
quanto aos retratos, mande logo que puder. Vai aqui um meu para que voc


        138 139




veja como minha cara ficou  ao  saber  que  eu  ia  para  Caravelas,  na
Bahia... O Hlio disse que  pena ter sido engano, que seria  muito  bom
para mim, cidade praieira, belas baianas, pescadores o  mar...  Veja  s
que literatura."Voc deve ir para Caravelas, Fernando"."E voc  deve  ir
para...". Bom, velho Mrio, mais um abrao cheio de amizade do

Fernando

Murilo resolveu ir para o Rio. Mais um mineiro livre... Vai trabalhar em
Sombra, uma revista l, e morar com o Marques Rebelo. Acho que  ele  faz
bem.  dar o fora enquanto pode. Ele est animado e ns muito tristes.


S. Paulo, 28-IX-43

Fernando
        S hoje vai a  carta  que  lhe  escrevi  naquela  noite  do  seu
telefonema. Mas no dia seguinte no tive fora pra levantar  da  cama  e
nela estive at ontem. Est o diabo esta histria,  no  sei  onde  irei
parar. Hoje vou mandar buscar "A Marca" no Martins. Ir por estes dias.
        Ciao com abrao

Mrio


So Paulo, 22-IX-43

        Fernando,
        Enfim o Martins decidiu alguma coisa de  positivo  sobre  o  seu
livro. Edita sim, mas quer
        (Foi aqui que o seu telefonema interrompeu a carta. Bem, o  caso
editorial est resolvido e tambm no se afobe com a minha ida  a,  nem
espalhe muito. S irei com voc em Belo Horizonte, est claro, nem posso
imaginar Belo Horizonte sem voc com Hlio. E Helena  helenssima.  Bem,
principiemos outra carta)
        Voc me diz que est sentindo dficuldades em refazer o  captulo
da novela, e eu  compreendo  isso.  Realmente  quando  a  gente  sai  do
esprito dum livro,    muito  difcil,  sindo  impossvel  a  gente  se
reconduzir a esse esprito. Tenho um caso quase dramtico na minha  vida
que so dois assuntos de contos concebidos por Belazarte  que,  o  tempo
foipassando,

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o esprito de Belazarte se acabou em mim e os contos ficaram  por  fazer
Pois V sabe uma coisa estranha? Est claro que me seria impossvel  hoje
escrever como Belazarte em 1923 a 26,  mas  os  assuntos  existem,  so,
imagino, excelentes. Mas me  impossvel os apresentar no  meu  esprito
atual. So  contos,  so  assuntos  que  s  a  Belazarte  era  possvel
aproveitar! Da mesma forma com que acho ama obra-prima  o  "Sardanapalo"
do  Joo   Alphonsus,    mas    si    eu    possusse    esse    assunto
(quepertenCeaJooAlphonsuS  tanto  quanto  "Meu  Japons"  pertence    a
Belazarte) me seria impossvel escrever o conto!
        Em prosa no, mas em poesia tem coisas  ainda  curiosissimas:  
que s vezes fazendo uma poesia voc se percebe numa integridade que  j
foi sua ej lhe ditou poemas. E no entanto - -
        a poesia que voc est fazendo no momento e ate as  vezes  muito
diferente das que voc fez, como estilo e como assunto, no antigo estado
integral do ser que est se repetindo no momento.
        Essas coisas so bem curiosas. Eu creio que valer a  pena  voc
insistir um bocado, pegar um bom dia de vadiagem em Juiz de Fora, ler  a
novela de jacto e tentar milhorar, pelo menos  milhorar  esse  captulo.
Mas si no conseguir, no creio que o desastre seja  grave.  O  captulo
assim como est, se sustenta pra exigncia  normal  dos  bons,  imagino.
Talvez seja exigncia demasiada da nossa parte.
        Alis, tem mesmo esse perigo de no  repegar  mais  o  esprito.
Agora na remodelao do "Amar Verbo Intransitivo", cortei muita coisa  e
talvez pud esse cortar mais. Mas no tenho tempo pra refletir nem nimo.
Carecia reescrever a mquina todo o livro e no tenho coragem  pra.  Mas
alm dos cortes e modificaes itinerantes acrescentei  um  captulo.  A
Gilda achou completamente diferente como estilo. Eu noto certa diferena
est claro,  mas  no  tamanha  assim.  Imagino  que  h  um  bocado  de
superstio da parte dela, que isso de ir lendo um livro  de  fico  em
letra de forma e de repente  ter  de  ler  umas  pginas  datilografadas
anexas, tem de causar um certo desequilbrio. Estou meio desgostoso  com
o livro, mas  muito  desanimado  pra  reescrever  tudo  a  mquina.  Vou
passando bem mal, mermozinho.
        Estou bem cansado do dia parte do qual passei na cama e o  resto
chateado em aulas e ocupaes que no adiantam. No sei si  tenho  nimo
pra tratar do outro assunto da sua carta,  complexo  por  demais:  essa
histria departiczjaao ou no participa ao.
        Olha, Fernando,  eu  no  quero  influir  na  sua  vida  nem  na
orientao que voc possa tomar: isso  responsabilidade demais, Deus me
livre. A argumentao que voc me d  detestvel efraglima.  Veja  que
no fim, V chega a  um  argumento  de  natureza  meramente  saudosista  e
sentimental quando, reconhecendo que"de nada vale ser  artista  de  arte
pura, mas no achamos (vocs, a), graa em sermos apenas concientemente
bestas."
        Ora, eu grifei o vocs "mio acharem graa" mas  o  "apenas"  foi
voc quem grifou.
        Mas quem mandou ser apenas concientemente  besta!  Isso  de-fato
no tem graa nenhuma pro intelectual verdadeiro. De resto si na cronica
eu exagerei  at  a  "besta"  o  intelectual  que  busca  particzjar  do
amilhoramento poltico-social da  humanidade,  ainda  foi  por  um  caso
sentimental de saudosismo. Porque positivamente  no  se  trata  de  ser
besta, nem  besta um Carlos Drummond de Andrade  escrevendo  os  Poemas
que est fazendo agora, nem posso me qualificar de

142 143



besta nessa seriao de pginas sofridas que esto em "Cultura Musical",
na "Elegia de Abril",  no  "Movimento  Modernista",  na  "Atualidade  de
Chopin", nas crnicas musicais de agora e enfim no prefcio  do  Otvio.
No entanto a isso eu chamei e como imagem  ainda  posso  chamar  de  ser
"concientemente besta".
        No, Fernando, siga o caminho que quiser,  mas  no  procure  se
iludir em sua concincia com argumentos falsos que deslocam osproblemas.
A con cincia se ilude com enorme facilidade.
        S um problema existe pra um momento humano da  vida  como  este
que estamOS. quem no por mim,   contra  mim.  Nem  voc,  nem  nenhum
artista, poder nem que queira no participar. Existem duas foras  mais
uma vez empenhadas em luta de vida ou de morte, digamos  mais  ou  menos
eufemisticamente: a fora da coletividade e a fora da chefia.  Ou  voc
no conformistamente se inclui na coletividade  ou  conformistamente  se
vende  chefia. Deforma que si V escreve "A  Marca"  e  ainda  por  cima
arreia  a  sua  obra-de-arte  de  to  grandes  elementos  de  beleza  e
encantao, queira ou no queira, voc est  servindo  a  uma  das  duas
foras que lutam. Uma delas repudia o seu livro, a sua  criao,  a  sua
concepo, a odeia e si puder a destruir. Efaz bem. A  outra  aceita  a
sua obra-de-arte, a aplaude, a expe como modelo a  seguir  e  si  puder
obrigar a repetio dela por voc nos seus livros futuros e  por  todos
os outros artistas. E, meu Deus! far bem. Pra causa dela. Voc pode no
participar da vida, mas a sua obra,  si  no  for  um  elemento  do  seu
combate (o que  nobre), ser elemento pro combate dos outros. O  que  
pelo menos um aviltamento, uma avacalhao do seu  destino  de  artista.
Disto, meu Fernando, voc no poder fugir.
        No quero lhe repisar nesta carta aquelas  frases  bem  ntidas,
imagino, que lhe falei naquela nossa conversa  to  grave,  no  bar,  na
vspera da sua partida. Eu compreendo que para  os  vinte  anos  da  sua
mocidade, A Marca" era uma necessidade. Necessidade pessoal. Era mais um
exerccio que outra coisa e voc estava  adquirindo  um  instrumento  de
trabalho. Mas voc envelheceu prematuramente e de sopeto e de  surpresa
voc hoje tem duas realidades diante de  si:  um  timo  instrumento  de
trabalho e um timo livro. Que  funciona.  E  que  vai,  como  obra-de-a
rte,funcionar inteiramente independente de voc e lhe virando as costas.
Ora,  si  pra  minha  amizade  e  pra  condescendncia  de   alguns    e
provavelmente de certa crtica, o seu livro funcionar em relao a voc
e ser saudado, nada impede, nada jamais no  impedir  nunca  que  como
obra-de-arte o seu livro seja uma obra vendida aos interesses da chefia,
uma obra de funo odiosamente capitalista, escravocrata  e,  meu  Deus,
at nazista. Porque, no se esquea, si voc no quis ser nada  disso  e
se tudo isso lhe ser em concincia odioso, o seu livro    independente
de voc mesmo como sendo de voc. Porque o seu livro  mais, muito  mais
que  a  sua  concincia,  ele    voc  todinho.  E  isso  ele   reflete
deslumbrantemente. Porque o que voc conta e canta    o  homem  que  se
reconhece e aceita na sua incapacidade definitiva e definidora de  razo
e de luta. Mas ser que V no enxerga logo o que  isso,  meu  Fernando!
Esse  o princpio mesmo do nazismo, da sua mstica e da sua prtica. Um
passo a mais e o fracassado implora a descida dos cus  de  um  Fuehrer!
Porque o que h de mais pavoroso na fragilidade humana  que no tem  s
chefes escravocratas,  o  infamante    que  h  escravos  escravocratas
tambm. E o

144 145

heri do seu livro, no reconhecimento  estatelado  ("definidor"  bem  o
termo) da sua incapacidade, no passa de um escravo escravocrata.
        Por  isso    que  eu  chamei  a  sua  novela  de  "especie"  de
obra-prima. Infelizmente, meu Fernando, quem lida com palavras, que  so
elementos de con cincia, no pode fazer naturezas-mortas nem paisagens,
nem sambas e sinfonias mais fceis de  disfarar  (pros  outros)  o  seu
conformismo  no participaO. E si eu considero o seu livro  uma  obra
admirvel de beleza como  estilo  e  expressividade  humana,  ele  me  
profundamente desagradvel pelas foras deshumanas e desmoralizantes, de
que nenhuma beleza liberta nem libertar nada.  por isso, com voc,  eu
acho que V precisa  publicar  quanto  antes  o  livro.  No  publicar  
impossvel, tanto pra voc como pra mim.  impossvel. Mas voc  precisa
se libertar dessa experincia em que voc to prematuramente envelheceu.
Aos 30 anos eu ainda era um  menino  do  esprito  e  escrevia  bobagem
muita. Aos 20 voc escreve A Marca" e chegou aos 30 anos do esprito.  O
livro precisa sair quanto antes. Pra depois  voc  decidir  que  caminho
tomar, si o partido dos homens, si o partido dos chefes. E no se iluda:
num desses partidos voc h-de estar.
        Muito fraternalmente o

Mrio





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        Juiz de Fora, 15 de Outubro de 1943

        Querido Mrio,
        Recebi sua carta quando estava de partida para o estgio aqui em
Juiz de Fora. Trouxe ela comigo para responder logo, mas que  no  fosse
uma resposta impensada. Voc tem razo, principalmente a coisa  encarada
atravs de"A Marca". Se essa novela foi um acidente, por assim dizer, na
minha"carreira artstica", j ficou para trs, j me sinto perfeitamente
desligado dela. O personagem Vicente ,  como  voc  diz,  um  autntico
filho-da-me, mas eu no sou um Vicente. O que acontece e  exatamente  o
que conclumos naquela noite da conversa no bar a em So Paulo:  o  que
se deu comigo foi um desenvolvimento espiritual menor que o intelectual.
Mas acho que  coisa que no me compromete para o resto da vida,  no  
assim? Nada impede que eu agora, que  completei  anteontem  20  anos  de
idade provecta, comece a pensar e sentir, muito depois de ter comeado a
escrever. Questo de tomar posio, como voc diz. Posio  de  sentido,
digo eu: fardado, perfilado e fazendo continncia.
        Bem, seu Mrio, so horas.  Uma  hora  da  madrugada,  tenho  de
dormir, que vou amanhecer a cavalo,  e  a  galope.  Voc  por  favor  d
notcias, caso possa escrever. Estou esperando...  Pode  mandar  para  o
Tenente Fernando Sabino, Palace Hotel, Juiz de Fora, que eu  recebo.  D
um abrao na Gilda, fala com ela para mandar notcias, aqui para  o  meu
desterro. E tambm o Antonio Candido,

147

diga-lhe que mando a ele  o"Pauvre  Lyre,"*  conforme  prometido.  E  os
poemas do Carlos para voc tambm iro,  s eu  ter  tempo  de  copiar.
Voc recebeu a Mensagem que lhe mandei, com seu artigo?  Por  acaso  leu
nela um conto meu chamado"Bernardo"? Tenho outro para te mandar, mas vou
esperar voc sarar.
        Um saudoso abrao, velho Mrio, do seu

Fernando





---

* Obra pstuma do poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens,  de  versos  em
francs.



S. Paulo, 27-X-43

        Querido Fernando
        No posso escrever,  estou  proibido  pelos  mdicos,  mas  hoje
rompendo a proibio. J estou milhor com  um  tratamento  brutal,  cada
injeo que parece pra cavalo. Fizeram conferncia, exigida pelo  mdico
novo que se assustou com meu estado geral. A  concluso    que  no  h
morte rondando nas vizinhanas, mas que estou totalmente depauperado e o
organismo no queria reagir mais. Agora parece que j est  principiando
a reagir Mas me obrigaram a largar de tudo.
        E voc? como vai reagindo na solido do exrcito?  Faa  sonetos
ou poemas em oitava rima e dez contos  picos  hpicos  sobre  Caxias  e
Tiradentes.
        Fiqueifeliz com o seu telefonema embora  quase  no  pudesse  me
sustentar de-p.  Meus  olhos  j  estavam  se  turvando  e  eu  naquela
perspectiva pndega da vertigem. Imagine que  reaprendi  a  sensao  da
vertigem esquecida aos 16 anos  em  que  aos  14  a  eles  um  rojo  de
crescimento me botara na manguari de altura  que  ainda  tenho.  Era  um
palito, tinha vertigens  por  qualquer  sustinho.  Pois  agora,  no  dia
seguinte dos meus anos, uns amigos violaram minha imobilidade forada  e
medicinal, estiveram aqui parolando umas trs horas. Quando  saram,  s
esperei eles sarem, plorm! e tive uma vertigem, coisa besta.
        No quero pensar, mas porqu voc no tira uns dez exemplares de
"A Marca" em papel milhor, numerados,fora de  mercado?  No  deve  ficar
muito caro.
        Te abrao emprestando a fora do Hlio.


Mrio

        148 149

S. Paulo, 1-XII-43

        Fernando
        Amanheci me sentindo to bem  hoje...  Tambm,  foi  a  primeira
noite em que consegui dormir umas  quatro  horas  seguidas,  depois  que
reentrei nesta cama odiosa, semana e meia faz. Entrei alis com  coragem
e sem nenhum esprito de tragdia. Mandei fazer uma  mesa  pra  cima  de
cama que  um labirinto, toma todas as posies, serve pra  tudo  e  que
como sucede sempre com a teoria da comodidade, nem sempre corresponde  
comodidade verdadeira. Em  todo  caso...  os  outros  acham  que    uma
maravilha e nela estou lhe escrevendo.
        Recebi sua carta mas  hoje  no  vou  lhe  responder  ainda  aos
problemas que  ela  contm.  Precisamos  esclarecer  bem  certos  pontos
complicados em que estamos nos metendo a respeito do destino do artista.
Mas no estou em condies de me meter em tais assuntos, voc  bem  pode
imaginar O caso, meu Fernando,  que esses mdicos  como  no  conseguem
mesmo descobrir o que  que me d dor de cabea e menos ainda o jeito de
me livrar dela,freudianamente "substituram". Agora o que eu tenho  uma
lcera  do  duodeno  (que  a  radiografia  provou,  no  tem  dvida)  e
resolveram me  divertir  com  um  ms  de  imobilidade  na  cama  e  uma
alimentao em que, basta dizer, a ja  semana  s  bebi  leite.  Dei  na
fraqueza, est claro e virei homem-da-natureza, com estes j  onze  dias
sem fazer a barba. Estou repugnante.
        Mas como eu andei inquieto por  causa  de  voc  a,  foi  muito
desagradvel. Os boatos (ou no) que circularam aqui  sobre  Minas  eram
dos mais negros e afinal chegou a notcia de que voc  esta  va  ferido.
Vivi em brasas. Queria escrever, mas temia de vrios temores, tanto mais
que as coisas aqui tambm no andavam nada  azuis.  Resolvi  esperar  na
minha ansiedade e enfim sua carta chegou esclarecendo o  seu  ferimento.
Cuide bem disso,  me  irmo.  Agora  vou  interromper  porque  esto  me
avisando que o banho est pronto.

Dia 3- A carta ficou suspensa, no ando passando muito bem no,  um tal
de desnimo geral mas no deve ser nada. E embora jurando  no  penetrar
nos assuntos mais graves  sobre  a  funcionalidade  humana  do  artista,
queria comentar um bocado o caso dos "Dias Perdidos" do  Lcio  Cardoso,
voce leu? Leia que vale a pena sob certos pontos-de-vista. Eu ainda  no
acabei, mas estou  na  parte  final.  No  quero,  apenas  por  desnimo
(queria, data espera desta carta, mas desisto) lhe dizer o que penso  do
livro. Me mande voc primeiro o seu juzo. Fico esperando.
        E me escreva logo,  Fernando,  por  favor.  Escrever,  no,  mas
receber carta  uma gostosura quando a gente est assim imobilizado numa
cama. Vale mais que as visitas  dos  amigos,  principalmente  porque  as
cartas no fumam e no empestam o quarto do enferminho.
        Belo Horizonte ficar pra quando pudermos estar juntos l  e  eu
sem muitas restries alimentares.
        Quando escrever ao Hlio, d lembranas  minhas  a  ele.  Aquele
injusto no h meios de mandar os versos.
        Um grande abrao pra voc

Mrio

150 151


        Juiz de Fora, 7-12-43

        Querido Mrio,
        Foi muito bom para mim receber  sua  carta,  pois  tinha  ficado
apreensivo com o fato de voc no  ter  podido  vir  ao  telefone.  Fico
contente por saber que voc, apesar de a contragosto, chateado da  vida,
est se submetendo a tratamento. S  espero  que  continue  dando  duro,
gentando a mo, para ficar bom de todo, que essa histria de lcera no
 brincadeira. Mas cura quando a gente quer: eu, por exemplo, tenho  uma
irm que ficou inteiramente boa de uma, s a custa de tratamento.  Leite
at que no  to ruim assim... embora eu  tenha  certeza  que  voc  j
havia esquecido que gosto tem.
        Pensei muito antes de te responder, a respeito da nossa conversa
sobre a participao do artista, funo social da  arte,  enfim,  aquela
histria toda. Tambm quero esclarecer  alguns  pontos,  e  o  principal
deles  este:  eu  absolutamente  no  tenho  opinio  formada  sobre  o
assunto. Ainda no tomei posio em face de certos problemas, que, posso
te garantir, s passaram a existir para mim depois que te conheci.
        Eu no sei nada, Mrio, mas quero ficar sabendo de  tudo.  Nesse
sentido, quero que voc tome sempre minhas palavras  como  perguntas.  E
suas respostas no me faro nenhum mal,  mas  antes  um  enorme  bem.  
preciso que eu saiba como voc acha que certas coisas devem ser  vistas.
Em resumo, tenho medo de voc estar pensando que neste assunto, j estou
vendo as coisas de uma certa maneira; e quero esclarecer que  at  agora
eu no vi nada de maneira nenhuma.

152

        Desde que te conheci, voc no pode calcular como me  tem  feito
bem, Mrio. H momentos em que a gente  se  v  de  repente  sozinho  no
quarto, as coisas pesando sobre a  nossa  cabea,  os  desencontros,  os
rudos, as paredes, as vozes humanas comprimindo o  corpo  de  todos  os
lados - eu penso ento que voc est a na Rua Lopes Chaves 546  em  So
Paulo, sozinho tambm, cercado de livros, sofrendo angstias  enormes  e
irremediveis complicaes estomacais  -  aumenta  ainda  mais  a  minha
estima por voc, Mrio. E vejo mais uma  vez  que,  de  sua  parte,  uma
carta, uma palavra sua resolve tantos problemas! As vezes  te  telefono,
ou te escrevo, acabo nada dizendo, nem voc, mas  tudo  se  resolve,  se
torna simples como era no princpio. Em todos os  sculos  dos  sculos,
amm.
        Ento est explicado, no?  Voc  com  certeza  pensar:  certas
coisas  preciso que ele no resolva como eu e sim como ele  prprio.  E
nisso voc tem razo; mas nada impede que eu  fique  sabendo  como  voc
resolveu. Quer saber de uma coisa, Mrio? Eu tenho necessidade de  saber
o que voc pensa de tudo, se meu ltimo conto deu certo, se  dois  maos
de cigarro por dia  muito para minha sade, como dever ser a  capa  do
meu livro, se devo casar em abril ou maio. Alm do mais gosto  muito  de
conversar com voc, me distraio com seu  jeito  de  rir  como  se  fosse
engolir a gente, seus conselhos e esculhambaes de vez em quando.  Essa
sua ltima carta, por exemplo, foi timo para mim ter recebido, que isto
aqui est ficando muito chato, inspido, para l de insuportvel.
        Voc me pergunta o que penso do livro do Lcio.  J  li,  e  at
escrevi uma carta para ele. O que logo me impressionou niais foi  o  que
voc chama de"instrumento de trabalho".

153

Uma extraordinria preciso  de  palavras,  elas  exprimindo  exatamente
aquilo que ele queria dizer, nem por um momento traindo  o  autor,  cada
uma no seu lugar, nenhuma faltando ou sobrando. No d  a  impresso  de
esforo por se exprimir, de procura ansiosa, de  incerteza  final  se  o
livro deu certo.  Acho  que  o  Lcio  est  conseguindo  jogar  com  os
elementos que possui com muita habilidade e bom gosto, que de certo modo
lhe faltava  antes,  de  vez  em  quando.  Esteticamente  acho  o  livro
lindamente realizado, muito harmonioso principalmente nas duas primeiras
partes, em que o pensamento no se desvia, o autor dominando  com  muita
perfeio os seus recursos.
        J te contei que vivo discutindo com Octavio de Faria a respeito
do Lcio. Ele acha que ns mineiros no  colocamos  o  Lcio  no  devido
lugar, que temos um inexplicvel menosprezo pela importncia  dele  como
romancista. E  nisto  Octavio  est  absolutamente  enganado,  eu  tento
explicar, mas no h meios de me fazer entender. Eu no acho, como voc,
que"Luz no Subsolo" seja um passo em falso. Mas  acho  que    um  livro
feito num momento em que  o  romancista  de  talento  extraordinrio  se
achava  em  pleno  conflito  consigo  mesmo  diante  de  certas  coisas,
inteiramente revolucionado  por  dentro.  Nada  do  que  ele  j  fizera
resolvia, alguma coisa  de  mais  dolorosamente  vital  se  mexia  nele,
sangrando em sua alma. Saiu a  Luz  no  Subsolo,  vomitado,  golfada  de
sangue. E alguma coisa alm de simples literatura-mistificao,  como  a
gente s vezes  levado a pensar. Luz no Subsolo apenas me  deixou  mais
ferido. Falei com Lcio que ao  terminar  a  leitura  do  livro  tive  a
impresso quase fsica de estar encharcado de sangue. A gente ia  buscar
um caminho e recebia uma punhalada.  E  penso  comigo  que    esse,  no
ntimo, o motivo de  sua  revolta.  Um  livro  cruel,  impiedoso,  deixa
absolutamente esmagado, estril, diante dele, o leitor  que  no  tem  a
mnima culpa, que tambm  se  sente  condenado,    procura  da  Palavra
esperada. Ento a gente se volta contra ele, diz que o livro    intil,
no nos trouxe nenhuma esperana num mundo melhor, numa vida melhor, no
foi como queramos a esperana da redeno tombando sobre  nossa  cabea
de vendidos  vida. Unicamente nos aumentou a  conscincia  terrvel  de
nossa miservel condio humana, condenados a viver sempre nesse sangue,
nessa lama, chafurdados como lesmas. Gestos inteis,  palavras  que  no
levam a nada, antes nos deixam cada vez mais escravizados  e  impotentes
diante do impenetrvel. Mistificao! Gritamos ento,  decepcionados,  e
penso que foi isso que aconteceu com voc.
        J Dias Perdidos  outra coisa. Podemos dizer que  um livro que
resolve? Pelo menos, na minha opinio,  um livro  que  deu  certo,  que
est certo. A impresso maior  a de um autor inteiramente senhor de si,
sabendo o que quer, consciente de sua capacidade para  conseguir  o  que
quer, tudo certo, no seu lugar.  Resultado:  um  modelo  de  equilbrio,
conforme alis eu disse a ele que achava. Mas um equilbrio que no quer
dizer estagnao, e sim equilbrio no movimento,  harmonia,  cada  frase
provocando outra num completamento quase musical. E um grande domnio da
lngua, que nele no  l muito rica, um tanto incolor,  mas  muitssimo
bem aproveitada.
        H ainda a dizer a presena de Octavio de Faria,  que  Senti  em
todas as pginas. Dois escritores absolutamente opostos na  tcnica,  na
concepo, Lcio desprezando

154 155


elementos  que  Octavio  aproveitaria,  a  linguagem  do  Lcio   exata,
suficiente, o romancista dominando a  forma  e  o  Octavio  se  deixando
levar; Lcio extraindo da miservel submisso do homem ao transitrio  e
contingente uma melanclica filosofia  de  resignao  e  serenidade  no
sofrimento, e Octavio atacando aquela submisso com golpes  implacveis.
Lcio diz:"Meu Deus, como os homens complicam as coisas! Nada existe  de
decisivo, nem o bem, nem o mal, nada    eterno  sobre  a  terra,  s  o
desespero corrompe e mata." E essa tremenda verdade a que ele chega, por
caminhos to tortuosos, to speros, e que se desprende aos nossos olhos
de cada uma das palavras do livro: "No h seno uma forma de pecado,  a
de no saber amar. Tudo o mais deriva da, como uma  fonte  de  sangue."
Verdade que tambm nos foi dada por Octavio, ou ser, nem por um momento
duvido disso, quaisquer  que  forem  os  seus  descaminhos,  os  abismos
insondveis a que for levado,  rasgando  a  noite  com  fogo  aos  olhos
deslumbrados, "como se quisesse colher estrelas". E  nisso que eu sinto
a presena de Octavio no livro do Lcio, duas almas irms, que atingiro
o mesmo  destino  por  caminhos  diferentes.  Coisa  interessante:  voc
reparou como h uma certa"correspondncia" entre os personagens de um  e
de outro, algumas cenas, no "influncia", mas qualquer relao  que  os
liga? Chico e Pedro Borges; Slvio e Branco; Jaques e  o  pai  de  Pedro
Borges, em alguns pontos; Camilo e Carlos Eduardo so uma s  pessoa;  a
briga de Slvio com Chico,  embora  Octavio  a  explorasse  tecnicamente
diferente,    uma  outra  briga  de  Branco  e  Pedro  Borges.  E  esta
extraordinria Clara, estou certo que  ainda  aparecer  em  Octavio  de
Faria, O amor de Slvio por Diana  o amor de Branco por Geralda, a cena
do carroussel  a  festa  de  caridade  onde  Branco  viu  Geralda  pela
primeira    vez.    Contudo,    no    estou    pensando     detidamente
nessa"correspondncia", enquanto escrevo, de modo que em  muitas  coisas
pode ser que eu esteja enganado. Mas alguma coisa me  diz  que  os  dois
romancistas esto muito mais intimamente ligados do que  primeira vista
se pode pensar.
        Tudo que estou dizendo, Mrio, sem pensar  muito,    o  que  j
escrevi ao  Lcio,  contando  mais  ou  menos  isso  mesmo,  a  primeira
impresso, que pode ser se modifique numa segunda  leitura  mais  serena
que pretendo fazer. O que no se modificar   a  minha  opinio  geral.
Acho"Dias Perdidos" um grande livro.
        Mas, voltando  minha pergunta:"Dias Perdidos    um  livro  que
resolve? At que ponto a gente pode dizer que ele  funciona,  participa?
Est a uma coisa que, francamente, no sei dizer, e quem vai  responder
 voc. No  um livro estril - ao contrrio, sinto nele qualquer coisa
de intimamente fecundo,  que  parece  ir  desabrochar  suavemente,  no
importa quando. Muito embora certa aridez que a gente sente na 3a  parte
(que no acho superior, principalmente em tcnica, s  duas  primeiras),
devido  ao  fato  de,  penso,  o  autor  ter-se  prendido  a  um   plano
preestabelecido, dando-nos a impresso de ligeira  contrafaco.  Assim,
acho que o Lcio desde o  princpio  queria  que  o  Slvio  voltasse  a
encontrar Diana anos mais tarde e se casasse com ela. E que o  casamento
do filho, o seu drama, os seus desencontros, trouxessem aos nossos olhos
a lembrana do drama do pai. Pode ser que se deixasse Slvio  Viver  por
si nessa parte final, que ele acabasse mesmo encontrando Diana,  casando
com ela, e depois saindo pelo

156 157

mundo, como o pai. Mas do jeito  que  est  a  gente  no  fica  sabendo
direito se isto iria mesmo acontecer, pois  o  romancista  precipita  um
pouco as coisas. O casamento ento, d idia quase de coisa  "arranjada"
para o livro dar certo, voc no acha? Tambm a doena de  Clara,  assim
de repente,  embora  nada  impedisse  que  ela  adoecesse,  parece  meio
arranjada para ela morrer, o que no acontece com a  doena  de  Jaques,
que acho perfeita. Acho que tem mesmo muita coisa perfeita nesse  livro.
Se no fossem esses pequenos defeitos de  tcnica  eu  chamaria  ele  de
obra-prima, e estaria muito errado, Mrio?
        Isso o que achei de"Dias Perdidos". Agora, fico esperando o  que
voc achou. Principalmente em relao  nossa conversa,  se  o  livro  
alguma coisa alm de arte-pelaarte - enfim, voc me compreende.
        E como esta carta j est muito grande,  vou  terminar.  Nenhuma
novidade em Juiz de Fora, a no ser que isto aqui   ultra-paulificante.
E o Agripino Grieco, no Rio, fazendo agripinices... Te  mando  junto  um
poema do Hlio, que ele me mandou de Belo Horizonte, lembrana de um dia
fugido que passei l com ele, esta semana. E tambm um  conto  meu,  no
deixe de mandar dizer o que    que  voc  acha  dele,  que  estou  meio
preocupado. A Academia  um fantasma apavorante. Um grande  abrao  para
voc, querido Mrio. E no se esquea: beba mais leite.

Fernando

        No faa esforo ou sacrifcio para me responder, sim, Mrio? Eu
espero.



S. Paulo, 24-XII-43

        Querido Fernando,
        Estou com uma dor de corpo danada, pudera! me permitiram sair da
cama, estou muito fraco mas muito milhor, bem  disposto,  colorido,  sem
dor-de-cabea, h! sem dor-de-cabea, estes so os primeiros dias  deste
ano em que sinto a cabea levinha,  levinha,  capaz  de  ler;  capaz  de
escrever sem esforo imenso de vontade e sem sofrimento imenso de toda a
alma, de maneira que estou indo com muita  sede  ao  pote,  leio,  penso
coisa sria, escrevo, e pois ontem at  me  sentei  nesta  mquina  logo
depois da janta, estava mesmo chovendo e no podia sair um  bocado,  dar
um passeiozinho, e resolvi escrever um artigo, mas era  de  obriga  o,
questo de ganha-po, perdo!  andei  escrevinhando,  careci  reler  uns
escritos longos meus sobre Pastoris de Natal, de modo que quando tudo se
acabou e as quatro pginas e pico do  artigo  estavam  aqui,  que  horas
eram?pois no v que eram as, pra mim atualmente,  altas  deshoras,  das
vinte-e-quatro horas, seu Mano!Agora a frase acabou. O  resultado,  est
claro,pra quem viveu um ms deitado na caminha e imvel ao  possvel,  o
resultado dessas horas nesta mquina foi uma bruta dor-de-corpo  que  me
deu. Mas quero, preciso escrever  pra  voc  estas  pequenas  linhas  de
Natal,  de  amizade  muito  feliz  e  de  princpio  de  principiar  lhe
respondendo a sua sucosa carta ltima. Os assuntos mais graves, s mesmo
l pelos primeiros dias do ano posso cuidar deles. Mas  quero  desde  j
lhe dizer que gostei muito do seu conto e muitssimo da Poesia do Hlio.
Eu no posso ter uma opinio sobre o Hlio,

        158 159

voc compreende, s conheo dele aquele  outro  poema  de  Mensagem  que
achei bonzinho mas um pouco  perigosamente  fcil,  difcil  de  decidir
qualquer coisa, porque tanto pode ser  um  fcil  da  essencialidade  do
indivduo como um fcil mimetismo puro, maneirismo  de  poca.  J  este
poema de agora gostei mesmo muitssimo, sobretudo a  graduao  rtmica,
esse ritmo que vai aos poucos se inquietando e se quebrando mais e  mais
com o calor do estado potico de desespero pra alcanar  no  fim  aquela
srie de versos ritmicamente destemperados, iii, gozei e gozo  isso  mas
de rolar no cho, pedindo bno pra cachorro e chamando  gato  de  tio.
Mas da mesma forma, meu Deus, no consigo ter a menor opinio fixa , no
 possvel, os  dados  so  muito  poucos,  tudo  ainda  pode  ser  puro
maneirismo de poca e o Hlio  o  homempai-defamlia  que  no  tempo  de
estudante publicou um livro de versinhos  pra  sempre  depois  renegado;
como pode ser um poema timo de poeta bissexto; como enfim pode  ser  um
poema timo de um poeta timo, que ser um dia  grandepoeta:  tudo  isso
pode ser E me d uma angstia na barriga, no saber mais nada  que  isso
dele, est ficando pau. Eu poderia mandar dizer tudo isto pra  ele,  mas
pra qu, si no  nenhuma opinio!
        Quanto ao seu conto, seu Fernando,  o que eu j falei pra voc:
palavra de honra que acho ele  uma  perfeio.  Mas  agora  explicar  os
meandros disto me obrigava a uma monografia que  impossvel. Mas eis os
pontos principais dois. Voc est com um tal  estilo,  que  tudo  quanto
voc escreve com trabalho honesto,  muito bom esteticamente. Veja  bem,
o material, o timo instrumento de trabalho,  a  tcnica  enfim.  E  uma
coisa imensa, est claro.  Mas  no    tudo.  Com  o  estilo  que  voc
adquiriu, em grandepartepOrqueo tem naturalmente por natureza (o  que  
um  sintoma  magnfico),  com  o  seu  estilo  voc,  des  que  trabalhe
honestamente, no desleixe  deshonestamente  a  obra-de-arte,  voc  faz
coisas esteticamente excelentes, excelentes do ponto-de-vista da beleza.
Mas, si as suas obras so j agora esteticamente timas, isso  no  quer
necessariamente dizer que elas sejam todas artisticamente timas tambm.
Quero dizer: sob o ponto-de-vista  da  beleza  suas  obras  honestamente
trabalhadas j so sempre reussidas, mas  arte  no    beleza  s.  No
confunda: o seu conto   tambm  artisticamente  muito  bom,  no  estou
negando isto, Deus me livre! Quais os elementos de arte, ento,  que  eu
aplaudo no seu conto e gosto deles? Arte  um fenmeno  de  relao,pelo
menos entre dois indivduos, o artista e o espectador. Na arte da  prosa
que  a que mais se  aproxima  fatalmente  do  pensamento  lgico,  essa
relao consiste entre outras coisas (no posso enumerar tudo aqui, est
claro!) no artista nos revelar psicologias e  os  dramas,  com  icidades
etc, etc,  nascidos  dessas  psicologias  e  do  choque  de  psicologias
diferentes, enfim, nos ensinar e nos propor tambm os indivduos,  e  os
casos. E isso voc fez, no tem dvida, neste conto  menos  aprofundando
indivduos que nos propondo, tambm menos um caso (no tem  importncia)
que um estado coletivo provocado pelo choque de duas psicologias que  si
no foram aprofundadas foram no entanto vigorosamente esboadas e  vivem
como arte suficientemente. E conseguiu uma delcia, que  aquele  estado
malestarento final em que ningum, nem mesmo o leitor sabe exatamente ao
certo o que est sucedendo (psicologicamente) e quem   dos  dois  seres
chocados o que tem razo.  tudo uma verdadeira delcia, muito finamente
observada e desenhada com muito fino senso artstico. Mas agora entra  a
malvadez em

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cena.  O  conto  de  voc    esteticamente  timo,    artstico    sem
contestao,  uma perfeio. Mas no basta! Porque o  estado  que  voc
nos prope e revela neste conto, si  sutil, si  delicado e difcil  de
observar e pegar bem o cmico delicioso  dele  no    sufi  cientemente
forte pra ser artisticamente timo, como esteticamente j  timo. Agora
veja que malvadeza da vida: Si voc, como um Machado de Assis ou um Mau-
passant, publicar cinco, seis livros de contos, todos iguais a este como
valor esttico e artstico, voc ser um grande contista, um  formidvel
escritor, um Machado de Assis,  um  Maupassant.  E  que  a  fraqueza  de
intensidade dramaticamente (ou satiricamente) humana do seu  conto  pode
ser substituda pela quantidade. Voc est me entendendo? Eu acho o  seu
conto muito mais perfeito que o poema do Hlio, e no  entanto  eu  gosto
mais do poema do Hlio que do seu conto. Tem nele uma  intensidade,  uma
necessidade, uma fatalidadeque o torna artisticamente  mais  empolgante,
uma "lio" (a arte  sempre uma proposio de verdade,  por  intermdio
da beleza) mais necessria, mais digna de ser guardada que  a  lio  do
conto de voc. Ai, mas que dor no corpo, puxa! Agora  si  voc  publicar
alguns livros de contos do diapaso deste e o  Hlio  alguns  livros  de
poesias no diapaso desta poesia dele, voc ser um to grande  contista
como ele grande poeta. E ento a diferena de intensidade  humana  entre
um e outro,  em  vez  de  ser  valor  artstico,  ser  caracteriza  ao
artstica.  E  os  estudiosos  e  os  leitores  diro:  Hlio  era    um
temperamento  violento,  sarcstico,  dramtico,   Fernando    era    um
temperamento delicado,  com  um  fino  sense  ofhumour,  insupervel  no
revelar as situaes subtis da psicologia humana. E  ou  no    verdade
esta malvadeza da vida?
        Bom, agora vou parar, chega por hoje. Quero porm desde  j  lhe
afianar que a minha opinio sobre o livro do Lcio Cardoso diverge  mas
diverge abertamente da de  voc,  mas  guarde  segredssimo  disto.  Lhe
explicarei o que penso na carta de janeiro.  E  agora  viva  a  ternura!
Estou lhe abraando com o milhor e mais puro  carinho  amigo.  Fernando,
pensando palavra que com muita comoo que um ano se foi, que outro est
chegando e que a gente vive,  est  discutindo,  est  divergindo,  est
lutando, est concordando, est tudo o que   intensamente  glorioso  na
vida do homem indivduo, viver no gosto manso de conviver com os  amigos
verdadeiros.  to imenso isso,  Fernando.  Estou  vendo  voc,  achando
graa na sua cara, dando risada da sua inquietudice  degestos,  da  fome
linda e generosa com que voc est querendo ser e  atrapalhara  vida  de
todo mundo com a sua arte. A vida podia ser to boa, Fernando. Sim,  ns
podemos fazer bem boazinha a nossa vida particular. Mas isso no basta.

Mrio

162 163




S. Paulo, 2 -11-4 4

        Fernando,
        Tenho uma carta prometida a voc sobre Dias Perdidos e o  Lcio,
o qu que hei-de-fazer!... O caso do Lcio tem sido  uma  das  tragdias
do, no sei si diga do meu pensamento, ou si duma  opinio  apenas  mais
indecisa, mas na certa uma das tragdias do meu pensamentear. De vez  em
quando  penso  nele  e  vou  pensando  at  que  a  insolubilidade     e
principalmente o malestar me faz aborrecer de tudo e meu pensamento muda
de assunto. O que  o Lcio, meu Deus! No tem dvida  nenhuma  que  ele
principiou muito bem, mas muito  bem  mesmo,  com  um  livro,  at  dois
(Salgueiro) nada geniais mas excelentes, denunciando timas qualidades e
o tipo da promessa em que a gente deposita confiana.  Eis  que  estoura
Luz no Subsolo, a minha tragdia principiou, o  que  era  aquilo!  Li  o
livro com ateno  e  principalmente  com  uma  pacincia  enorme,  pelo
respeito que o Lcio me merecia, no por amizade, mas pelas  credenciais
dos livros anteriores. Voc faz esforo na  sua  carta  pra  defender  o
livro, pura perda. O  livro    uma  obra  fracassada,  no  tem  dvida
nenhuma. Nem Otvio de Faria,  nem  os  que  garantem  o  Lcio  puderam
defender nem sustentar o livro. Nem o prprio Lcio que, si  no  voltou
atrs (nem devia) buscou depois outro caminho que no  era  mais  aquele
atalho. Se pode dizer que Luz no  Subsolo    um  atalho  que  levou  ao
caminho novo, de acordo,  mas  no  impede  que  seja  um  atalho  muito
pssimo. Mas no importa o valor do livro, importa a  significao.  No
tem dvida que uma anlise

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primeira prova um sintoma timo: Lcio procurava  aprofandar  o  romance
nacional em sua capacidade de anlise do ser e em  sua  profundidade  de
significado, ponhamos,filosfico. Livro pra dar que  pensar.  Tudo  isso
seria timo, no  tem  dvida.  Mas  uma  coisa  dessas,  que  pode  ser
honestidade e esforo de trabalho, pode tambm ser vaidade  e  mania  de
grandeza.
        Aqui o caso psicolgico do Lcio e da "entourage" do  Otvio  de
Faria se complica prodigiosamente,  e  no  posso  decidir  por  mim.  
estranho, mas todos os escritores que o  Otvio  de  Faria  "garra"  pra
salientar,  ele  ameaa  prejudicar.  O  Schmidt  tinha  muita  sade...
financeira e si nao se perdeu, o antiestetismo do Otvio o prejudicou em
definitivo, assim como o valor-eternismo do Otvio o viciou. Vincius s
poude se salvar, se libertando totalmente do Otvio  e  vindo  pro  lado
antivaloreternista da poesia,  o  Manuel  Bandeira  que  ele  por  vezes
rastreou at conseguir a sua originalidade prpria, o  Carlos  Drummond,
eu. O Vincius foi integralmente um caso do que, respeitando a gente  de
longe, "estimando" mas com frieza, um dia resolve"se chegar",  toma  uns
trancos logo de entrada, mas agenta a mo efica da banda de  cci.  Est
claro: isto no implica rompimento de amizade e admirao  pelo  Otvio,
nem este  nenhum vil pra brigar por causa disso, mas  incontestvel: o
Vincius... traiu a misso, a"mensagem" (oh!) que o Otvio dera pra ele,
 ou no ?
        E enfim, o terceiro e que eu saiba, ltimo caso, o  Lcio.  Este
no conseguiu se livrar de Otvio de Faria, e voc  mesmo  fala  na  sua
carta que o Otvio insiste em que vocs, de Minas, no do  ao  Lcio  o
valor devido. Ora, e aqui  que est o mago do problema: resta saber si
o Lcio tem

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mesmo esse valor que o Otvio atribue a ele, ou apenas est  seguindo  e
realizando a misso, a mensagem que o Otvio deu pra ele epor isto  que
este o supervaloriza. Voc repare: a mudana de  "Luz  no  Subsolo"  no
representa nenhuma evoluo nem de tcnica  nem  de  orientao  nem  de
pensamento.  E  outra  coisa.  Nada  denuncia    em    Salgueiro,    mas
absolutamente nada, a transformao  que  se  deu  depois.  Mas    que,
talvez, no tenha se dado nenhuma evoluo (j nem  falo  em  progresso,
mas  apenas  evoluo  que,  aprincpio,pode  ser  pra  pior),    nenhum
desenvolvimento normal de um esprito que se  cultiva  ou  duvida  e  de
repente no duvida mais, nada disso. Eu  desejava  muito  saber  como  e
quando o Lcio conheceu o Otvio. Porque si foi entre Salgueiro e Luz no
Subsolo, ento fico com muito pouca dvida sobre a influncia  deletria
decisria do Otvio. Porque a diferena espiritual entre Salgueiro  e  a
Luz no Subsolo principalmente esta: Luz no Subsolo procura  se  afastar
do cafagestismo do romance nacional contemporneo, do Modernismo pra  c
(especialmente  do  cafagestismo  nordestino,  ruralista,  que  o  Lcio
seguira nos livros anteriores), e fazer  obra  (ah!)"universalista",  de
caracter urbano, e  dostoievisquiano,  "profundo",  cheio  de  intenes
mirpiribirimirificas. O que o livro vem  falando  pra  cima  de  mo  
assim: Eu c sou de Dostoievisqui pra cima, no deixo por  menos.  Eu  e
Proust, Eu  e  Goethe,  Eu  e  Aristteles.  Desculpe,  Fernando,  estar
exagerando, sei que estou, mas  de angstia raivosa, pelo malestar  que
o caso me d, pelo perigo de estar falsificando a psicologia do Lcio de
maneira depreciativa. No estou depreciando ele no, o  Lcio  me  deixa
inclassificvel, eu, inclassificvel. Mas isso principalmente   que  eu
tenho medo que o Lcio represente: uma mania  de  grandeza,  uma  reao
abusiva

166

contra o nosso complexozinho de inferioridade que  era  prejudicial  mas
que enfim tinha a simpatia de ser modesto. Agora no, surge, surgia  com
o Otvio, gnio que pretendeu destruir Freud  (Eu  e  Freud),  ainda  no
cueiro, e que o parente Tristo achava que  destruiu  Freud  mesmo  (no
destruiu nada, estava ainda em caminho errado, e quando acertou  a  mo,
no romance, a mim me d  a  impresso  de  genial,  de  um  dos  maiores
romancistas  vivos),  surgia  a  corrente  da   Mania    de    Grandeza,
universalista,  psicofilosfica,  proftndista,  valoreternista,  com  o
Otvio, com toda a razo, e  o  Lcio.  Falo  s  no  romance.  E  ento
principiaram descobrindo um subsolo to profundo que com  outro  mineiro
(mineiro  cuera na  mineirao  mesmo!)  Cornlio  Pena  se  tomou  to
profundo ou fundo que atravessou o globo terrqueo e foi parar no  mundo
da Lua, bolas! Mas  no  era  tudo  (no  passe  estas  minhas  opinies
pradiante), pois agora no me surge o cuja mulher fugi a de  Sodoma  com
um romance que tambm no fica por menos*  e  ele  mesmo,  sem  a  menor
delicadeza de inteligncia, garantiu que no deixa por menos que  Huxley
e Morgan! Mas onde  que essa gente  vai  parar  como  sensibilidade  de
delicadeza! tem muita gente aqui no Brasil que, com a maior modstia, eu
acho muito maior que Huxley e outros, mas eu digo isso dos  outros,  no
vou dizer de mim! nem mesmo siquer, como e o caso sensvel do Lcio, vou
dar descaradamente a pensar isto de mim! caso me imaginasse assim!
        No tem dvida nenhuma que quando eu estou criando, eu sou maior
que Goethe, que Dante, que todo o mundo,

---

* Jos Geraldo Vieira, cujo romance"A mulher que fugiu de Sodoma", 1931,
era muito comentado na poca.


167

porque... estou fora de mim. No tem dvida nenhuma  tambm  que  quando
estou corrigindo, limpando, estetizando uma obra j criada, eu fao todo
o esforo pra ser maior que Goethe, Beethoven e Shakespeare.  Mas  antes
de criar, antes de inventar meu assunto, antes de ter a tal  de  inspira
o eu no tenho a menor inteno possvel de ser  maior  ou  menor  que
ningum. Simplesmente porque no se  pode  ter.  E  quem  tem,  quem  se
predetermina iguala tanto ou superiora tanto por fazer a inveno  desta
forma,  quero  dizer  predetermina  que  tem  de   ser    profundssimo,
predetermina que s desta maneira a gente  profundssimo,  predetermina
que tal filosofismo  profundssimo,  tal  anlise    profundssima,  e
pr-faz a obra que vai criar, si tem valor, se prejudica totalmente.  Si
tem muitssimo valor no chega a se prejudicar porque a genialidade est
sempre acima do indivduo que a carrega, ningum no tem  culpa  de  ser
gnio. Como o caso, sem exagero de genialidade, do Otvio de  Faria,  O
Otvio  muito superior a ele mesmo. Mas no completei  meu  pensamento:
Si eu no posso ter nenhuma inteno possvel antes, porque  o  que  vai
sair, o de que eu vou ter a tal de inspira ao no depende do meu  conci
ente,  si  antes  eu  no  posso  ter  inteno,  depois  de  criada   a
obra-de-arte e trabalhada esteticamente, o que eu verifico,  com  sade,
uma boa dose de malinconia e outra boa dose de bom-humor,   quea  minha
obra, coitadinha, no passa de mnhazinha. Dostoievisqui continuou muito
maior.
        E isso   o  Lcio,  talvez  seja.  Um  escritor  romancista  de
bastante valor (engraado, ele  o tipo do sujeito que a gente no  pode
chamar de"talentoso", no tem  nada  de  brilhante  nem  de  fcil  como
inteligncia pessoal) talvez mesmo  de  muito  valor,  mas  que  tem  se
prejudicado muito na aspirao vaidosa de ser excepcional. E ento busca
a excepcionalidade doprofundrrimo (Luz no  Subsolo),  do  estranhrrimo
(os livros seguintes), da poesia que  d  o  sentidrrimo  de  tudo.  Da
poesia valoreternrrima. E enfim atinge um mais modesto  equilbrio  por
ter feito um livro menos intencional, nestes Dias Perdidos. O milhor dos
livros dele, mas ainda bastante irregular como fatura.
        No vou criticar o livro, no devo. Nem posso, seria  leviandade
minha porque s lio livro  uma  vez,  no  consegui  terminara  terceira
parte, me chateei definitivo efui deixando, fui deixando  e  acabei  no
pegando mais no livro e no sinto a  menor  necessidade  de  pegar  nele
mais.  A  sua  crtica  ,  seu  Fernando,  simplesmente  admirvel   de
inteligncia, de esforo intelectualpra  descobrir  motivos  pra  gostar
ejustificar um livro. Alis acredito que no tenha sido esforo s, voc
gostou mesmo, voc ainda est muito puro em arte pra no se deixar levar
pela melodia dos Dias Perdidos, voc  ainda  pode  perder  dias.  Mas  a
esperteza excelente das suas observaes, tendendo muitas vezes a torcer
pra elogio o que na verdade  pejorativo (voc fez isso sem malcia  nem
maldade, est claro:puro ato de amor), no impede que seja voc mesmo  a
denunciar defeitos fundamentais do Lcio.  tpico  quando  voc  afirma
"um grande domnio da lngua  que  nele  no    muito  rica,  um  tanto
incolor, mas muitssimo bem aproveitada". Voc reflita  um  bocado  mais
sobre o problema, Fernando. Na verdade  no  existe  nenhum  domnio  da
lngua, pois o Lcio nem chega a ter estilo ruim como dizem do Otvio de
Faria, a verdade  que ele no tem estilo nenhum. As  vezes  tem  frases
timas como ex-presso integral do pensamento,  mas  de  vez  em  quando
surge uma frase larvar de menino de grupo,  absurdo. Est claro que no


        168 169

muito rica, mas ser rica jamais foi qualidade em estilo, em lngua,  mas
voc sem querer disfarou com essa expresso que  no    qualidade  nem
defeito, a verificao, currente calamo, que vem em seguida, e esta  sim
 defeito grave, o "um tanto incolor". No tem  cor  nenhuma!  No  tem,
simplesmente porque no , no chega a ser estilo,  coisa  balbuciante,
que como a criana balbuciante,  tem  coisas  timas  ao  lado  de  mais
freqentes coisas sem a menor integridade expressiva. E o  que    pior,
uma linguagem, um  estilo,  um  pensamento  que  se  move  integralmente
mecanizado, por meio de lugares-comuns. Veja  bem,  Fernando,  no    o
lugar-comum que traz simplicidade, modstia e at vigor ao estilo,  como
sucede com os escritores"ticos  ",  claros,  simples.  E  o  pensamento
inteiro que s se  move  porque  tem  amas  ondas  mecnicas  movidas  a
gasognio que fazem andar. Abra o livro em qualquer pgina, Fernando,  e
v riscando os lugares-comuns fraseolgicos, de expresso de  pensamento
e voc ver que o Lcio no pensa por si, mas porra! por  representaes
coletivas.
        Porra tambm! cheguei na sexta pgina e  ainda  no  principiei!
No quero fazer crtica do livro. Acho que enfim o Lcio est chegando a
um certo equilbrio entre as suas desmesuradas ambies de escritor e as
suas qualidades naturais  de,  tambm,  escritor.  Nesse  sentido,  Dias
Perdidos  uma obra que se pode ler e tem  mesmo,  reconheo,  um  valor
impregnante que quando a gente faz um esforo e pega  o  livro,  leva  a
gente at longe. O difcil  fazer novo  esforo  pra  depois  pegar  no
livro outra vez e continuar. Ao passo  que  o  Otvio,  tambm  um  fim,
tambm um representante duma civilizao, duma classe, duma coisa que se
acaba, o Otvio no, si voc fizer o primeiro esforo, isso  basta,  ele
agarra voc, domina voc, voc detesta o que ele representa e  no  pode
largar mais dele, nem que seja pra detestar ainda mais e ser mais contra
ele. E aqui chegamos ao que voc me pergunta e e a nica  coisa  que  me
importa neste caso do Lcio, nesta minha carta e em voc. At que  ponto
a  gente  pode  dizer  que  ele  (Lcio  nos  Dias  Perdidos)  funciona,
participa"? voc me pede pra responder. Covardia, seu Fernando, covardia
de amor, de amor por seus amigos do Rio epor si mesmo, autor da "Marca",
voc j  maior e tenente, j deve responder s suas dificuldades morais
por si mesmo, e no me perguntar como   que  .  Mas  estou  brincando,
respondo sim.
        Ponha a mo no corao, com a maior sinceridade de sentimento de
que voc for capaz e responda a si mesmo, no a mim,  no  me  interessa
que voc me d razo, o que  me  interessa    que  voc  se  coloque  o
problema pra  sua  integridade  de  artista  (no  de  ccesteta  mas  de
"artista", do homem que participa da vida e funciona nela por intermdio
do valor esttico que  a beleza). Coloque a mo no corao e  responda:
No  verdade que diante da arte e do homem Otvio de Faria voc ama, se
irrita, tem raiva ou dedicao? no  verdade que boa ou m, gostosa  ou
desagradvel, a obra do Otvio  uma pedra no caminho de  voc  como  de
todos, obra que, obra e homem que a gente ou segue ou combate?...  Agora
me fala uma coisa dolorosa: no  verdade que o Lcio e a obra dele  no
so pedra nenhuma no meio do caminho de ningum? no  coisa que a gente
ame ou deteste? no  coisa que a gente perca muito  tempo  em  defender
nem em combater? pior: no  verdade  enfim  que...  que  toda  a  gente
confere que o Lcio  um bom sujeito? Da  mesma  forma  como  das  moas
feias a gente fala que"coitada,   to  simptica",  do  Lcio  como  de
certos outros anjos ,agente

170 171

confere, meio enjoativamente que "coitado,    um  bom  sujeito",    um
"esforado". Veja bem, no h contradio nenhuma no  problema  interior
danado de malestar que o Lcio me causa.  Isto  puro  problema  pessoal
meu, da minha vontade de ser honesto pra com o valor dele, no pedra no
meu caminho no, porque... porque o Lcio  um bom sujeito  coitado",  e
eu no vou atacar ele, porque at os que esto do lado oposto  ao  dele,
ficaro indignados comigo! Voc est vendo bem como ele no participa? 
que pra gregos e troanos ele no passa  da  "moa  simptica"  que  nem
zanga por a gente no danar com ela durante um baile  inteirinho,  fica
com a mesma cara.
        O Lcio acaba de  elevar  o  nvel  do  romance  dele,  que  ele
reprincipiara noutro lugar com"Luz no Subsolo". Com "Dias Perdidos"  ele
chega enfim a uma soluo inofensiva  mas  satisfatria.  Pra  qu!  meu
Deus! pra qu!...  como no caso dos diez caballos com  que  o  espanhol
saiu de Salamanca: Para nada, por Dios! O livro do Lcio no adianta  um
isto em coisssima nenhuma, a no ser na personalidade de escritor dele.
Mas esta" um bom sujeito". Vou parar, tenho que ir no mdico efaz  hora
e meia que estou te escrevendo. Depois acabo. Enfim: "Dias Perdidos" so
mesmo dias inteiramente perdidos.  A  gente  l,  pode  ler  por  vcio,
semimasturbao semi-erudita de semi-burgus. Voc j viu certos rapazes
das classes inferiorizadas, sem dinheiro pra cumprir o  chamado,  e  que
saem nos domingos a noite, de mo no bolso da cala acariciando  o  pau?
Uma certa dignidade impede eles da masturbao total. Ento ficam  nessa
semimasturbao dolorosa e indiscreta. Esse  o vcio que o Lcio  ainda
representa pra ns, ao menos pra mim. Eu, uma certa dignidade me  impede
a masturbao total de burguesice
        que seria ler, por  exemplo,  Anatole  France,  eporisso  eu  me
semi-masturbo no gozo mais sutil, mais doloroso mas igualmente infecundo
dum escritor"bien", profundo, cheio de dignidade esttica. Nesse  gnero
de arte que tambm  uma venda de corpo para o  prazer,  o  gnero  e  o
nvel de "Dias Perdidos" j no  mais, eu sei, uma puta deporta aberta,
j puta de apartamento.
        No  imagine  nem  de  longe,  Fernando,  que  a  aspereza   das
comparaes e dos juzos, indique o menor  menosprezo  pelo  Lcio,  no
indica. Indica apenas que tudo isto me  chateia  muito.  O  Lcio,  Dias
Perdidos e toda essa melodia passiva que se esconde em todos os desvios,
todos os sofismas, todas as esquinas da  vida  como  do  pensamento  pra
nofundo explicar, provar, expor uma cova rdia, que,  eu  tambm  sei,  
sobretudo uma enorme, uma desoladora incapacidade vital. A gente diz uma
palavra bruta: so frouxos. Mas como eu no fundo sei que apalavra  bruta
 uma apenas larvaridade de sntese, e que o caso  mesmo isso,   mesmo
frouxido, mas  sobretudo outra coisa,   a  incapacidade  que  os  fez
artistas, a mesma incapacidade vital que os faz criadores, que  os  faz
no-participantes,  mumbavas,  gigols,  desgraados   e    desgarrados,
criadores da divina eparanica Beleza, louca de vontade de ser intiL
        E  o caso de voc, meu Fernando.  Vou  falar  nisto  aqui  pela
ltima vez com voc. No  quero  mais  que  conversemos  sobre  isto,  
excessivamente doloroso e responsabiliza ntepra mim. Que  discutamos  as
estticas da arte, est claro, lhe darei tudo o que tenho, me esforando
pra ter mais do que pra mim, mas lhe indicar diretamente s pra voc, os
seus caminhos possveis de homem-artista (no separe o homem do artista,
 outra safadeza que andam fazendo, outra cobertura, outro


        172 173




disfarce, mais covardia) indicar os seus caminhos de homem isso   muita
responsabilidade pra mim. Tanto mais que, voc sabe, tudo me  levaria  a
indicar, a aconselhar a voc uma tomada de posio  que  iria  pr  voc
imediatamente em oposio com tudo o que perfaz voc, em oposio e luta
com seu passado, com sua famlia, com a famlia de sua  noiva  (no  com
ela, sei), e faria da sua  vida  uma  coisa  sempre,  sempre  insolvel,
amargamente e chochamente insolvel, cor-de-cinza. A menos que no fique
rubra duma vez - o que si intelectualmente  pode  ser  satisfatrio,  si
espiritualmente pode ser um descanso, vai tornar a vida  um  inferno  de
sofrimentos. E martrios mesmo. Voc deve ter lido minha entrevista  nas
Diretrizes. Voc sabe muito bem que o meu pensamento, desde  o"Movimento
Modernista" at o prefcio ao Otvio de Freitas  Junior  no  pode  mais
implicar condescendncia, voc deve saber o que ando escrevendo, fazendo
o possvel pra envenenar, pra enfraquecer os "donos da vida", pra tornar
bem apodrecida esta coisa que est por ai  pra  que  estoure  duma  vez,
enfim, voc sabe o que eu sou, onde estou e o que penso, mas  no  penso
apenas:  fao.  Ento,  meirmozinho  querido,  vamos  parar  com  estas
conversas sobre a "participao" do artista. Voc sabe o meu  pensamento
qual .  geral e no pra voc em particular  A  no  ser  que  voc  se
tornasse odioso, um Cassiano Ricardo, um ministro, um Getlio  e  coisas
assim, eu j quero tanto bem voc, voc j est de tal forma  dentro  da
minha vida que eu acho  impossvel  a  gente  se  detestar  e  mesmo  se
separar. Voc, tome o  caminho  que  tomar,  at  o  dos  inteis  "bons
sujeitos", eu creio que sempre hei-de querer bem voc e sentir prazer na
sua presena pessoal. Mas no sentirei talvez  prazer  na  sua  presena
espiritual conforme o  caminho  que  voc  tomar.  De-fato  voc    to
solicitado pelo ambiente altoburgus que perfaz voc,  epor  outro  lado
voc  to sensual  no  gozo  da  vida  e  ama  tudo,  conjuga  o  verbo
"tudoamar", que no sei como voc vai ajeitar  isso  tudo,  a  sua  vida
particular, a sua vida pblica, o  homem,  o  artista,  o  esttico  que
voc.., so e  .  Acho  muito  penoso  e  difcil  voc  conseguir  uma
singularizao do seu plural que te e me satisfaa. Acho difcil. Voc 
muito solicitado pelo prazer e a facilidade da vida.  Epor  seu  lado  
muito sensuaL Mas, meu Deus! s repetindo o que falei ao Alphonsus outro
dia: eu compreendo, mas no perdo. Poderei ficar calado, mas  no  ser
nunca por aceitao nem consentimento. H-de  serporperplexidade.  Chega
de falar Chega de falar  mesmo,  que  estou  fatigado,  tantas  dvidas,
tantas inquietaes, o corpo vai bem, a alma vai  difcil.  No  imagine
no que eu seja to spero como esta carta parece,  Fernando,  deve  ser
talvez um engano da sade que est voltando. Mas como eu me inquieto por
vocs! pelo Lcio  no,  digo  por  vocs  moos!  Tem  sido  uma  coisa
dolorosa, s dolorosa? mas  no  vale  a  pena  falar..  Mas  o  que  me
assombra, o que me deixa  por  completo  incompetente    ver  como  tem
pessoas nesse mundo que acham que esto indo direitinho e se  satisfazem
com pouca coisa de si. Querem tudo pra si,  honra,  dignidade,  virtude,
posio, glria, riqueza, felicidade no amor e no jogo, tudo, at  sade
e amigos "do peito",mas quando  pra ceder um milmetro  de  sacrifcio,
ainda querem querem querem! querem pra si o  ttulo  de  mrtires  e  de
heris! decerto sou eu que no me conformo com o ser humano. Mas  entrei
no terreno da confidncia, no vale a pena.

        174 175

        Sentifalta de voc, foi muito, quando  o  Murilo  Rubio  esteve
aqui. Si  de-verdade que voc pretende vir a So Paulo mande dizer,  ou
prevenir com alguma antecedncia quando vem. Eu  estou  com  uma  viagem
ameaada pro Rio, mas questo de semana por l  no  mximo,  decerto  em
princpio de maro, coisas do SPHAN e, si os exames forem satisfatrios:
farra. Ando precisando ficar plido e desmerecido, no tenho  jeito  pra
rosto com sangue, como j andam percebendo, fico com vergonha.
        Do seu

Mrio



S. Paulo, 8-111-44

        Querido Fernando
        Sou obrigado a lhe  escrever,  mas  tenho  s  15  minutos.  Lhe
escrevi uma carta dia 2 do ms passado e faz dias que principiei ficando
inquieto porque voc no me respondia. No recebeu ela e est esperando?
Recebeu e se feriu?
        Porque  pensei  agora  em  lhe  telegrafar  mas  como  tinha  um
tempinho,fui procurar nas suas ltimas cartas qual o seu hotel, a,  que
no me lembrava mais do nome. No achei e mando esta pra Belo Horizonte.
        Mas o caso  que com o tempinho que  tinha,  reli  minha  ltima
carta pra voc, a do dia 2 do ms passado, e me assombrei com a aspereza
dela. Princzalmente com as duas pginas finais,  de  estouro"em  geral",
que como eu no tomei o cuidado de dizer que aquilo  no  se  referia  a
voc, parece que se refere a voc tambm! Por favor, no imagine isso de
mim! Nada daquilo, quando no dirigido pessoalmente, se refere  a  voc.
Eu estourei mais foi contra os"sujos", o que no  nem de  longe  o  seu
caso nem voc.
        Si voc ficou ferido, reconheo, a culpa foi minha, que  nao  me
expressei claro. No momento reli a carta e no percebi isso,  por  causa
da pureza da minha inteno. Mas agora que  a  coisa  no  est  quente,
relendo a frio o que escrevi, percebi logo que era muito  possvel  voc
imaginar que se tratava de voc tambm. Si pensou, no  pense  mais,  me
desculpe. Sou obrigado a confessar: a carta foi principiada no dia  dois
mas no sei em que dia acabei, no pus nela como estou fazendo agora.  E
eu estava sobretudo furioso com um

        176 177

dos defensores da arte-pura que publicara  ento  aqui  no  "Estado"  um
no-sei-o-que meio surrealista,  intitulado  "A  criao  de  Chineses",
assim como quem faz criao de gado ou de galinha. Isso,  neste  momento
em que os chineses so um dos povos mais dignos, mais  ilustres  e  mais
martirizados. Nunca vi tamanha insensibilidade intelectual.  E  isso  se
faz em nome da Arte Pura que no tem culpa dos coitados que  a  infamam!
Morri de dio desesperado,  palavra.  Quem  fez  foi  o  Antnio  Rangel
Bandeira, de Pernambuco. Da, em principal, o meu estouro.
        No zangue comigo no e me escreva logo uma notcia falando  que
no est ferido. Eu no quis ofender voc. Era incapaz disso e no havia
razo!
        Com o abrao do

Mrio

        Quanto ao livro do Lcio no sinto  razo  pra  modificar  minha
opinio. Mas s a opinio, como eu estava spero, Santo  Deus!  como  eu
devia estar "zangado" o dia, dias em  que  escrevi  aquilo  tudo!  Ponha
surdina.



S. Paulo, 23-V-44

        Meu querido Fernando
        Estou despeitado mas vamos ser razoveis, eu tenho que  desistir
de ser testemunha no casamento de  voc.  Acabo  de  receber,  so  onze
horas, um telefonema da Panair, avisando que no  h  mais  lugardeavio
pra mim, nem via Rio. Desde  quarta-feira  passada,  dia  17,  que  pedi
passagem pra Belo Horizonte, na Panair, pro dia 5 ou 9 de junho que  so
os dias de avio daqui pra l. Meu secretrio  testemunha, pois foi ele
quem pediu. S ontem, indo todos os dias l, como no recebiam  resposta
de Poos, esperei na Companhia que telefonassem pra l. E a resposta foi
que j tinham mandado um areo comunicando que no havia  mais  passagem
pro dia 5 nem pro dia 9.
        S havia ainda a esperana de seguir via Rio, que agora acaba de
ser negada. Estou na mo, como voc v. E o recurso de  me  servir  duma
das passagens oficiais, sempre reservadas, no me convm  aceitar,  voc
j sabe os porqus. Eu sinto que no devemos  insisti,  Fernando,  tanto
mais que essa minha paraninfagem no iria satisfazer muita gente, e  com
razo. Pra qu insistir num malestar que, mesmo pra ns, s pode ter uma
satisfao o seu tanto obsessiva  de  nomimportismo?  Eu  creio  que  a
satisfao ser muito mais perfeita,  num  caso  puramente  social  como
esse, se preservando mais ntima e nossa. Voc no imagina  como  eu  me
senti feliz com o seu desejo e como tudo se  completou  maravilhosamente
quando conheci Helena. Eu tive dela uma sensao to grave de segurana,
de naturalidade de desartificialismo

178 179

e foi assim como si eu a conhecesse desde o princpio do mundo. Hoje  eu
sei que depender s de voc preservar a felicidade  da  sua  casa  e  a
companheira admirvel que encontrou. No preciso de mais. Ser testemunha
do seu casamento, abusando da sociedade, me atirando num  trem  sacudido
de trinta horas inteiramente desaconselhvel pra minha lcera que  exige
repouso, seria apenas uma vaidade minha, e bem temerria.  Vamos  evitar
tudo. Poucas pessoas sabem, e s  a  no  Rio,  do  seu  convite  amigo.
Procure entre os seus parentes ou de Helena, algum mais consentneo com
as exigncias do mundo. Do mundo exterior. O nosso mundo, o  seu  desejo
amigo, a minha felicidade amiga, a carcia que Helena me fez  aceitando,
tudo isso o mundo exterior no poder nunca  destruir  E  guardaremos  a
nossa trindade, ardendo, ardente, como a  trindade  dos  mistrios.  No
acha mesmo? Um abrao afetuoso pra Helena epra voc  toda  a  felicidade
deste amigo certo,

Mrio

        At que enfim, aqui, dois crticos* perceberam que "A Marca" era
uma marca mesmo, arre! Com um abrao pra vocs dois do

M.







*Em anexo, recortes de jornais com as crticas de Lvio Xavier  e  Lauro
Escorei.



S. Paulo, 13-VIII-44

        Fernando
        Primeiro um abrao pr esposinha, como vai Helena? Aquele dia do
telefonema fiquei triste dela no vir me dar uma  palavra  no  telefone,
quis pedir mas hesitei, no pedi. Depois,  como acontece mesmo,  fiquei
safado comigo porque no pedi. A obrigao era minha e esse seria o  meu
prazer, mas estes danados de complexos que entorpecem a gente, quando  a
coisa  inesperada e no d tempo  pra  raciocinar  e  reagir.  Sou  uma
besta, mas tambm fui bastante castigado que fiquei  sofrendo  e  com  o
desejo esperdiado, sou uma besta.
        Mas hoje no pra carta no. pra avisar voc que vou  mesmo  em
setembro pra Belo Horizonte e s no vou si suceder algum desastre.  Mas
eu prefiro acreditar em Deus a mepr disposio do acaso dos desastres.
No haver desastre e vou mesmo. Vai ser uma delcia de pelo  menos  uma
semana de noitadas  com  o  pessoal.  No  beberei  mas  pretendo  viver
de-noite. Estou fazendo fosquinha em voc com Helena pra  ver  si  vocs
criam virtude e vo tambm. Si no forem brigo por dois meses, outubro e
novembro.
        S falta marcar a data e isso pode depender de voc. Como  tenho
que pedir licena no Conserva, "pra tratamento da saudinha", mas  peta,
tanto faz ficar doente no princpio como no meio de setembro. No fim  j
no posso mais, tenho outros compromissos aqui.
        Me escreva com urgncia respondendo si vai e quando prefere  ir.
Eu prefiro logo no princpio, si possvel partir dia


        180 181

um daqui. 1, primeiro de setembro. Vou de trem, acho que  agora  agento
melhor, estou forte e me acham gordo. Si no forem  de  areo,  podamos
at combinar pra irmos juntos pra disfarar o sofrimento mido da viagem
na Central. E nesse caso eu ia daqui voando at o Rio e partiramos  da
no mesmo dia. Precisa ser no mesmo dia pra evitar as  dzficuL  dades  de
hotel a. No gosto de me hospedar na casa dos outros, prefiro hotel que
 muito mais cmodo pra mim e livre pra todos.
        Me responda o mais tardar at dia 20 prximo. S espero resposta
at esse dia pelo correio da manh, sou metdico. Si no  vier  resposta
vou nesse meidia tratar das minhas passa gens.
        Um beijo pras mos de Helena e guarde o abrao deste

Mrio



        Belo Horizonte, 27 de Novembro de 1944

        Querido amigo Mrio,
        Honestamente, esta carta deveria ser a resposta de uma que  voc
me escreveu faz hoje quase um ano, quando eu estava  em  Juiz  de  Fora.
Carta importante, cuja resposta eu adiei por  uma  poro  de  coisas  -
exrcito, manobras, etc. Depois vieram outras,  tanta  coisa  aconteceu!
Voc que escreve cartas sabe como    insuportavelmente  desagradvel  a
gente precisar responder, no  por  dever,  delicadeza,  etc.,  mas  por
necessidade vital de esclarecer, e no  entanto  ir  adiando,  por  causa
justamente da importncia da resposta.
        Foi o que se deu comigo. Casei, estou para  ser  pai,  mudei  de
idade, de residncia, de emprego e de idias. Mas alguma coisa ficou:  o
mesmo jeito de ser, que estabelece a relao entre ns, voc  queira  ou
no! Sugere comunicao, desperta estima, e  porisso que estou  fazendo
esta violncia em te escrever agora enquanto minha mulher  dorme,  quase
de madrugada. Violncia  contra  meu  estado  de  convalescente  de  uma
operao de apendicite h 8 dias  atrs,  e  violncia  maior  contra  o
estado a que as coisas chegaram entre ns dois.
        Porque positivamente eu no posso te perder como amigo, e  estou
perdendo. Por  culpa  sua,  mais  do  que  minha.  Quanta  humildade  eu
precisava ter, nesta carta que ser longa e arrancada a fora - para que
ela no te fira apenas, mas ferindo te faa me escutar, que  eu  preciso
de VOC, e voc est se negando a me ouvir. No sei por qu,

182 183

Mrio, mas a minha intuio  de que voc est desistindo de me  ajudar,
est tendo para  comigo  apenas  uma  cordialidade  convencional  e  bem
comportada. Voc conhece demais o Fernando Sabino de 20 anos, "sabido" e
disponvel, que te assustava pelos perigos que ele corria, mas que  voc
se dispunha a ajudar. Se voc nos seus verdes vinte anos  fosse  sujeito
aos mesmos golpes, s mesmas solicitaes, traies  e  ciladas  que  os
meus tiveram e continuam tendo, voc acha que escapava?  Pois  eu  estou
escapando, embora voc hoje talvez no acredite mais. Ca em definitivo,
para voc, num outro plano, o plano evasivo da relao de amizade apenas
convencional.
        Este tempo todo em que estivemos afastados, em que  tanta  coisa
me aconteceu, e apesar de todos os desencontros, o meu silncio  e  tudo
mais, uma coisa amadurecia em mim, e era a  amizade  que  eu  tenho  por
voc, pura e simples amizade de menino, voc era  para  mim  um  menino
companheiro de brincadeiras, irmo mais velho, era e  meu amigo.
        Voc certamente dir:"a que propsito vem  o  Fernando  com  uma
carta assim? Ele no me escreve, no responde s minhas cartas, est com
a vida diferente, foi arranjar sarna para se coar,  que  tenho  eu  com
isso?"
        A verdade, Mrio,  que esta carta no devia ser assim. Mas algo
me impedia de te escrever. Era essa terrvel certeza de que voc j  no
est me reconhecendo mais. Voc me conheceu um dia,  numa  certa  poca.
Estando eu em Juiz de Fora, fazendo estgio, cuidou de suas  coisas,  de
seus outros amigos, de sua lcera no  estmago,  de  sua  obra,  de  sua
prpria vida. Quando me encontrou de novo, no Rio, para voc eu  j  no
era o mesmo,

184

as coisas estavam acontecendo em mim, o mesmo, enquanto outros  tramavam
ao redor, j me convidando para o banquete, voc percebeu. Era a hora de
voc me sacudir pelos ombros, de me mostrar o perigo,  me  dizer  coisas
duras, que voc bem sabia que eu aguentaria, como continuo agentando, e
voc j me disse coisas duras que eu aguentei. No entanto voc apenas me
deu um tapinha nas costas; e em vez de coisas duras disse  palavras  bem
pensantes e cheias de amabilidade; em  vez  de  mostrar  o  perigo  voc
fugiu. Ento eu te digo que no me perdi como voc temeu, ao  contrrio,
a-pesar-de tudo eu ainda estou aqui, vivo e capaz, sem me  entregar  nem
me vender  vida.
        Mrio, meu amigo, talvez voc no saiba e nem  eu  mesmo  sabia,
que a razo  de  tudo  isso  residia  em  mim  subconscientemente,  numa
conversa que tivemos no Rio nas vsperas de eu me casar, no sei se voc
se lembra. Na janela do Hotel, voc me dava  conselhos,  aprovava  minha
deciso de me mudar, de comear a vida no Rio, etc. Mas  eu  sentia  nas
suas palavras meio procuradas que voc se movia  num  terreno  perigoso,
num mar de escolhos. Quando falou que eu  evitasse  colaborar  muito  em
jornais, escrever artigos, dar  entrevistas,  responder"enquetes",  toda
essa coisa por onde um escritor se lana num  determinado  centro  e  se
compromete, eu estava pensando que voc queria dizer era que eu evitasse
de me esbanjar, me perder em rodinhas de  caf,  evitar  muita  conversa
fiada - todos esses perigos comuns aos provincianos que chegam  ao  Rio.
Eu ouvia suas palavras com ateno, embora sabendo e voc tambm que  eu
j no corria tanto perigo. De repente, porm, percebi que  voc  estava
querendo dizer

185

outra coisa e sem jeito, sem coragem de  dizer,  no  sei.  Voc  estava
querendo me dizer que eu evitasse complicaes, para no me comprometer.
Voc tinha medo que eu escrevesse coisas que  estaria  pensando,  idias
levianas que eu j teria aceitado. Voc pensou isso e no  teve  coragem
de me dizer.
        No entanto, a coisa mais dura que voc  me  disser  eu  agento,
pode ter certeza. No agento e no admito  que voc  no  diga,  fique
pensando como daquela vez que  melhor remediar, adiar um pouco -  achar
que eu estou errado e no ter coragem de me dizer.
        Fique certo, Mrio, que s mesmo porque te quero muito bem  que
tenho foras para exigir que voc no se cale mais comigo. Naquela nossa
conversa no Hotel voc talvez sem saber estava  me  dando  por  perdido,
perdendo sua confiana em mim, prevendo um desastre e querendo adiar.
        E te digo mais: compreendi perfeitamente o fato de voc no  ter
comparecido ao meu  casamento  -  voc  sabe  muito  bem  que  eu  tenho
compreenso e conhecimento de voc para interpretar corretamente aquilo,
eu tambm no fui ao casamento de minha irm a um  quarteiro  de  minha
casa, no fui simplesmente porque achei chato e tive  tdio,  e  eu  amo
minha irm como a gente ama as irms. No entanto, a explicao que  voc
me deu em carta  das coisas  mais  melanclicas  que  tenho  visto,  me
convenceu que voc no me poderia mais  ajudar  porque  no  tinha  mais
condies. Disse que seria o meu padrinho apenas entre ns  trs,  voc,
Helena e eu, o que realmente  e no poder deixar  de  ser  nunca.  Mas
disse que no iria porque no tinha fora para enfrentar as injustias e
os mal-entendidos dos amigos. Com isso eu no pude concordar, porque no
 verdade. Ento foi  por  fraqueza  que  voc  no  se  serviu  de  uma
oportunidade daquelas? Era uma oportunidade que voc tinha, Mrio, e no
venha me dizer que por fraqueza  que voc no aproveitou.  Oportunidade
de  topar  uma  parada,  arrostar  tudo  e  todos,  amigos  e  inimigos,
injustias e malentendidos, por uma causa que voc achava justa, por  um
amigo que voc achava certo. Porque eu no posso acreditar que voc  no
me soubesse certo.Voc sabia ter  eu  desassombradamente  (  a  palavra
certa) afrontado tudo e todos, enfrentando em  pblico  a  causa  que  o
Presidente da Repblica representava, com outra,  antagnica,  que  voc
representa. Voc sabia que eu no ia te expor e  depois  tirar  o  corpo
fora, te apresentar ao ditador como um fiel admirador dele.
        Tudo isso pode parecer bobagem, Mrio, mas a verdade  que eu me
senti orgulhoso, envaidecido te convidando, e te contando que eu  tivera
a coragem de mandar dizer ao Getlio Vargas que ele podia ser o padrinho
de minha noiva,* mas o meu seria um ilustre opositor dele chamado  Mrio
de Andrade. O preo foi roxo, finquei o p, por pouco no deixei de  vir
a ser genro do Governador.
        Uma nica coisa faria sua ausncia justificvel: algum  problema
de ltima hora, impossibilidade absoluta de comparecer -  e  no  apenas
tdio, timidez, fraqueza, preguia. Pois ento fica decidido assim: para
mim, no ntimo, voc veio, Mrio. O Murilo Rubio te representou

---

* Tambm acabou  no  comparecendo  -  foi  representado  por  Juscelino
Kubitschek, ento Prefeito de Belo Horizonte.

        186 187

condignamente. Na hora que li  a  sua  carta  recusando  o  convite,  se
esquivando, meu sentimento no foi de revolta, mas de melancolia. Decidi
ento  adotar  com  voc  todos  os  bons  princpios  de  uma   amizade
convencional e bem comportada. Mas pensei no quanto voc j  me  ajudou,
desde o meu livrinho de estria. Porisso,  querido  Mrio,    cheio  de
emoo que eu te escrevo, j meio  sem  fora,  com  a  barriga  cortada
doendo, as costas doendo, os olhos cheios de cansao, a mo  trmula  no
papel. Voc nem queira imaginar como me  senti  quando  cheguei  a  Belo
Horizonte da outra vez e dei com a cidade cheia de sua presena na minha
ausncia - voc descendo a Rua da Bahia, no bar do Trianon com  a  minha
turma, senti inveja, era um amigo que eles tinham e  que  eu  quase  nao
tinha mais. Os casos seus que o  Hlio,  o  Paulo  e  o  Otto  contavam,
descrevendo tudo noite a dentro. Conversei com eles sobre voc,  quantas
vezes! Na Praa, no banco onde vocs conversaram sobre  mim.  "Que  vida
mais caningada, heim seu mano", que ns falvamos, e o mais engraado  
que esse seu verso ficou como uma chave para trazer voc para  junto  de
ns numa tristeza doce, puxar angstia...
        Olha, Mrio, eu fiz 21 anos outro dia, com um  vastssimo  exame
de conscincia, botei as coisas nos lugares. Estou  em  Belo  Horizonte,
hospedado no Palcio da Liberdade, navegando num mar de bostas (desculpe
a pornografia. bem empregada, no caso). E no entanto, como estou gozando
esse  pessoal!  Como  eles  hoje  me  respeitam  porque  eu  no   soube
respeit-los! No dia de meu aniversrio  fiz  uma  coisa  que  foi  como
arrumar uma estante desarranjada, tirar os  livros  todos  e  depois  ir
botando um por um no seu lugar. Trancado sozinho  num  quarto,  procurei
durante horas seguidas de silncio e solido atingir um desapego  e  uma
humildade absoluta. E quando me vi  assim  desfolhado,  chorei  como  um
menino. Depois me veio uma serenidade larga, e mansamente  mergulhei  no
que devia ser a minha prpria razo  de  existir:  a  f  em  Deus  e  a
esperana no Cristo.
        Tudo mais decorre disso. Me  recuso  a  aceitar  qualquer  outra
verdade que me queiram  impor.  Eu  existo,  eu  vivo,  eu  escrevo,  eu
morrerei por amor a Cristo. Por este amor vou de encontro a tudo. E  no
aceito do mundo e de suas instituies, venha de onde vier, at mesmo da
Igreja, outra frmula que no o amor. Creio simplesmente  que  todos  os
males existem porque os homens cortaram as amarras que os ligavam a Deus
e traram a palavra que o Cristo  lhes  veio  trazer.  Os  homens  esto
mortos, carregando o corpo como um fardo, e s com o Cristo  eles  podem
renascer da morte.  nisso que eu  creio,  tenho  f  no  Cristo,  e  me
encolho de vergonha por no ser um santo,  para  instaurar  no  mundo  o
reinado do pobre.
        Tudo isso foi o que constatei mais uma vez, no dia 12 de outubro
de 1944. Preciso atingir a  humildade  que  me  falta  para  poder  amar
plenamente. E criar por amor, escrever, ter filhos, andar, viver, morrer
por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo.
        Mrio de Andrade, ainda preciso de  voc,  e  no  te  dispenso.
Espero que voc no tire mais o corpo fora e lave  as  mos.  O  que  eu
tenho a fazer pode no ser importante, a no ser  para  mim.  Voc  sabe
coisas que eu no sei, viu coisas que  eu  no  vi.  Em  nome  de  nossa
amizade, que permanece e permanecer inviolada, te peo que no me

188 189

recuse mais sua palavra, no desista de mim. Toda e qualquer recusa  sua
ser covardia. Ento, eu  que desistirei de voc.
        Com um abrao da mais pura amizade do

Fernando

        Escrevi a mo, apesar da letra infame, porque  seria  tentado  a
tirar cpia e no quero ver mais esta carta, que ela me di.





190


S. Paulo, 3-XII-44

        Fernando

        Acabo de recebera sua carta e lhe  respondo-.  No  querofalhar
mais esta vez, mas tudo o que eu  tenho  a  dizer    to  difcil,  to
delicado e a sua carta me  deixou  to  cansado  Fernando.  Ser  talvez
possvel ao menos voc imaginar que lendo, eu tive quase sempre os olhos
midos. No tem importncia e Vamos a ver si  possvel  i  sem  mpetos
dispersivos, com muita grave calma, dizer alguma coisa de til.

        Eu creio que antes de mais nada, devemos deixar pra trs  aquele
nosso passado que principiou no dia em que  Voc  me  convidou  pra  ser
padrinho do seu casamento, at agora.  fcilpra ns  dois  deixar  essa
nuvem de lado, porque ns nos queremos realmente bem e eu vejo que  voc
tambm, como eu, mesmo afogado  no  mais  escuro  dessa  nuvem,  nem  um
momento siquer,ficou indiferente Mas, no  a primeira vez, mais uma vez
eu constato que essas nuvens entre  amigos  verdadeiros  so  feitas  de
malentendidos, tanto mais abominveis que so os mesmos dois amigos  que
se querem, os nicos culpados desses malentendidos Porque ambos, levados
por no sei que  esquecimento  da  verdade,  se  julgam  no  direito  de
interpretar os gestos e as palavras do outro, livremente, por si mesmos,
por sua prpria conta e risco,  e  no  pelo  que  o  outro    e  vinha
demonstrando sempre que . Eu lhe dizia palavras, Fernando, e  praticava
gestos, que nesta carta mesmo voc prova ter  interpretado,  no  apenas
pelo que eles diziam, e muito menos pelo que eu sempre fui pra com voc.
Tanto mais que nesta carta ainda voc reconhece


191



eu tantas vezes ter lhe dito coisas duras. Duras  pra  voc,  duras  pra
mim. Mas as suas interpretaes foram falsas. Foram exclusivamente suas.
Mas voc no foi o nico culpado, eu tambm. E pra  ser  suficientemente
modesto e deixar voc horrorizado, e com razo, apenas lhe  mostro  mais
este malentendido: Si nem bem chego a So Paulo, lhe escrevi  desistindo
de apadrinhar  seu  casamento  em  pblico,  foi  porque  eu  chegara  
convico de que voc preferiria que eu recusasse! Hoje eu sei  que  no
foi, por suas palavras; mas no convite que voc me  fez  foi  tamanha  a
insistncia  que  voc  botou  em  que  eu  conservasse  toda  a   minha
"liberdade" de aceitar ou no, que no queria que eu  tivesse  a  mnima
chateao, que eu iria me encontrar com pessoas  que  me  desagradam,  e
foram tantas as vezes que voc repetiu coisas desse jaez, que  eu  senti
em voc, pouco importa si inconcientemente ou no, a sugesto da recusa.
Ento recusei. Veja bem: nunca me passou pela cabea e muito menos  pelo
corao, que voc no desejasse que eu fosse padrinho do seu  casamento.
Desejou sim, desejou de corao pe,feito, eu sabia,  mas  eram  tais  os
desencontros desse desejo com a  realidade  prtica  e  pblica  do  seu
casamento, que eu senti voc mesmo sentir prefervel que  eu  recusasse.
Voc est vendo? eu posso  agora  lhe  pedir  perdo  de  um  sentimento
errado, porque a sua carta permite. Mas eu nunca desejarei a voc se ver
na conjuntura abominvel em que eu me vi, diante da sua insistncia, at
veemente, de invocara minha liberdade em recusar.  Malentendidos.  Ambos
fomos puerilmente culpados. Mas porque culpados?
        Aqui, Fernando, a culpa das nossas culpas ser minha,  si  culpa
existe. Sempre no  meio  das  minhas  mais  destrambelhadas  franquezas,
haver sempre uma reserva. No vale a pena esmiuar; basta  apenas  voc
lembrar os nossos trinta anos de diferena de idade eposio. Mas  nisto
eu ganho de voc numa vitria talvez escandalosa. Voc  se  retraiu  por
suas  razes.  Eu  me  retra  por"minhas"  razes.  Pouco  importa   si
desrazes. Mas eu nunca deixei de lhe responder
        a uma carta, quem me deve carta   voc.  No  ter  importncia
ainda. Sempre de vez em quando l vinha um  telefonema  de  camaradagem,
mas que isso, eu juro, eu sempre sube  interpretar  como  um  sentimento
mais profundo que camaradagem da sua parte: onde sube ver a  dificuldade
de retomar uma correspondncia depois do trompao vital de um casamento,
a felicidade justa de um amor realizado, a mudana de cidade, de  estilo
de vida, a aquisio de um oftcio e a transformao de funo. Tanto  na
vida como na arte. Agora voc no era mais o escritorzinho  dos  grilos,
mas tinha uma  Marca  que  na  minha  opinio  firme    uma  obraprima.
Tnhamos, no que continuar uma correspondncia,  o  passado  no  tinha
sentido  mais  diante  da  realidade.  Tnhamos    que    comear    uma
correspondncia. E, vagamente,  talvez  sim,  quem  devia  comear  essa
correspondncia  era  eu.  Pelo  menos  a  mim  era,    no    caso,    e
intelectualmente mais fcil. Fernando, como  que  ?  Isso  de  amor  
muito bom, mas: e o outro amor da sua bigamia? Mande  contara  idia  do
seu livro novo. Pra mim era mais fcil comear.
        Mas: e o outro amor  da"minha"  bigamia?  E  a  reserva?  Agora,
Fernando, eu s posso me socorrer do seu esprito inventivo de escritor.
Nada do que eu possa dizer, prova. S voc, imaginando, pode me  provara
si mesmo. Porm antes de continuar deixe eu lhe estadear  minha  vitria
escandalosa:  apesar  de  toda  a  minha  reserva,  apesar  de  no  ter
disfarado a humilhao da minha altivez numa carta fcil, me

192 193

lembrando jocosamente a voc;fui eu, sempre, que me...  me  rebaixei  (a
sensao era essa, embora no a concincia de), sem nenhum  disfarce  de
jocosidade, mas seriamente, gravemente, doloridamente fazendo  chegar  a
voc por algum amigo ntimo seu, que tinha o direito e o dever de  fazer
chegar isso a voc, a minha queixa e a censura. De que  resultou  a  sua
carta.
        Mas tudo isso no tem  importncia,  no  tem  importncia,  meu
Deus! Nem a minha reserva! Mas pra acabar com  o  caso  dela,  no  ser
ento possvel a voc imaginar o  difcil,  o  quase  trgico  da  minha
situao! Pois voc no pode ento imaginar que, mesmo  dentro  de  mim,
qualquer"chegada" minha a um escritor moo, eu  no  consigo  justificar
isso com um exclusivo interesse por ele, desinteressado por mim? Voc se
esquece que so vocs mesmos, moos, osprimeiros a no me  perdoarem  de
mim, chovendo elogios que s servem pra me martirizar ainda mais?  Ontem
mesmo eu ainda estourava com um rapaz do Rio por causa disso. Mas  mesmo
que  eu  consiga  me  ultrapassar  (no  me  provar,  mas   apenas    me
ultrapassar): voc se esquece que tem  gente  suficientemente  vil,  pra
publicar e assinar que eu sou Drcula me alimentando com  o  sangue  dos
moos? E voc se esquece que, mesmo sem semelhante  baixeza,  esse  ser
mais  ou  menos  o  vago  pensamento  censurado,  de  muitos  dos   meus
contemporneos de gerao, ou pouco menos, s porque no tendo  o  mesmo
estilo de  vida,  nem  a  mesma  paixo  exteriorizada  pela  vida,  so
incapazes de comprovar por sua prpria psicologia, a minha? E, deixe  eu
tera coragem horrorosa de afirmar: Nada prova, nada  prova  que  eu  no
seja um Drcula!
        Fernando: h mais, Fernando, h muito mais e o pior. Muito pior.
H uma convico em luta com uma concincia da realidade. H  nesta  rua
Lopes Chaves um ridculo homem que chegou  convico que neste  momento
culminante da vida, toda arte    pueril,  todo  indivduo  que  no  se
sacrificar totalmente pela vida coletiva  humana    um  canalha,    um
vendido,  um canalha. H um homem que chegou    convico  de  que  s
possvel lutar, e s  preciso matar ou morrer. Mas ao  mesmo  tempo  a
concincia  desse  mesmo  homem  repele  a  estupidez  dessa   convico
apaixonada e diz: No os moos. No se trata de condescendncia nao, nem
de piedade.  uma concincia. A concincia   que    clarividen  te,  a
convico  que  cega. Mas  esse  homem  v  horrorizado  que  as  suas
palavras so apenas aplaudidas prudencialmente  pelos  homens,  mas  so
seguidas por muitos moos - e seguidas demais! E se v de repente,  numa
retirada nada"estratgica",  mas  apavorada,  de  fuga,  diante  da  sua
convico  permanecida  sempre  ntegra  e  arraigada  e  vivssima.  Se
mentindo a si mesmo! Pra poder moderar os outros.
        Agora j no posso mais dizer que isso  no  tem  importncia...
Mas agora, com semelhantes dados, que voc podia muito bem ter recolhido
por si, ser possvel    sua  imaginao  de  escritor,  e  de  artista
verdadeiro, recriar a reserva?
        Apenas um exemplo, o mais violento, da minha  incongruncia,  do
meu estado atual desarvorado? Eu tenho um afilhado, tenente  de  aviao
que est na guerra. Amo ele como um filho, ou diferente: com a  angstia
exacerbada e insatisfeita, e sem compensaes, do solteiro que se  bota
amando uma criana com amores maca queados de um pai.  uma  sofreguido
de lembrana que me persegue e atinge a

        194 195

obsesso.  horrvel, Fernando, epor sinal que ele  se  chama  Fernando,
tambm. Fernando Morais Rocha, meu priminho. Outro dia, faz  uns  quinze
dias, era de-tarde, eu estava lendo aqui o lvaro Lins,  num  artigo  de
crtica falando em romance.  De  repente  larguei  o  livro,  principiei
escrevendo assim numa espcie  de  estado  medinco  (no  acredito  em
espiritismo), era um verso. A primeira estncia ainda  foi  bem,  era  a
saudade, a lembrana do  outro  Fernando.  Mas  a  segunda  estncia  j
terminava com uma reflexo muito amarga. E de repente, mesmo ansiando de
amor pelo afilhado bem querido, eu percebi que estava escrevendo  contra
ele! Acabei o poema chorando.
        Chega. H uma reserva, Fernando. No com voc: com todos os  que
so voc. Com voc, havia um despeito, no h  mais.  No  h  desiluso
nenhuma, mas h uma desesperana. Um enfraquecimento da esperana.  Veja
bem, por favor: no de voc como homem. Mas como artista. Eu principiei,
com uma imparcialidade glida, mida, longnqua, a duvidar de voc  como
escritor. Como artista. Voc tem direito  deperguntarporqu.  Isso  nada
tem que ver com a sua vida, absolutamente nada. Nada tem que ver  com  o
seu casamento, isso foi um apefeioamento; nada tem que ver  com  Helena
que te engrandece; nada tem a ver com o seu filho que,  pelo  contrrio,
responsabiliza voc muito. Isso ainda nada, absolutamente nada  tem  que
ver com o seu cartrio. A minha dvida de voc como  artista,  Fernando,
vem da sua psicologia. Poderei dizer da sua "ganncia" esttica?... Veja
bem: no disse sua ganncia de sucesso embora esta tambm talvez exista.
Mas fcil de refrear isso, a prpria vida muitas vezes  se  incumbe  de
refrear isso, naquela justa, digna,  equilibrada  e  necessria  vontade
elevada de ser amado e aplaudido (aplauso  compreenso e  aceitao  da
obra) sem a qual no existe artista verdadeiro. Nunca percebi em voc  o
menor laivo de "arasmo", no existe. A sua possvel ganncia de sucesso
se confunde, por enquanto, com o natural arroubo e o natural excesso  de
vitalidade  do  moo.  Assim:  eu  falo  exatamente  da  sua    ganncia
"esttica",  que  levou  voc  cedo  demais,  "Marca".  Eos   elementos
fundamentais de que  feita a "Marca", sejam os tcnicos,  sejam  os  de
assunto, denunciam essa ganncia esttica.
        E aqui, no por covardia no, Fernando, por coragem: eu  tenho
que me retrair e no dizer mais. Porque si eu dissesse, eu punha  diante
de voc um problema que jamais voc no deve ter. Que eu no  tive.  Que
no momento que me puseram ele pela frente, mataram uma obra  minha.  Que
todos os poucos que eu sei que tiveram, se perd eram. Se  es-  tragaram.
Se suicidaram. Seria simplesmente uma infmia, eu fazer uma  experincia
de psicologia artstica com voc. Fazer voc  de  cobaia!  Isso  eu  no
fao.
        Talvez fosse melhor que eu no tivesse tocado  nisso  eposto  na
sua cabea um mistrio. Mas voc me obriga a isso com a sua carta,  mais
perversa pra voc do que pra mim, me impondo uma  sinceridade  total.  O
que nem sempre adianta... Vamos pra diante, que o  tranco  dum  mistrio
at excita mais.
        Voc tem uma  ganncia  esttica  que  me  faz  duvidar  da  sua
continuidade de evoluo, como artista. E si eu  j  sabia  disso  pelos
elementos de que  feita "A Marca", todo um pedao  insustentvel  desta
sua carta confirma isso escandalosamente: a sua queda no"Cristo". Na sua
idade e na sua vida realizada, o Cristo no passa dum academismo. E duma
salvaguarda - como todos os academismos. O Cristo no  salvar  voc  da
sua derrota como artista. Si Cristo quiser

        196 197

agir, Ele matar voc artista, botando na sua mo a pena dum Coelho Neto
qualquer. No se"desculpe" em Cristo, Fernando, por amor de Deus! O  seu
caso no  o do Hlio, por  favor,  perceba.  Hlio  se  engrandece,  se
dignifica em Cristo, mas voc vai se perder. Eu no  estou  tratando  da
salvao da sua alma, Fernando, e j falei atrs que no  da  sua  vida
que me cabe duvidar aqui; eu  sei    da  sua  predestinao  divina  de
artista, e por ela e pelos elementos da sua arte, que eu duvido, no da
sua predestinao (ela  divina) mas do seu  destino  de  artista.  Voc
agora se desculpa em Cristo, e apenas. Faa um heroIsmo ainda  possvel,
Fernando, relembre os Evangelhos; e voc  no  encontrar  apoio  nenhum
para os elementos"estticos" da"Marca", nem da espcie de crime que voc
praticou contra voc mesmo.
        E no diga que eu no disse: se lembre,  e  basta  apenas  isso,
tudo o que eu disse de duro naquela nossa  conversa  aqui  no  Largo  do
Paissandu, no bar,foi tanto o esforo que eufiz que me lembro do  lugar,
da mesa, da posio em que eu estava.  certo que no falei  em  Cristo,
mas porque, s porque jamais voc  se  desculpara  Nele.  E  tambm  no
disse, antes de ler "A Marca". Mas eu no sabia!
        No  o assunto que eu no sabia: o assunto  esttico, mas  no
prejudica nem trai: eu no sabia, em meio das nossas conversas de cartas
- nica correspondncia que tenho aqui  mo, na secretria, que  jamais
guardei, mesmo no tempo da nuvem - o que eu no  sabia  era  do  esforo
prodigioso que voc estava fazendo pra se revestir dos 35 anos da  fora
de homem do artista. Sabia que voc estava trabalhando muito, e isso foi
timo. Sabia que  voc  tinha  coragem  de  estadear  uma  profisso  de
escritor, diante de

198

amigos "no analisa no" que queriam espontaneamente farrear  com  voc.
Naquele tempo cheguei a considerar voc mais perfeito que eles. Hoje  eu
prefiro a farra deles. Estou exausto.
        Mas  voc  fez  um  esforo  demasiado.  E   o    fantasma    do
menino-prodgio que se gasta demais me  persegue.  E  depois  disso,  eu
tenho seguido, mesmo sem voc sabe, a sua vida de artista. Voc continua
vivendo demais. E enfim, o que  mais duro de dizer, que desde muito  eu
estou querendo dizer mas sem fora pra dizer: voc no  foi  mineiro  na
criao da"Marca", e no est sendo mineiro na sua vida carioca,  e  nem
na sua vida belorizon tina de artista. Sempre:  de  artista.  Voc  est
vivendo  artisticamente  demais.  Voc  est   conquistando    simpatias
condescendentes mesmo nos grupos  que  deviam  detestar  voc.  Que  era
preciso que detestassem voc. Voc est escolhendo amigos  que  so  ms
companhias pro artista Fernando Sabino. Voc est  abandonando  os  seus
amigos de Minas, abandonando em gravidade, readquirindo  em  gratuidade,
em camaradagem, o seu grupinho, o Hlio (nem tanto), o  Otto,  o  Paulo,
que so os nicos amigos que podem salvar voc. Voc, de longe, no  Rio,
com saudade, tarde da noite, se desmanda a  escrever  cartas  gratuitas,
fazendo esprito! Isso  trair, se  trair,  trair  a  amizade,  trair  o
grupo, traira sua mineirice. E voc, desprovido (por dentro) de Minas, 
um artista acabado.
        Chega. O qu que eu posso fazer! Por  enquanto,  eu  s  desafio
voc, Fernando. Porque a minha"dvida", coisa que  eu  posso  justificar
como fiz, mas no posso provar: a minha dvida  sobretudo  um  desafio.
No se preocupe, mas seprevina desde j. O romance que voc conta  estar
fazendo, pode ser pior que "A Marca". No s no  tem  importncia,  mas
ser

199

sempre melhor que seja pior. J lhe disse mais duma vez:  "A  Marca"  em
qualquer sentido  um impasse. Ou mesmo, um fim de caminho. Voc tem que
principiar caminho novo.  No  comparando,  porque  a  meu  ver  no  h
comparao possvel de valor, voc tem que fazer o mesmo esforo herico
e louvvel do  Lcio  Cardoso,  quando  abandonou  tudo  e  reprincipiou
com"Luz no Subsolo".
        E  agora  chega,  chega  de  aparente  impossibilidade,    "meu"
Fernando.  possvel que eu tenha perdido um pouco da amizade que  tinha
por voc, mas nem um mnimo nada se perdeu da estima. O  que  se  perdeu
foi apenas aquela necessidade de  presena,  a  exigncia  de  convvio,
aquela talvez mais bonita gratuidade de  freqentao.  Isso  se  perdeu
bastante. A amizade ia se esgotando por falta de alimento e  poderia  se
acabar. Mas nada se perdeu da estima, deforma que tudo poder voltar  um
dia ao que j foi. Nunca deixei de querer bem voc, com todo o  egosmo,
a  insatisfao,  o  direito  e  a  glria.  Meu  Deus!  como  eu   leio
incansavelmente tudo quanto escrevem sobre voc... Com  que  verdade  de
prazer eu vejo chegar seu nome nas conversas... E como eu quero  saber..
E como a lembrana de voc, embora dolorosa s vezes,    uma  instncia
normal da minha vida... Vamos ser  prticos.  No  se  trata  de  nenhum
sacrifcio no. Volte com seus  problemas.  Talvez  seja  milhor  depois
desta troca de cartas, no voltarmos imediatamente a tratar  de  tudo  o
que estas cartas dizem. Passado algum tempo, voc vai ver que havemos de
sorrir de tudo isso.  Vamos  comear,  porque  nada  se  enfraqueceu  do
alicerce, e ele agenta firme qualquer reforma da  nossa  casa.  Eu  lhe
peo que me conte qual o assunto do  seu  romance,  como  o  arquitetou,
quais  as  suas  dvidas  sobre  isso.  E  fale  o  que  quiser,    fale
deHelena,fale dofilhinho por vir, fale: que doena  essa que voc  tem,
afinal? No  preciso  falar  muito,  nem  depressa,  e  se  aturdir  de
palavras. Entre ns isso no preciso, Fernando, nada seperd eu, nada se
acabou. E j neste fim de carta eu sinto que a amizade est se refazendo
fcil, depois que deixei de pensar,  eprincipiei  me  deixando  escrever
Porque me deu agora de repente uma vontade de abraar voc eficar junto,
de corpo  presente, sem assunto, deixando a vida passar. Eu quero  muito
bem a voc, Fernando.
        Um beijo nos cabelos de Helena, eu mereo. E que Deus abenoe  o
Trio novo.

Mrio

        Fernando
        Torno a abrir esta carta, depois  de  sobres  critada,  pra  lhe
dizer que reli ela, achei exatamente como eu queria, calma e grave,  mas
que me ficou dela a sensao de no estar como devia estar si refletisse
o sentimento perfeito do meu corao. No que esteja fria, mas  no  lhe
confia o ardor com que a escrevi. Nem pus nela ao menos um xingo  que  a
colorisse um bocado.  O  que  ela  reflete  exato    a  minha  tristeza
machucada e o abatimento em que estou. Mas  esse  abatimento,  si  agora
provocado pela carta de voc, no  voc que o causou. No se  arrependa
e no me poupe nunca:  o milhor jeito de me deixar leal pra comigo. Mas
estou abatidssimo, de fato, estou destroado.  um abatimento  de  mim,
provocado  pela  sua  carta,  mas  causado  por  mim.  Este  esgotamento
preventivo que do as fatalidades que a gente no pode mudar. Isso    o
que eu tenho e que causou o timbre desta

200 201

carta, no ausncia do ardor. At chego a achar bom que voce no aparea
aqui neste momento,porque o abrao dos meus braos no corresponderia ao
que eu sinto por voc. Mas acredite, mesmo com o timbre desta carta:  eu
quero um imenso bem a voc.

Mrio



 Telegrama                   a                                10-XII-44:
 FERNANDO    SABINO    AV    COPA    CABANA    769       apt.        601
 COP    RIO    DE    -RESPONDI        MESMO        DIA        INTERMDIO
 HLIO    NO    SABIA    ONDE    VOCE    ESTAVA    NADA    DE      MAIS
 IMPOSSVEL        QUALQUER        QUEBRA        AMIZADE         ABRAOS
 HELENA                            VOC                                -
 MRIO.



        Rio, 11/12/44

        Querido Mrio,
        Sua carta excelente me deixou ferido, amarrotado, me fez chorar.
Voc tem razo -   porque  voc  tem  razo,    por  isso.  Que  homem
extraordinario  voc, que eu nunca chegarei a  conhecer  completamente!
Tanta literatura! E eu no quero mais ser um artista Mrio. Quero,  como
escritor, apenas ser  fiel ao que existe de  unicamente  verdadeiro  em
mim. Sempre existiu - no foi uma revelao, no foi uma descoberta no:
eu sempre fui assim. Voc no percebeu e est  negando.  Que  adianta  a
arte se faz a gente escrever"A Marca", e se voc, o artista, o  crtico,
o conhecedor supremo chama a isso de arte? Ento isso  que  arte? Essa
macaqueao  muito  sutil,  esse  brinquedo  de  copiar  os  outros,  de
arremedar, de levar a srio  a  brincadeira  e  fazer  um  livro  como"A
Marca", e que e arte? Arte ento no  mais nada alm disso?! Porque  se
for s isso, Mrio, ento vamos reconhecer de uma vez que  no  sou  nem
nunca fui um artista. Se um livro que eu vier a  escrever  (sincero,  no
duro, me entregando todo, sem malabarismos, puro  feito  eu  quero  ser,
fiel a mim mesmo) acabar sendo dessa mesma espcie, me recuso  a  partir
da a escrever mais uma s palavra.
         escrevendo que consigo dizer as coisas. Mas no como quem  faz
um bolo, seguindo fielmente a receita:  prefiro  comer  o  bolo  que  os
outros fizeram. Voc no se enganou  com"Os  Grilos"  no,  eu  sou  "Os
Grilos". Ou por outra:  o meu retrato quando eu tinha dezessete anos,


        202 203

estava no ginsio e namorava uma menina chamada Lourdinha. Por  isso  eu
tenho hoje por ele (e por ela) essa ternura de ficar  olhando  e  falar:
"que carinha mais engraada que eu  tinha".  S  os  grilos  no  cantam
mais...
        Comecei a escrever um  conto,  que  ia  at  bem  direitinho:  a
histria de um menino de sete anos que um dia fez  xixi  no  cinema  por
causa da emoo da fita de mocinho, e ento ganhou um vasto pito do vov
que o levara e que o botou de castigo no outro domingo por causa do feio
que ele fizera. Ento ele fica na  janela  vendo  o  vov  sair,  com  a
irmzinha chamada Nenzinha, com o pai e a  me,  como  dentista  vizinho
(que estava querendo namorar a me) - todo mundo ia pro cinema  e  s  o
coitado do Russinho (comoomeninoeraassimchamado) ficou sozinho em  casa.
Foi dormir, depois de ter fuxicado a casa inteira, entrado e mexido  nos
lugares que lhe eram interditados, roubado doce na despensa se regalando
com a liberdade de estar sozinho,  para  compensar.  Teve  um  sonho  de
noite  muito  engraado.  Sabe,  Mrio,  fui  remexer  nesta  altura  os
originais do  conto  que  acabou  fracassado,  avacalhado  e  espichado,
inclusive na tentativa de botar  na  1a  e  3a  pessoa  ao  mesmo  tempo
(imitao de "Le Petit Chose" de Daudet, que li na poca). Pois foi esse
conto ingnuo que acabou virando uma novela, porque estava difcil achar
um fim e ento resolvi continuar a histria do coitado ate  o  resto  da
vida. E fui por a afora, na esperana de que virasse uma "obra-prima de
literatura". Se toda literatura  feita assim, merda pra ela!
        De um jeito ou de outro s posso confirmar com isso o  que  voc
chama muito bem de minha"ganncia esttica". E no haveria de ser,  como
voc  disse,  inspirado  nos  Evangelhos  que  o  autor  encontraria  os
elementos estticos que o levaram  a  produzir"A  Marca",  e  ao  "crime
cometido contra mim  mesmo".  Porque  se  eu  encontrasse  nas  Sagradas
Escrituras apoio para justificar essa"ganncia",  em  vez  de  continuar
tentando escrever, j estaria recolhido ao fundo de um convento.
        Bem, em que ficamos? Somente nisso: me refao da iluso  de  ter
literariamente me revestido da importncia de 35 anos.  Para  iludir  os
outros - inclusive voc.  De  ter  largado  os  meus  contos,  honestos,
sinceros, meus, que me levariam devagar, mas  levariam,  para  me  meter
prematuramente numa experincia literria, que,  se  me  valeria  apenas
como um treino, um afiar de instrumento, poderia tambm  ter  me  levado
inconscientemente  para  o  terreno  quem  sabe  da  mistificao   mais
completa, sem que eu pretendesse (como o Lcio Cardoso, que  afinal  tem
ao menos o mrito de  achar  que  est  certo).  Voc  duvida  da  minha
evoluo literria, por causa  da  "ganncia  esttica".  Meu  Deus!  Eu
tambm duvidaria, se continuasse acreditando em voc, no seu conceito de
arte. Vamos ser prticos: se arte  fazer justamente aquilo que a  gente
no , ento prefiro desistir de vir a ser artista.  Pode  ficar  certo,
Mrio, que no me atemoriza saber tambm que "se Cristo quiser agir, ele
matar o  artista  em  mim".  Porque  eu  no  quero  com  o  Cristo  me
engrandecer artisticamente, mas justamente me  perder  em  Cristo,  como
voc prev. No me desculpo no Cristo: no sou catlico do tom maior, do
herosmo, cavalgando sinos, empunhando a Cruz  frente das multides  em
marcha, querendo impor pela fora  aquilo  que  devia  se  ensinar  pela
humildade. A f em mim no foi uma vitria.  uma f que eu trago em mim

204 205

desde a infncia, e vem resistindo, eu mesmo no sei  por  qu.  Poderia
hoje ser apenas mais um de meus preconceitos burgueses, pela  comodidade
de ter com que me justificar. Uma salvaguarda, como disse voc. No ser
mais. Porque eu no a descobri, descobri apenas  a  necessidade  de  ser
fiel a ela. Esta  fidelidade  eu  escondia,  fazendo  dela  "segredo  de
alcova", porque no lutei  para  merec-la,  nasceu  e  morrer  comigo,
tentei sufoc-la e ela resistiu. Agora darei o melhor de  minhas  foras
para preserv-la. Para isso  preciso ser coerente comigo mesmo, no  me
trair mais, fazendo da Literatura apenas um jogo hbil para  merecer  os
aplausos da crtica.
        Quando penso hoje no que deu o meu esforo, a minha "conscincia
de arte", concordo com VOC que"no analisar" teria  sido  muito  melhor.
Mas nas nossas discusses sobre arte social eu estava querendo saber ate
que ponto essa ou aquela posio  seria  de  maior  proveito  artstico,
seria mais rica  esteticamente.  Eu  no  tinha  desenvolvimento  mental
suficiente para outra coisa seno  tirar  partido  literariamente.  (Fui
injusto com voc, me  perdoe.)  Relendo  suas  cartas,  algumas  s  fui
entender agora. Por isso sua conversa a no bar do Largo Pais sandu  no
adiantou nada, eu fingi que  entendi,  no  guardei  uma  palavra:  voc
estava falando grego para mim. Era como se voc presenteaSse  um  menino
de cinco anos com uma Metafsica de Aristteles, e ele ficasse  pensando
at onde aquilo lhe serviria para brincar. Mas reconheo que voc me fez
um enorme bem, Mrio, nem pode calcular. Porque ainda est em  tempo  de
se dar um jeito nisso.
        Voc j sabe que estou querendo me corrigir, ser menos gratuito,
menos disponvel e menos bobo-alegre. Me prevenir contra  os  amigos  de
ocasio. Meter o p na bunda das consideraes condescendentes. No  sei
como  que voc, com to poucos dados, soube me mostrar o perigo. E  no
 que eu j ia mesmo, de embrulhada? Fugi como  o  diabo  da  cruz,  das
portas de livraria e dos bares amarelinho-vermelhinhos-douradinhos e  me
refestelei em casa e pensei que estava salvo. Que nada,  eles  aqui  no
desanimam por to pouco... s agora percebi,  e  graas  a  voc.  Ainda
desta vez sou grato a voc, que me deu um tranco em cima da hora.
        Vamos ns dois comear de novo, Mrio. J sinto voc  to  perto
outra vez! O alicerce agentou.  Me  fale  de  novo  que  no  estou  te
chateando, com estas  cartas  longussimas.  Aceito  o  desafio  de  sua
"dvida", vou comear de novo. Mas jamais deixarei de precisar de  voc,
do amigo, do irmo mais velho. Voc esteve to longe! Voc  se  lembrava
de mim, falava com os outros, ningum nunca me disse nada! Queixei-me ao
Hlio, ao Paulo, ao Otto. Nada disseram. Resolvi escrever aquela  carta,
e s depois o Paulo me deu conhecimento,  ainda  assim    sua  revelia,
segundo ele, do que  voc  dissera  de  mim.  Ento  a  coragem  veio  e
escrevi.*

---

*"Eu j morava no Rio e estava passando  uns  dias  em  Belo  Horizonte.
Paulo me mostrou, sem uma palavra, a carta que havia  recebido,  em  que
Mrio assim se referia ao nosso futuro na literatura: "Tenho uma  enorme
esperana em  voc,  muita  no  Hlio,  alguma  no  Otto  e  nenhuma  no
Fernando." No me lembro como o Otto reagiu com o alguma que lhe  coube,
mas o meu mais nenhuma me deixou  revoltado.  Imediatamente  enviei  uma
carta ao Mrio, acusando-o de covardia por no ter ido apadrinhar o  meu
casamento, e por no me ter dito diretamente o que pensava de mim."  ("O
Tabuleiro de Damas", pg. 203. Editora Record.)

206 207

        Bem, querido Mrio: meu romance, Helena, meu filho  por  nascer,
meu desejo de ir a, ficam para outra carta.  Nesta  quis  apenas  falar
(sem ter falado) que de minha  parte  a  nossa  amizade  se  frutificou,
ganhando muito em profundidade. Estou saudoso do seu jeito.
        E perdoe a minha petulncia de moo. Sou moo, mas j  maior  de
idade, fiz 21 anos outro dia. E voc no  Drcula no -    meu  amigo,
meu irmo. O melhor abrao do seu amigo  e  irmo  pequeno  -  no  "to
bonito como o pssaro amarelo"*.

Fernando





* Rito do Irmao Pequeno,"Poesias" , Mrio de Andrade,  Livraria  MartinS
Editora.


S. Paulo, 6-1-45

        Fernando querido
        Tenho duas horas e vamos conversar um bocado. Mas antes como vai
Helena? e o pr-filho? E que  tenhamos  todos  um  bom  ano,  direito  e
fecundo.
        No vou argumentar contra a sua carta no. Me lembro que naquela
viagem de automvel aqui, o Dcio* na frente, ns dois atrs, um momento
voc me perguntou (tnhamos conversado j  o  dia  inteiro...):  -  Bom,
Mrio, a carta j est esclarecida. Ou qualquer coisa assim. E  como  eu
falasse que completamente no, ainda faltava esclarecer umas  coisinhas,
o que eu faria por carta: no sei, tive uma sensao viva de que voc se
desgostou, ou inquietou.
        Assim, no vou discutir nada. A Marca no  insncera e   arte.
Que voc tem de ir alm, no h dvida: j lhe falei isso vrias vezes e
voc mesmo diz isto nesta sua ltima carta. Que voc tem de ir  alm  de
"A Marca" dentro dos mesmos  caminhos  de  "A  Marca"?  Est  claro  que
absolutamente no. Tambm isto j lhe repeti vrias vezes  e  voc  sabe
por si. Os seus prprios artigos, como aquele  principalmente  sobre  os
mineiros, provam isso bem.
        Eu imagino, meu Fernando,  que  os  seus,  digamos,  sofrimentos
psicolgicos so bem grandes. Com seus artigos voc tomou o  alvitre  de
se comprometer consigo mesmo em pblico. No ser isso mesmo?  um jeito
leal esse. A gente, sem que  isso  chegue    concincia,  se  reconhece
frgil, incapaz

---

* Dcio de Almeida Prado.

        208 209

ou duvidoso de se vencer a si mesmo dentro consigo mesmo: e ento afirma
prematuramente.., pra se comprometer e se firmar  Eu  no  fiz  o  mesmo
no"Movimento Modernista"? Hoje eu sei que fiz. E imagino  que    o  que
voc fez tambm.
        Porque, Fernando, esta sua ltima carta parece provar uma  coisa
que, si acaso existir mesmo, como estou imaginando, eu  desejaria  fazer
tudo pra tirar isso de voc.  que voc se acovardou diante da Marca.  O
sucesso foi grande demais entre os mais hbeis em compreender (o  artigo
do Lauro Escorel  estupendo), voc tambm est convencido que  escreveu
uma "jia", voc ficou horrorizado com as suas  foras  vivas  que  voc
reconhece,  com  razZo,  inferiores  atualmente  s  foras  da   Marca,
principiou tendo medo do seu livro,foificando convencido de  que  o  seu
prximo livro no conseguir chegar siqueraos ps da Marca eseacovardou.
E se acovardou.
        E veio da essa necessidade dolorosa deautopunio, com que voc
destri agora a Marca e a insulta, prevenindo-se em seu futuro. Antes de
principiar esta, reli sua carta e tomei o cuidado de  grifar  as  frases
autopunitivas que vm nela. No vou enumerar todas. Mas veja  si  no  
prevenir ofuturofrases como:"quero ser fiel";"o que existe de unicamente
verdadeiro em  mim";  "esse  brinquedo  de  copiar  os  outros"  (em  "A
Marca");"levar a srio a brincadeira" "eu chamo de arte aquilo que ainda
vou fazer"; os grilos  o meu retrato "; "o crime  ("A  Marca")  que  eu
pratiquei contra mim mesmo"; "si toda a obra-prima feita assim (como "A
Marca") merda para a literatura;  "meus  contos,  honestos  e  sinceros,
meus, que me levariam devagar";"fazer justamente aquilo que a gente  no
, ento prefiro mil vezes deixar de ser artista"; "prefiro lutar contra
a minha arte";"e artista eu posso deixar de ser";"a minha  realidade  me
interessa muito mais que a  literatura,  a  beleza,  a  arte,  todos  os
valores eternos"; "me tra escrevendo A Marca";  "vou  comear  a  minha
arte".
        No enrubesa, Fernando querido, no  preciso tanto.  Mas  voc
est atemorizado e acovardado. E tanto, a ponto de se prevenir  sobre  a
Possibilidade de abandonar a literatura! Voc, que desde os  treze  anos
vem impregnado por fora e por dentro  de  literatura  e  de  literatice!
Voc, um tcnico, um virtuose  e  at  um  malabarista!  Deixe,  por  um
momento, Fernando, que eu maltrate voc com essas palavras que lhe fedem
a  insulto.  No  so  insultuosas,  Fernando,  mas  podem  se    tornar
insultuosas. Serdo insultuosas no momento em que voc nYo  puser  a  sua
tcnica, a sua virtuosidade e o seu  malabarismo  a  servio  de  alguma
coisa que seja pra todos digna e nobre. E no so insultuosas em relao
 Marca que voc mesmo tomou o cuidado de defender decisoriamente na sua
carta, ao reconhecer, numa contradio digna de lhe puxar as  orelhas  e
duma dzia de  palmadas,  que  "A  Marca  "    uma  traio,  voc  foi
insincero, etc. e tal, mas "no no que ela representa  ideologicamente"!
Voc est vendo? No: Voc no est errado, voc est  acovardado.  E  a
covardia  intil. No sei... As vezes eu imagino que Deus deve ser mais
esportivo que ns e  tomar  as  coisas  e  os  homens  com  mais  sense
ofhumour. Ou, com mais sade ainda: mais esportivamente. Os  verdadeiros
pecados mortais sendo em muito menor nmero do  que  ns  imaginamos.  E
sero outros. A Marca no  nenhum pecado mortal e trate  de  no  fazer
dela um trambolho na sua vida. Reconhea lealmente que,  dentro  da  sua
ideologia, 4 Marca"  uma  bela  coisa.  Apenas,feita  "A  Marca",  voc
reconheceu quea ideologia dela era insuficiente em face  de  Deus  e  da
vida. E resolveu fazer

210 211

coisa milhor. Voc no errou, voc vai pra frente. E  vai  por  caminhos
inusitados.
        Suponhamos que voc v cair. Suponhamos que o seu romance futuro
seja  inferior  (esteticamente)    novela.  Primeiro:  nunca  o    ser
ideologicamente, pra voc, desde que voc no traia, da mesma forma  com
que em Marca no traiu. Esteticamente  muito  provvel  que  o  romance
futuro seja inferior  novela. Esta, meu caro, tem cem anos  por  detrs
dentro da lngua e da esttica do Brasil. O seu romance  futuro  suponho
que no tem dez, talvez nem cinco. Pois tome esportivamente o seu  caso.
Sempre a srio, se esbofe, no economize nada, gaste tudo,  jogue  todas
as suas cartas na mesa e no blefe. E si o livro  no  sair  bom,  diga:
perdi. E comece outra partida. Porm no livro defeituoso  ou  fracassado
voc ter um caminho. Em "A Marca" voc fechou um  beco.  Mas  estou  me
repetindo, que muitas vezes j falei isso a voc.
        Mas,pra no esquecer nada: Tambm  o  livro  novo  pode  ser  um
descaminho... Nisto, a sua visita me deixou um bocado  de  inquieta  o
que a sua carta confirma. Voc aqui me falou muito, e insistiu mesmo  em
preocupaes  "estticas"  que  me  pareceram  bastante  gnero   tric:
escrever o livro na primeira pessoa, e  coisas  assim.  Ora,  na  carta,
pra...  trair  "A  Marca",  voc  se  tomou   de    amores"on    revient
toujours"pelos"Grilos". Ora, carece voc no se  intoxicar  muito  pelos
"Grilos", por favor "Ideologicamente" eles so to insuficientes  e  to
beco-sem-sada quanto "A Marca". Si voc est  de  fato  disposto  a  se
abrir um caminho seguro para uma vida literria  mais  utilmente  viril:
voc tem que cuidar muito, preliminarmente, e sobretudo, com o que o seu
romance  novo  represente  como  funcionalidade.  Como  ideologia.  Como
assunto. Voc carece duma franqueza, duma lealdade, duma  imparcialidade
e duma ausncia total de complacncia  pra  consigo  mesmo,  pra  evitar
todos os mil e um descaminhos dos sofismas. No se esquea por favor que
voc  um  ancio  de  quinhentos  anos  no  vcio  duma  ideologia.  Da
ideologia de "A Marca". Pra abrir caminho, pra se justificar  diante  de
si mesmo, diante da vida e de Deus, voc tem de abrir   estrada  larga,
franca. Beethoven primeiro escreveu A  Herica  pra  depois  escrever  a
PastoraL Num caso como o de voc, qualquer  gua-de-rosa    descaminho.
Simplesmente porque, por bons que sejam um Oswaldo Alves, um Emil Farhat
e 365 outros, voc  milhor. E  misterioso como  o  milhor  pode  errar
mais. os que escorregam apenas. Mas os milhores quebram a cabea. E  no
caso de voc, tudo o que  seja  acertar  no  alvo  (ideologicamente)  ou
quebrar a cabea  nobre,  digno. Escorregar apenas,  gua-de-rosa.  E
no seu caso, o seu maior perigo  ser si mesmo. A tal  de  "sinceridade"
que voc invoca o seu maior perigo. E que sinceridade  se  voc  no  
voc! A sua sinceridade por enquanto  a sua  espontaneidade.  E  a  sua
espontaneidade so dez milhes de anos de crimes humanos, dois mil  anos
de traio ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um
anos defilhinho de papai, quinze anos de aluno de escolas e  professores
que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso   a  sua  "sinceridade".  E
voc sabe que ela no vale um tosto." Agora  que voc vai construir  a
sua sinceridade, e a espontaneidade de voc. Porque agora  que voc vai
escolher. At agora escolheram por voc. Agora  que voc vai saber. Mas
pra saber voc precisa estudar e refletir  muito.  Leve  trs  anos  pra
escrever o seu romance novo. Ou cinco. No  faz  maL  Mas  adquira  pelo
sofrimento perfeito da anlise da vida e dos "seus" autores,  uma  coisa
muito mais nobre que a es-

        212 213

pontaneidade e muito mais espiritual que a sinceridade: a convico. Uma
convico. Que sejamos inimigos at pela convico que  voc  conquistar
Que nos odiemos. Mas no se perder o que h de mais elevado na  relao
entre os homens, a estima. No me obrigue mais a lhe dizer tudo isto,  
to difcil de dizer. Mas quis cumprir na ntegra o meu dever da  imensa
amizade que eu tenho por voc. Corrija os seus temores. No tenha temor,
tenha medo, susto inteiro, horror  da gua-de-rosa. Pro caso de voc, o
nico perfume possvel  o do sexo.
        Pra  este  fim,  reservei  uma  espcie    de    pedido.    Voc
absolutamente no deixe de vir pro Congresso dos Escritores. Parece  que
as coisas esto se aprontando de tal maneira que  pros  que  tm  alguma
noo de dignidade e alguma concincia da Inteligncia nacional,  deixar
de vir  uma deserao.
        Com o mais afetuoso abrao pro Trio do

Mrio





NDICE                                                        ONOMSTICO
 Alighieri,                Dante,                51,                 168
 Alphonsus,                Joo,                95,                  142
 Alvarenga,                   Oneida,                                107
 Alves,                      Oswaldo,                                213
 Andrade,  Carlos  Drummond  de,  106,  136,  138,   143,    148,    165
 Andrade,        Rodrigo        M.        F.        de,                9
 Anjos,        Cyro          dos,                101,                107
 Arinos    de    Melo       Franco,        Afonso,        14,        135
 Aristteles,                    166,                                206
 Azevedo, Alvares de, 96

 Bandeira, Antnio Rangel, 178
  Bandeira,              Manuel,                9,58,                165
 Bastide,                Roger,                123,                  124
 Beethoven, 168, 213

 Campos, Paulo Mendes, 9, 188, 199, 207
  Cardoso,Lcio, 151,153,154,155, 156, 157, 163,  164,  165,  167,  169,
170,     171,        172,        173,        178,        200,        205
 Cervantes       Saavedra,        Miguel        de,        51,        52
 Csar,               Guilhermino,                17,                136
 Coelho Neto, Henrique Maximiniano, 198

214

 Chopin,                   Frederico,                                144
 Cruz        e        Souza,        Joo           da,                52
 Daudet,                    Alphonse,                                204
 Disney,                Walt,                95,                     106
 Dostoievski, Fiodor, 166, 168

 Escorei,                Lauto,                180,                  210
 Etienne Filho, Joo, 9, 116, 125

 Farhat,                        EmiI,                                213
 Faria, Octavio de, 84, 87, 102, 144, 154, 155, 156, 164, 165, 166, 167,
168,    169,    170,    171    France,    Anatole,        52,        173
 Freitas        Jnior,        Otvio,           135,                174
 Freud, Sigmund, 167

 Gide,                          Andr,                                85
 Goethe,    Johann    Wolfgang,    51,       166,        167,        168
 Grieco,                    gripino,                                158
 Guimaraens, Alphonsus de, 9, 148, 175

 Herskovstz,                                                          73
 Hitler,                        Adolf,                                33
 Hugo,                         Victor,                                72
 Huxley, Aldous, 167

 Ibsen, Henrick, 52

215

 Kubitschek, Juscelino, 187

 La        Fontaine,           Jean                de,                50
 Lacerda,                       Carlos,                                9
 Lins,        Alvaro,        60,        63,        124,              196
 Lisboa,                Henriqueta,                9,                123
 Lobato, Monteiro, 14

 Machado,                Anbal,                123,                 138
 Machado,       Antnio        de        Alcntara,        46,        55
 Machado  de  Assis,  Joaquim  Maria,  52,   102,    129,    130,    162
 Mariano,                    Olegrio,                                50
 Martins,        Editor,        123,127,133,135,        138,         139
 Matos,                Gregrio                de,                    52
 Maupassant,                Guy                de,                   162
 Meio  e  Souza,  Antonio  Candido    de,    107,    136,    139,    147
 Mendes,                       Murilo,                                71
 Miranda,                       Murilo,                                9
 Moraes,                Vinicius                de,                   21
 Moraes,        neto,        Prudente               de,                9
 Morgan, Charles, 167

 Nava,                           Pedro,                                9
 Noronha, Gentil, 59

 Olympio, Jos, 138, 139

 Pedrosa,                       Jos,                                106
 Pellegrino, Hlio, 9, 105,113,115, 116, 119, 120, 124, 125,  126,  128,
137, 138, 139, 140,  149,  151,  158,  159,  160,  162,  198,  199,  207
 Pena,                      Corniio,                                167
 Picasso,                        Pablo,                                5
 Pinto,                Ferno                Mendes,                  52
 Portinari,    Cndido,    9,     104,        107        108,        111
 Prado, Dcio de Almeida, 209 Proust, Marcel, 52, 166

 Queiroz, Rachel de, 9

 Rabelais,                   Franois,                                52
 Ramos,                   Graciliano,                                102
 Rangel,                         Lcio,                                9
 Rebelo,                     Marques,                                140
 Resende,OttoLara,        9,        188,         199,                207
 Ricardo,                   Cassiano,                                174
 Rocha,               Fernando                Morais,                196
 Rocha, Gilda Morais,  53,  56,  107,  108,  121,  122,  136,  139,  143
 Rubio, Murilo, 9, 60, 106, 115, 140, 187

Schmidt,        Augusto        Frederico,          71,                16
 Segall,                       Lazar,                                104
 Shakespeare,             William,                51,                168
 Stalin, Joseph, 33

 Valladares, Helena, 110, 114, 115, 128, 139, 141, 180, 181,  182,  186,
201,                             208,                                209
 Vargas,        Getlio,        33,        94,        174,           187
 Vieira,                Jos                Geraldo,                 167
 Vieira, Padre Antnio, 52

 Werneck de Castro, Moacir, 9

 Xavier, Livio, 180





NDICE

 S.        Paulo,             10-1-42                /                13
 B.H.                15-1-42                /                         16
 S.                     Paulo,                                25-1-42/20
 B.H.                30-1-42                /                         27
 S.        Paulo,        1        6-11-42            /                30
 Belo    Horizonte,    10    de    Maro    de    1942       /        40
 S.        Paulo,           21-111-42                /                46
 B.    Horizonte,    7    de    Abril    de        42        /        55
 Belo    Horizonte,    3    de    Maio    de     1942        /        59
 S.        Paulo,             8-VI-42                /                62
 B.    Horizonte,    13    de    Julho    de     1942        /        64
 B.       Horizonte,        28        Julho        42        /        69
 S.        Paulo,           6-VIII-42                /                70
 B.H.                                                         lSet.42/74
 S.        Paulo,              9-X-42                /                78
 B.    Horizonte,    29    de       Outubro        42        /        82
 S.        Paulo,            6-XII-42                /                86
 Belo    Horizonte,    30    de    Dezembro    de    1942    /        88
 S.        Paulo,             23-1-43                /                92
 B.    Horizonte,    11    de    Maro    de     1943        /        99
 Belo    Horizonte,    24-25    de    Maio    de    1943    /        104
 B.H.                3-6-43                /                         108
 S.        Paulo,           16-VI-43                /                110
 B.H.                20-7-43                /                        116
 Belo    Horizonte,    16    de    Agosto    de    1943     /        122
 B.H.                13-8-43                /                        127
 S. Paulo, 21-VIII-43 / 128

216 217

 S.        Paulo,         24-VIII-43                /                129
 B.H.    16    de     Setembro        de        1943        /        133
 Belo    Horizonte,    23    de    Setembro    de    1943    /       137
 S.        Paulo,           28-IX-43                /                141
 Juiz    de    Fora,    15    de    Outubro    de    1943    /       147
 S.        Paulo,            27-X-43                /                149
 S.        Paulo,           1-XII-43                /                150
 Juiz        de        Fora,        7-12-43         /                152
 S.        Paulo,          24-XII-43                /                159
 S.        Paulo,            2-11-44                /                164
 S.        Paulo,        8-111-4        4           /                177
 S.        Paulo,            23-V-44                /                179
 S.        Paulo,         13-VIII-44                /                181
 Belo    Horizonte,    27    de    Novembro    de    1944    /       183
 S.        Paulo,           3-XII-44                /                191
 Rio,                                                       11/12/44/203
 S.        Paulo,             6-1-45                /                209
 NDICE                ONOMSTICO                /                   215
 NDICE / 217

 Fernando
 Sabino
 Cartas
 na                                                                 mesa
 Aos                      trs                                parceiros,
 meus amigos para sempre

O "encontro marcado" com o seu parceiro Hlio Pellegrino foi  no  Jardim
de Infncia, aos 6 anos de idade. Depois foram colegas  de  grupo  e  de
ginsio. E continuaram amigos pela vida afora.
        O primeiro encontro com o parceiro Otto Lara Resende se  deu  na
adolescncia. Otto revelaria mais tarde que ficara impressionado  porque
"Fernando conhecia marcas de carro, era campeo de natao e  s  falava
futilidades..."
        Com Paulo  Mendes  Campos  ele  iniciou  a  parceria  tambm  na
adolescncia: foi numa festa onde travaram uma discusso  literria  (na
realidade estando um deles - ou ambos - interessados em impressionar uma
linda jovem ali presente).
        Conversavam os quatro (ou trs,para falar mal do ausente) dia  e
noite sem parar, em Belo Horizonte e depois no Rio.
        Rebeldes, inconformados, predominava entre eles a  irreverncia.
Eram contra as convenes e convenincias, a

218

comear  pela  vocao  literria  que  os  unia.  Preferiam  exercer  a
criatividade animando com suas estripulias as ruas pacatas (sem eles) de
Belo Horizonte daquele tempo.
        Encerravam as  noitadas  de  andanas  num  banco  da  Praa  da
Liberdade, s vezes at o  nascer  do  dia,  "puxando  angstia".  Assim
designavam aquela espcie de ritual inspirado no que Miguel  de  Unamuno
(um de seus autores prediletos) batizou  de"sentimiento  trgico  de  la
vida".
        O que no impedia o eventual  interesse  de  um  deles  (ou  dos
quatro) por alguma atrao feminina que acaso circulasse pela noite.
        Tudo isso (e muito mais) transparece nestas cartas (mais de 100)
enviadas por Fernando Sabino quando em viagem aos seus trs  amigos,  de
1943 a 1992. Durante cerca de 50 anos,  portanto  -  uma  vida  inteira!
Segundo chega ele a confessar,  s  se  justificam  pela  insanidade  do
remetente - (e, por extenso, dos destinatrios). Mesmo em linguagem  s
vezes meio destemperada -  ou  por  isso  mesmo  -  elas  o  uma  idia
impressionante do que foi esta fabulosa relao de amizade.


        O livro termina  com  uma  entrevista  extremamente  indiscreta,
concedida por eles a uma revista, e nela designados pelos desconcertante
epteto de"Quatro Mineiros do Apocalypse".

        "Eu queria ficar  com  vocs,  Hlio,  e  estou  cada  vez  mais
longe.... Ontem ns ramos  quatro  amigos,  semp  re  juntos,  tudo  se
resolvia depois de alguns chopes - e de madrugada, no banco da praa, as
coisas eram simples e puras. Ainda outro dia ns  ramos  meninos...  Se
resta ainda algum consolo, Hlio,  o de esperar que a amizade  persista
para sempre entre ns quatro. " (Rio, 12-8-44)


"... Bem, Otto, ainda no h na da definitivo quanto   minha  Volta  ao
Brasil. As vezes me d vontade de no voltar mais nunca - como no  verso
do Moraes sem ser Vincius. no sonhar mais nunca, ser apenas Sabino sem
ser Fernando. ...Sim, envelhecemos. Mas que seja na  base  daquela  muda
afeio em que as verdadeiras amizades se sustentam.  Como  bom  sermos
amigos. Como precisamos um do outro!" (New York, 19-2-48)


"... Naquela noite, nos arredores  de  Petrpolis,  parei  o  carro  num
barzinho da estrada para pedir uma informao. E quem  estava  l  seno
voc, Paulo, sozinho numa mesa ao fundo?  Quando  me  viu,  voc  apenas
disse para a moa que estava comigo. "Esse cara  nunca  me  decepcionou.
Sa, levando no apenas a moa, mas a alegria por ser chamado  de  cara,
com uma intimidade fraternal que iluminou esta verdade no meu  esprito.
voc tambm, cara, nunca me decepcionou." (Rio, 2 7-2-88)


        "... Sim, eu disse que j gostei da sua novela sem  precisar  de
ler. E da? Pior seria ler e no gostar. Que importncia  tem  isso,  em
face da eternidade?" (23/3/46)

Hlio Pellegrino

        "... Devo confessar, Fernando, que te invejo por  ter  um  amigo
como eu que te inveja tanto. Espero que a recproca seja verdadeira, seu
invejoso." (10/10/58)

Otto Lara Resende

        "... Acontece que s vezes, no sei por que razo, eu sinto  que
voc acredita em mim. Mesmo que seja engano meu (ou  seu),  isso  j  me
deixa feliz." (20/6/84)


 Fernando
 Sabino
 Cartas
 na                                                                 mesa
 Paulo                      Mendes                                Campos
 336                pginas                -                     R$35,00
  venda nas boas livrarias.
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        Iniciando-se na adolescncia com um livro  de  contos,  Fernando
Sabino chamou a ateno para o seu nome em 1944 com uma novela, A Marca.
Em 1948, voltando dos Estados Unidos, onde vivera cerca  de  trs  anos,
fez sucesso com um livro de crnicas, A Cidade Vazia, acrescida em  1976
da premonitria reportagem "Medo em Nova York".
        Com O Encontro Marcado, primeiro romance, em  1956  abre    sua
carreira um caminho novo dentro da literatura  nacional,  Os  livros  de
contos, crnicas e histrias curtas que se sucederam, O Homem Nu (1960),
A Mulher do Vizinho (1962), A Companheira de Viagem  (1965),  A  Inglesa
Deslumbrada (1967), Gente 1 e 11(1975), Deixa o Alfredo Falar! (1976)  e
O Encontro  das  Aguas  (1977),  vieram  reafirmar  suas  qualidades  de
prosador.
        Em 1979 surge  o  segundo  romance,  O  Grande  Mentecapto,  que
imediatamente conquistou verdadeira consagrao nacional.  Lanou  ainda
novo livro de crnicas e pequenas histrias em 1981, A Falta que Ela  me
Faz. No fim de 1982, apresenta o terceiro romance, O Menino no  Espelho,
que logo ultrapassa a casa dos 100.000 exemplares. Em 1983, publicou com
igual sucesso a coletnea de crnicas e histrias  O  Gato  Sou  Eu.  Em
1985, provocou verdadeiro impacto com o seu surpreendente livro  A  Faca
de Dois Gumes, uma trilogia de amor, intriga e mistrio: "O Bom Ladro",
"Martini Seco" e "O Outro Gume da Faca". E em 1988  lanado O Tabuleiro
de Damas, esboo de autobiografia que  a "trajetria do menino ao homem
feito" e De Cabea para Baixo em 1989, relato suas andanas, e tropelias
pelo mundo a fora.
        Em 1990  lana  A  Volta  por  Cima,  coletnea  de  crnicas  e
histrias curtas e, em 1991, o livro Zlia, Uma Paixo. Em 1993 publicou
Aqui Estamos Todos Nus, reunindo as novelas "Um  Corpo  de  Mulher",  "A
Nudez da Verdade" e "Os Restos Mortais". Tambm em 1994 foi editado pela
Record Com a Graa de Deus, uma leitura fiel do Evangelho, inspirada  no
humor de Jesus. Em 1998 a Editora tica lanou Amor de Capitu, recriao
literria do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E ainda em 1998,
alm de O Galo Msico, "contos e novelas da juventude   maturidade,  do
desejo ao amor", a Record editou o livro de crnicas e histrias No  Fim
d Certo. Em 1999 foi agraciado com o prmio Machado deAssis da Academia
Brasileira de Letras pelo Conjunto de Obra e editou pela Record A  Chave
do Enigma, crnicas e histrias. Em 2001 reuniu em Livro Aberto as  suas
"pginas soltas ao longo do tempo",  e  a  correspondncia  com  Clarice
Lispector em Cartas Perto do Corao.



Este livro foi composto na tipologia Original Garamond, em corpo  11/14,
e impresso em papel 0ff set 75g/m2 no Sistema Cameron da Diviso Grfica
da Distribuidora Record.
